Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

É POSSÍVEL A SOBREVIVÊNCIA DAS MICROLÍNGUAS NA EUROPA? O CASO DO MIRANDÊS

[Testo de la palhestra feita ne l IPB - Instituto Politécnico de Braganla, l die 28 de outubre de 2010, ne l Ancuontro Anternacional de Lhénguas - RECLES]

 

 

1.

Até há relativamente pouco tempo, Portugal era apresentado como o único Estado monolingue da Europa. O mirandês, embora existisse, era uma língua oculta. Apesar das alterações havidas nos últimos tempos, há ainda quem continue a manter a mesma atitude, inclusive nos meios universitários não nacionais, o que mostra bem como é forte a inércia que se agarra às ideias feitas que não sejam contraditadas de modo sério, generalizado e continuado. Tudo isso acontece, apesar de estar adquirido que o multilinguismo é a situação natural das comunidades humanas. Com efeito, em tudo, a regra é a diversidade, sendo o seu contrário algo de artificial, conseguido muitas vezes em longos tempos históricos e por processos quase nunca dignificantes ou pacíficos.

 

 

2.

O mirandês foi reconhecido como língua oficial (regional) de Portugal através de lei aprovada por unanimidade e aclamação pela Assembleia da República em 1998 [a lei n.º 7/99, publicada já em janeiro de 1999]. Faz agora 13 anos. Este reconhecimento foi um espanto para a quase totalidade dos portugueses, que ignoravam a existência de tal língua, e suscitou a curiosidade de algumas comunidades de outros países mais atentas a estas realidades das línguas. Os próprios mirandeses, habituados ao ridículo e à chacota que o falar a sua língua lhes trazia, olharam estranhos para tal reconhecimento e ficaram na expectativa quanto ao que aí vinha de novo, embora naturalmente orgulhosos com tal acto.

 

 

3.

Creio que podemos, resumidamente, caracterizar em 10 pontos a situação da língua mirandesa na altura da aprovação daquela lei:

i. estava a viver uma vida para além do prazo de validade que muitos lhe tinham vaticinado [José Leite de Vasconcelos, António Maria Mourinho e outros];

ii. tinha o prestígio e auto-estima no seu ponto mais baixo, para a maioria dos mirandeses era uma vergonha falá-la, considerada como fala charra ou fala caçurra, fala burreinha face ao falar grave ou falar fidalgo;

iii. tinha-se interrompido o processo de transmissão familiar e comunitário, apenas subsistindo em situações contadas, sem que tivesse sido substituído por outro, seja o ensino, seja a comunidade;

iv. era usada por menos de uma dezena de milhar de falantes [não há rigor quanto aos números], em que os jovens eram em pequeno número, numa situação de verdadeiro enclave linguístico ou mesmo de ilha linguística, sem qualquer elo com as regiões próximas de fala asturiana ou leonesa;

v. era falada numa região economicamente deprimida e em processo de desertificação acelerada, como outras regiões do interior/fronteiriço;

vi. praticamente não era escrita e não tinha literatura, além da literatura popular de tradição oral; é verdade que uma convenção ortográfica estava em discussão, mas foi adoptada já depois da entrada em vigor da lei;

vii. era considerada, mesmo por muitos mirandeses, como uma língua menor, definitivamente marcada pela ruralidade e, portanto, incapaz de dizer a ciência, as técnicas, o mundo moderno, inapta para acompanhar os mirandeses que decidissem mudar o seu tipo de vida e por isso condenada a morrer com a urbanização e o ocaso do mundo rural de sabor medieval;

viii. era praticamente desconhecida do resto do país, que continuava a orgulhar-se de ser o único país monolingue da Europa e se algumas ideias sobre ela havia eram negativas;

ix. em termos académicos, não era unânime a sua aceitação como língua, e os estudos sobre a sua estrutura e a sua história eram muito limitados, mostrando um grande desconhecimento, sem prejuízo de notáveis casos de sinal contrário;

x. estava ausente das principais instituições relevantes para as pessoas, nomeadamente o Estado e a Igreja: quem fosse à Terra de Miranda à sua procura corria o sério risco de vir de lá convencido de que já não existia, como chegou a acontecer com vários investigadores.

Se quisermos usar uma expressão pedida de empréstimo à medicina, podemos dizer que nessa altura o mirandês estava ligado à máquina.

 

 

4.

Em termos europeus, quando se fala da diversidade linguística, em regra tem-se presente a diversidade das línguas estaduais. Porém, além destas, há dezenas e dezenas de outras línguas, um imenso mosaico em que o mirandês é seguramente uma das pedrinhas mais pequeninas. Do ponto de vista geográfico e do número dos seus falantes é uma microlíngua, apesar de em todos os aspectos relevantes ser uma língua como qualquer outra. E tal continua a ser assim mesmo ao nível da Península Ibérica onde encontramos situações similares à do mirandês como o aranês, o aragonês ou a fala, embora haja outras línguas não estaduais que dispõem de recursos muitíssimo superiores como o catalão, o galego, o basco e mesmo o asturiano, apesar do deficit de reconhecimento legal de que esta última sofre, injustamente.

Estamos num processo mundial e europeu de acelerada homogeneização linguística. Se nada mudar, mais de 90% das línguas podem extinguir-se neste século. E línguas como a mirandesa continuam claramente ameaçadas. Por isso, podemos perguntar-nos? Não é a morte algo de natural ao que vive e aos produtos do engenho humano, como as línguas? Então porquê esta preocupação em salvaguardar a diversidade linguística? Que interesse é que isso tem para a humanidade, para uma comunidade como a europeia ou para um país como Portugal ou, até, para a própria comunidade de falantes mirandeses?

