Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Trindade Coelho e a Língua Mirandesa

 [Estudo publicado no jornal Mensageiro de Bragança de Março de 2003]

 

 

1. Também nós temos o “nosso cacho de mirandeses”

 

Embora J. Leite de Vasconcellos e António Maria Mourinho já tenham chamado a atenção para o contributo dado por Trindade Coelho à defesa e divulgação da língua mirandesa, continua a ignorar-se a importância e a extensão desse contributo. Tive, recentemente, a ocasião de abordar este tema quer no boletim “Forum Terras de Mogadouro”, e numa conferência proferida na terra natal do ilustre escritor a convite da Câmara Municipal, por ocasião do 1º centenário da publicação do seu livro In Illo Tempore, de que aproveito as partes mais relevantes para este artigo. Justifica-se trazer o tema a um leque mais alargado de público, pois é pouco quanto façamos para pagar a dívida que os mirandeses temos para com Trindade Coelho e é um acto de justiça tirar do esquecimento o seu  gesto de enorme nobreza em relação à língua mirandesa.

Este gesto de Trindade Coelho é um elevado exemplo para a intelectualidade, em particular a trasmontana, efectivamente preocupada em conhecer a nossa identidade como povo e em restaurar o nosso orgulho cultural, tão negligenciado ou esquecido por muitos que se nos apresentam sob a veste de sábios. Algumas das nossas instituições, como o Instituto Politécnico de Bragança, devem assumir a sua responsabilidade neste domínio, que já tarda.

Na sua preocupação em defender e em divulgar a língua mirandesa, Trindade Coelho tem presentes os laços íntimos entre a língua mirandesa e a cultura de toda a Terra de Miranda, no seu sentido mais amplo e histórico (concelhos de Miranda do Douro, Vimioso, Mogadouro, e parte dos concelhos de Bragança, Freixo de Estada à Cinta, Moncorvo e Macedo de Cavaleiros). Muito da língua mirandesa ficou espalhado por esses locais, de modo mais ou menos patente: no especial dialecto trasmontano, na toponímia, na literatura oral, na música, na dança, nas crenças religiosas, nos saberes sobre a terra, a agricultura, o tempo, o modo de enfrentar a doença, etc. Há um trabalho urgente para fazer o levantamento desse fundo identitário comum, só possível através de um novo aprofundamento daquelas temáticas, capaz de levar a novas e mais avançadas sínteses. Em suma, pelo que significa e enquanto resultante de uma realidade histórica mais ampla, a língua mirandesa não é apenas um problema dos mirandeses, mas dos trasmontanos e dos portugueses em geral.

 

 

2. O mais ambicioso programa de divulgação da língua mirandesa 

 

A 1 de Novembro de 1896, Dia de Todos os Santos, Trindade Coelho, sob o pseudónimo de Ch.-A. Hysson, reinicia a sua colaboração com o diário lisboeta O Reporter, assinando uma extensa e colorida secção, intitulada ECHOS. A secção ocupa o essencial da primeira página e é dedicada às mulheres, às crianças e aos artistas. Acrescentar-lhe-ia um outro amor, que ele não confessa, mas que grita em quase todos os números do jornal: a sua terra, mãe que deixou muito cedo e, invertendo os papéis, levava ao colo para onde quer que fosse. Naquela secção, promete manter a elevação na escolha dos assuntos e uma luta constante pelos ideais em que acredita, como diz em O Reporter de 7 de Novembro de 1896: “...Ser pacífico é meio caminho andado para ser bom; ser bom, meio caminho andado para ser justo; ser justo, meio caminho andado para ser vencedor, e portanto feliz. Eu ainda não creio que este mundo seja dos maus...”. Face a tantos dramas e pesadelos a que assistimos nos nossos dias, é bem actual a fé de Trindade Coelho: “Eu ainda não creio que este mundo seja dos maus...”.

Numa das sub-secções, Trindade Coelho publica, em português, o evangelho de cada domingo. Nessa mesma altura vivia em Lisboa o ilustre pedagogo Manuel Ferreira Deusdado, transmontano dos quatros costados, natural de Rio Frio – Bragança e com laços familiares muito fortes à Terra de Miranda, em particular a Genísio e à Póvoa. Como tantos outros, segue diariamente a secção de Trindade Coelho e, ao ler os evangelhos publicados por este, tem uma ideia brilhante, que resolve transmitir-lhe por carta de 29 de Dezembro de 1896, a de publicar os evangelhos em mirandês. Ele tinha consigo um belo volume com a tradução feita por Bernardo Fernandes Monteiro e decide depositá-lo nas mãos de Trindade Coelho.

Nesse ano, como noutros em que não podia sair de Lisboa, também Trindade Coelho deve ter sentido saudades do Natal do seu Mogadouro. Tardou quatro dias, mas acabara de chegar a sua prenda de Natal. A mais de cem anos de distância, não é difícil vê-lo, horas seguidas, a folhear com um brilho nos olhos aquele ‘bello volume’ escrito com a caligrafia de Bernardo Fernandes Monteiro, de ‘368 páginas in-folio’ (J. Leite de Vasconcellos, Estudos de Philologia Mirandesa, I, 29-30). O som dos Evangelhos em mirandês, seguramente o transporta à sua infância, sobretudo a Travanca onde ouvira algo de muito semelhante da voz do povo, linguagem que tão bem retrara no conto ‘À Lareira’, publicado já em 1894. Teria sido fácil a Trindade Coelho sorrir-se de desdém perante aquela língua ‘charra’, e responder ao seu amigo Ferreira Deusdado que não, não tinha espaço na secção, não se enquadrava nos objectivos, os leitores não iam entender, eu sei lá, tantos poderiam ser os argumentos para recusar a proposta de publicar os evangelhos em mirandês. Mas não. Trindade Coelho não teve receio de que o seu português, de tão fino recorte literário, fosse conspurcado pela fala ‘charra’ do povo onde bebeu essa mesma língua. Ao invés, decide fazer da sua secção em O Reporter uma tribuna de divulgação e, depois, de defesa e promoção da língua mirandesa. Vale a pena transcrever as palavras com que inicia a sua secção, logo no dia de ‘Ano Bom’ de 1897, o 1º de Janeiro:

“Desejo começar o novo anno, trazendo aos meus leitores, á litteratura e á religião do meu paiz uma novidade encantadora: e é que d’ora ávante lhes darei os evangelhos dos domingos e dias sanctificados, não em portuguez como até aqui, - mas n’esse querido e interessantissimo idioma mirandez, que se falla a dois passos da minha terra, em todo o concelho de Miranda do Douro, limitrophe do meu. Miranda do Douro é uma pequenina cidade transmontana, fronteira de Hespanha, e mais pequenina do que uma aldeia. É porém uma velha cidade fidalga, portugueza dos quatro costados, com uma Sé muito imponente, onde vai à missa uma população muito curiosa, vestida da maneira mais original e mais pitoresca. É lá a terra da capa-d’honras, que parece, em burél, a capa d’esperges d’algum bispo da Edade-Média. Os homens ainda uzam calções com alçapão, e meias de lã; casaca de gola direita; camisa de grandes colarinhos; e na cabeça, um chapeu d’abas direitas, cuja cópia é um cone truncado. O que é essa boa gente, cujas mulheres vestem por igual trajos muito pitorescos, não se descreve nem se faz ideia, senão indo lá (...) Ora é no idioma que elles falam, que eu passo, d’aqui por deante, a dar-lhes os Evangelhos. E de certo que é uma curiosidade inedita para a biographia da Biblia, saber que eu tenho em meu poder, admiravelmente copiados, em livro encadernado que tem 368 paginas grandes, e a duas columnas por pagina, os quatro Evangelhos: S. Matheus, S. Marcos, S. Lucas e S. João.

Auctor deste admiravel e carinhoso trabalho o sr. Bernardo Fernandes Monteiro, 1º aspirante da Alfandega do Porto, e mirandez. E por ser mirandez e muito intelligente, a sua traducção mereceu os gabos do notavel philologo sr. Gonçalves Vianna, e será, já agora, na historia da Biblia, um trabalho não só memorado, mas memorando (...) Veio ás minhas mãos o precioso manuscrito mediante a boa amizade de Ferreira Deusdado, que por ser transmontano, e dos melhores, e dos de lei, veio trazer ao meu carinho pela nossa terra o effusivo carinho que elle lhe dedica. Bem haja elle; e como quer que seja muito interessante a carta que me escreveu, vou copiál-a para aqui, para que a história fique mais completa, e bem documentado, para a minha gratidão, o favor que me fez.”

Deve ser realçada a profunda compreensão que Trindade Coelho revela quer a respeito da língua mirandesa quer a respeito da tradução dos evangelhos cuja publicação inicia: tem consciência de, com a sua atitude, estar a fazer história, história do mirandês e história da bibliografia da Bíblia. O seu entusiasmo é tal que não fica satisfeito com aquela longa introdução e com a transcrição do evangelho de domingo. Quer dar muito mais aos seus leitores: “Como o Evangelho acima era muito pequeno, para melhor se tomar o sabor ao mirandez, transcrevo do opusculo do sr. Leite de Vasconcellos, ‘Flores Mirandeza’s, as suas páginas 20 e 21...”. Reparem no seu entusiasmo guloso, ‘melhor se tomar o sabor ao mirandez’. E transcreve o poema ‘Portugal’ de José Leite de Vasconcellos, rematando assim a sua primeira referência ao mirandês: “Já ficam então sabendo: anno novo, vida nova: -d’aqui por deante, Evangelhos em mirandez. E Deus nos dê saude, para os lermos todos até ao fim. Amen!”

Nestes textos se desenha todo um programa que não se fica por dar a conhecer a escrita mirandesa, como se de uma mera curiosidade se tratasse, mas, como bom jornalista, quer informar e formar, dizer o que é a língua mirandesa, quais as suas características, que povo a fala, de onde vem, etc. E ei-lo a organizar todo o material publicado sobre a língua mirandesa que tem consigo, para preparar o que há-de dizer aos seus leitores. Mas esse material reduz-se a dois opúsculos de J. Leite de Vascocellos e a meia dúzia de poemas por este publicados nas ‘Flores Mirandesas’, já nos anos de 1883 e 1884. É grande a sua insatisfação e não se sentia à altura do programa delineado. Toma, por isso, a decisão de pedir a colaboração da pessoa que mais sabia sobre a língua mirandesa: José Leite de Vasconcellos.

 

 

3. A publicação de materiais depois inseridos nos Estudos de Philologia Mirandesa 

 

A partir de 13 de Janeiro de 1897, a secção Echos se enche com sete longos e deliciosos artigos de José Leite de Vasconcellos, numa antecipação do que viria a ser uma importante parte da sua obra matriz sobre o mirandês, os Estudos de Philologia Mirandesa, publicados três anos depois, em 1900. Não tem sido realçado, até agora, o importantíssimo papel de Trindade Coelho na génese daquela obra, fornecendo a Leite de Vasconcellos o pretexto e o incentivo para escrever páginas brilhantes para a história do mirandês moderno e oferecendo-lhe o espaço para as publicar. Se os artigos foram expressamente escritos a pedido de Trindade Coelho ou se já estavam prontos, não o sabemos. Porém, seja qual for a resposta, não é pequena a importância da iniciativa do ilustre mogadourense. Com efeito, é esta a primeira vez que, num jornal dirigido ao grande público, se expõe a teoria e a história da língua mirandesa. Para avaliarmos a importância do facto, é necessário dizer que só mais de 100 anos depois, nos nossos dias, começa a acontecer algo de semelhante.

Em 1882 José Leite de Vasconcellos conhece no Porto o estudante, seu colega e de Trindade Coelho, José Branco de Castro, natural de Duas Igrejas e falante de mirandês. Desse conhecimento nasceu a curiosidade de José Leite de Vasconcelos pelo Mirandês. Essa curiosidade leva-o a Duas Igrejas logo no verão de 1883: em vez de ir descansar para a Ucanha, a sua terra, junto da família, empreende uma viagem que durou cinco longos dias. Primeiro de comboio até Macedo de Cavaleiros, depois de burra até Duas Igrejas. No ano seguinte, em 1884, José Leite de Vasconcellos volta à Terra de Miranda e passa por Mogadouro, onde é recebido pelo seu colega de colégio, hospedando-se em casa da sua família, facto pelo qual fica profundamente grato e que o leva a dedicar um dos seus primeiros poemas em mirandês, Purtual,  a Trindade Coelho.

Deste contacto com José Leite de Vasconcellos nasce em Trindade Coelho a consciência da importância da língua mirandesa e se aprofunda a sua consciência da real valia da língua do povo com quem aprendeu a falar o português de Trás-os-Montes, que tão bem conhecia e que tanta influência revelava da língua mirandesa, sinal seguro de que os seus antepassados já a teriam falado ou algo de muito semelhante.

Os artigos de J. Leite de Vasconcellos no Reporter são antecedidos de curtas, mas significativas introduções, como a que escreve ao artigo publicado a 14 de Janeiro de 1897: “Ch.-A.-Hysson honra-se a mais não poder com as lições do notavel philologo, e felicita-se por ter de ficar o Reporter, já agora, na historia d’essa bôa falla mirandeza – novidade, ainda hoje, para tanta gente ...”. E, como introdução ao último dos artigos, escreve: “Setimo e ultimo artigo do sr. Leite de Vasconcellos, em que pese á minha vontade de receber muitos mais. E interpreto os sentimentos de todos os meus collegas no Reporter, e creio que os de todos os seus leitores, agradecendo muitissimo, em nome d’elles e no meu, a honra e o proveito que o illustre e sabio philologo nos proporcionou com as suas tão profundas como primorosas lições. Escusado será dizer que as paginas do Reporter, e particularmente as columnas da minha secção, ficam todas, incondicionalmente, ao dispor do sr. Leite de Vasconcellos, por cujo saber eu me préso de professar tão grande consideração, como estima pelas suas qualidades, minhas conhecidas desde esses tempos idos do Collegio de S. Carlos, no Porto, onde frequentámos as mesmas aulas, -e onde, no meio de nós, Leite de Vasconcellos mais parecia já um professor, que um condiscipulo. Muito e muito obrigados. Ch-A-H.”

Enquanto foi publicando os artigos de José Leite de Vasconcellos, não parou a publicação dos Evangelhos em Mirandês. Até que, no dia 10 de Fevereiro de 1897, a secção Echos, de Ch.-A. Hysson, deixa de aparecer no Reporter. E assi terminava aquele que pode ser considerado o mais amplo e arrojado programa de divulgação da língua mirandesa escrita entre o grande público, ao longo da sua história. É certo que estamos a falar de uma época em que a esmagadora maioria do país era analfabeto e em que os jornais tinham tiragens pequenas. Se quisermos fazer um paralelismo com os dias de hoje, basta pensar o que seria a publicação semanal dos evangelhos ou outros textos em mirandês num jornal diário de grande circulação como o Diário de Notícias, O Público ou o Jornal de Notícias. Ainda por cima com a chancela de um dos mais ilustres jornalistas do seu tempo, Trindade Coelho. Hoje, mais de cem anos depois, olhamos para trás e sentimos como fazem falta à língua mirandesa homens clarividentes e suficientemente prestigiados para pôr a língua mirandesa na agenda cultural da Terra de Miranda e do país, como o fez Trindade Coelho.

 

 

4. A gramática e o diapasão do gaiteiro de Genísio

 

A 26 de Dezembro de 1898, Trindade Coelho publica uma longa carta no Jornal Novidades. Qual é o tema? Mais uma vez a língua mirandesa. O ilustre mogadourense empunha agora as armas do polemista, frontal e cáustico, mas ponderado. A verruma é dirigida contra Albino J. de Moraes Ferreira, que viveu alguns anos em Miranda do Douro, e acabara de publicar uma obra intitulada Dialecto Mirandez e onde se incluia algo que era apelidado de gramática mirandesa. Trindade Coelho tinha ligações de amizade ou, pelo menos, de bom conhecimento com Albino Moraes Ferreira, pois ambos eram admiradores e divulgadores da obra de João de Deus, A Cartilha Maternal. Mas nem por isso Trindade Coelho deixa de vir a terreiro, começando por declarar: “Amicus Plato, sed magis amica veritas (Platão é amigo, mas mais amiga a verdade). Nada me seria mais agradavel do que ter de elogiar este livro; já por ser de quem é, visto que o sr. Moraes Ferreira tem velhos creditos na minha sympathia, já pelas minhas devoções especiaes pelo assumpto que versa, que me não pode ser mais carinhoso. Transmontanos ambos, eu e o auctor deste livro, - eu e o auctor d’este livro amamos ambos esse abençoado pedaço da nossa província, que se chama terra de Miranda, - e nós mesmos, posto que d’un concelho lemitrophe, temos ainda, como lá se diz, o nosso cacho de mirandezes...”.

Ao longo de várias páginas Trindade Coelho vai zurzindo a obra de Albino Moraes Ferreira, sem no entanto deixar de ter a lucidez de reconhecer o que a obra tinha de válido, facto que é tanto mais de realçar quanto foi o único a fazê-lo, aí levando a palma a José Leite de Vasconcellos: “Occupa a maior parte do livro do sr. Moraes Ferreira a grammatica do mirandez; e accessoriamente, o laborioso auctor introduziu no volume, como themas de applicação da mesma grammatica, outros capitulos. Estes capitulos, porém, se tinham de enfermar da doença de origem, isto é, dos vícios da grammatica, elles constituem ainda assim, documentos que nem por serem accessorios, deixam de ser, em todo o caso, por impregnados de espirito mirandez, interessantes etnographicamente. É essa, para mim, e cremos que para todos os estudiosos, a parte mais valiosa do livro; que pelo que respeita á grammatica, não só o sr. Moraes Ferreira não possue uma competencia scientifica á altura do difficilimo encargo que se propoz, senão que ainda não abundam, publicados, os elementos indispensaveis para a fazer.”

Albino Moraes Ferreira afirma que Trindade Coelho seria uma das poucas pessoas capazes de escrever uma gramática da língua mirandesa. Trindade Coelho responde que não se considera capaz e vira as baterias contra os gramáticos do seu tempo, servindo-se das palavras de D. Francisco Manuel de Mello: “Amavelmente, mas cahindo n’uma inexactidão, que é, de todas as do seu livro, a mais grave, affirma o sr. Moraes Ferreira que eu seria capaz – eu! – de escrever uma grammatica mirandeza. Por Deus, não era! Fundamentalmente, eu sou até adverso a grammaticas e a grammaticos, - razão dou a D. Francisco Manuel de Mello, quando diz as seguintes palavras que se valem muito pela graça portugueza de que estão cheias, não valem menos, como conceito, pela auctoridade d’onde proveem: - ‘Grammaticos, menina, é uma praga de gente bem escusada no mundo: são como os cães das boas letras; não servem senão de roer ossos e espinhas, até que a põem na espinha.’ Por mim, a amavel affirmação do sr. Moraes Ferreira é tanto mais inexacta, quanto é certo que eu nem no que escrêvo faço grammatica, ou me importo com a grammatica, - pois tudo quanto eu faço, ou, pelo menos, procuro fazer, é escrever como o povo falla, e os grammaticos, em geral, desdenham de fallar como o povo, e são tão ousados, alguns, que até o emendam (...) Deus me defenda, portanto, de escrever uma grammatica, ou de pensar sequer em semelhante coisa; mas se tal pretendesse fazer, eu procuraria, antes de mais nada, abeberar-me da falla do respectivo povo...”.

Cada povo tem a sua língua onde se espelha, onde se plasma, onde se diz. Só essa pode ser a sua língua. Se deixar essa língua, já não será o mesmo povo. Era Trindade Coelho quem o dizia e eu estou inteiramente de acordo com ele. O problema, o grande problema, é que só costumamos perceber estas coisas tarde de mais. Ouçamos Trindade Coelho, ainda na resposta a Albino Morais Ferreira:

“Alem de ser mais do que um vehiculo da ideia, porque é o seu traslado fiel, a palavra é tambem um producto concreto, á custa de elementos infinitos, do meio onde se produz; e d’ahi, naturalmente, a sua diversa phisionomia: de nação para nação, accentuando-se em linguas differentes, e tanto mais diversas, quanto são mais diferenciadas as respectivas raças; e dentro da mesma nação, accentuando-se em provincianismos e em dialectos, em milhões de termos regionaes que não exorbitaram nunca do perimetro estreitissimo de uma freguezia ou de um logar, - mas em cuja phisionomia (porque teem phisionomia as palavras, e até côr!) se pode lêr impressa a phisionomia e a alma dos que os usam, - e até a da propria paizagem ... E como se isso não bastasse, é vêr ainda a modulação rythmica da falla, tão diversa de provincia para provincia, de povoação para povoação (...) E a razão por que affirmo, por exemplo, que o mirandez é um dialecto, é, á falta d’outras mais scientificas, mas que no fundo não valeriam mais, só esta: porque o povo que falla essa linguagem é ainda hoje tão differente dos que o cercam, nos seus usos, nos seus costumes, na sua constituição psychica e social, que a lingua que nós fallamos não poderia servir-lhe, - ou antes, que a lingua que nós fallamos, ou, de fronte, os hespanhoes, não poderia ser, jamais, a lingua d’elle.”

Trindade Coelho é um homem justo. Não só por ser magistrado, mas porque o é estruturalmente, capaz de atravessar o mar rumo a Angola se essa justiça o chama. É com esse sentimento de justiça que não perdoa a Albino Moraes Ferreira o ter ignorado propositadamente os trabalhos do seu amigo e nome maior do mirandês, José Leite de Vasconcellos. Eis como se exprime:

“De resto, e não querendo fazer ao sr. Moraes Ferreira a injuria de suppôr, nem por sombras, que a omissão, em todo o volume, do nome e dos estudos do sr. dr. Leite de Vasconcellos, foi um proposito, ella representa, quando menos, que desconhece os trabalhos do illustre philologo, o que não é licito, hoje, a quantos estudam o mirandez, e é imperdoavel nos que o ensinam. (...) ... e se o sr. Moraes Ferreira o não citou, e isso quer dizer, como cremos, que o desconhece, o sr. Moraes Ferreira affirmou, implicitamente, quando era deficiente a sua preparação para o trabalho a que se abalançou, - e explicadas ficam, só por isso, as imperfeições do mesmo trabalho. Ao venerando e venerado nome do sr. Leite de Vasconcellos, forçoso é juntar, por um espírito de justiça, que os redima do esquecimento a que os votou tambem o sr. Moraes Ferreira, os nomes dos srs. Gonçalves Vianna e Bernardo Fernandes Monteiro; - e se é forçoso, contra a orthoepia do livro do sr. Moraes Ferreira, acrescentar, pro domo mea, auctoridade digna de respeito, dar-lhe-ei ainda a do gaiteiro de Genízio, - ao qual, por intermedio do meu querido amigo e distinctissimo escriptor sr. Augusto Moreno, hoje professor em Miranda do Douro, tive o cuidado, depois de ler o volume, de o mandar para que o ouvisse (...) O resultado, confirmou o que eu logo suppus: que o sr. Moraes Ferreira não afinara a orthoepia do seu livro pelo diapasão do gaiteiro de Genisio, - o que é o mesmo que dizer, pelo da linguagem da terra de Miranda. E pois que o sr. Moraes Ferreira affirma que a grammatica deve ser o padrão, o modelo, o diapasão typico para cotejar a linguagem, encontrei, procedendo á operação inversa, isto é, aferindo pela linguagem fallada em terra de Miranda a orthoepia do seu volume, que a orthoepia do seu volume estava errada.’

Eis, em resumo, o que Trindade Coelho pensa da gramática: deve juntar o saber científico e o saber do povo. Esse critério continua a ser válido para os nossos dias, em tanto trabalho que é necessário levar a cabo.

Alonguei-me na citação das palavras do ilustre mogadourense, mas estou convencido que nada as poderia substituir. Assim lhe saibamos, mirandeses e não mirandeses, seguir o exemplo.

 

Amadeu Ferreira

 

 

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