 

 

5.

Para responder a essas e outras questões similares fala-vos alguém interessado, a quem os problemas respeitam directamente e que, por isso, fala em simultâneo em nome da razão e em nome do sangue. É aqui, ao sangue, que sempre as coisas vão bater: falamos de preservação da diversidade e não podemos esquecer que a tentativa da sua eliminação a vários níveis foi uma das bases ideológicas da 2.ª guerra mundial. É aí, à negação da diversidade, que também vão bater todos os fundamentalismos, sejam os de hoje, sejam os de outros tempos. Estamos a falar da essência da democracia, da liberdade e da dignidade humana. Vendo as coisas por outro lado, estamos a falar de um caminho para a paz num mundo que continua assolado pelas guerras. Este é um problema dos cidadãos, mas também do Estado e das suas instituições mais representativas, como a Escola, em particular do ensino superior, que aqui nos acolhe.

As línguas, aí incluídas as que chamei microlínguas, como o mirandês, são testemunhos vivos da diversidade histórica e das complexas relações que as comunidades entre si foram estabelecendo. Elas são um testemunho excepcional de convivência da diversidade. São portadoras de características exclusivas, representativas do engenho humano e da sua capacidade de sobrevivência nas condições mais adversas, mesmo contra o que poderia resultar las naturais leis da entropia. A diversidade, também linguística, é essencial ao mundo e ao seu bem estar, pois é algo que está inscrito no nosso ADN cultural como povos e como pessoas. Por isso mesmo, é um essencial problema ecológico, no sentido mais literal que esta palavra comporta: elemento essencial do equilíbrio do nosso mundo, do mundo que vimos construindo desde há milénios ou séculos e que nos define como hoje somos. Faltando, é o nosso mundo que está em causa como lugar habitável. Há que ter muito cuidado para não entender o chamado património imaterial da humanidade como algo apenas do passado, destinado a morrer, esquecendo que os aspectos imateriais são aqueles que movem a humanidade, aqueles por onde a nossa vida respira. Então, tudo o que se diga sobre o tema que aqui me ocupa nunca será exagerado.

 

 

6.

Apesar da importância da diversidade linguística, a verdade é que o mirandês estava a poucos passos da sua morte, como já referi. Daí a pergunta que se colocou: vamos desligar a máquina ou vamos investir no ressurgimento da língua? Vale a pena? Há vontade, saber, meios e forças para tanto?

Muitos pensavam que devia deixar-se o mirandês morrer sossegado e de modo natural, sem novos traumas, se possível guardando gratas recordações do seu passado rural, a que não deveria nem tinha condições para sobreviver. A aprovação da lei seria apenas uma espécie de vingança da história, o canto do cisne ou o salvo-conduto para uma velhice serena mas precária.

Porém, acabou por desencadear-se um movimento de ressurgimento da língua que, embora com um alcance limitado, trouxe aspectos novos e criou realidades novas que, em 1998, eram inimagináveis.

Muitos mirandeses acreditaram que valia a pena e lançaram-se numa aventura com a qual não é fácil encontrar paralelo, pois era necessário recomeçar quase tudo desde o zero, praticamente sem apoios e com meios mínimos.

Foi nessa aventura que também entrei, embora tenha tido um papel insignificante na fase anterior à aprovação da lei. Trata-se de um movimento quase exclusivamente de cidadania, ainda em curso, esperando aguentar até que possam surgir novas forças e novos meios, antes que morra de exaustão.

 

 

7.

O essencial do que aqui importa dizer deve apontar em três sentidos:

i. por um lado é essencial perceber a história, de como até aqui chegamos, pois sem esse diagnóstico nada é possível;

ii. em segundo lugar, falaremos dos esforços que têm sido feito pelo ressurgimento da língua;

iii. por fim, importa identificar os bloqueios ou dificuldades que ainda impedem a sua progressão e a sua saúde.

 

 

8.

Falando em termos genéricos e não apenas tendo presente o caso do mirandês, houve momentos decisivos na menorização e precarização de muitas línguas. Habitualmente costumam apontar-se como momentos importantes:

i. a criação do estado, momento a partir do qual as línguas não estatais entram num processo de erosão, de precarização ou mesmo de extinção, para tal bastando, se mais não houvesse, o prestígio da língua estatal como elemento eficacíssimo para a subordinação de uma língua, muito mais que a repressão;

ii. o desenvolvimento da escrita nos séculos XII-XIV altura em que umas línguas acedem à escrita e outras não, ficando sem essa importante tradição de escrita;

iii. o surgimento da imprensa nos séculos XV-XVI deixou de fora muitas línguas, pois essa nova técnica veio introduzir critérios comerciais.

Também este aspecto se verificaram na menorização do mirandês, como veremos adiante, mas vários outros factores foram essenciais.

 

 

9.

A história das línguas minoritárias não se percebe se não tivermos em conta a consolidação do estado moderno. Sobretudo a partir do século XVI, o estado absolutista, depois das luzes, guiado pela razão de estado, necessita de uma língua nacional, de unidade na sua por vezes imensa variedade, faz-lhe falta uma literatura nacional que se exprima numa determinada língua, a língua da corte, dos seus grandes escritores e pensadores, a língua das suas epopeias. É o triunfo da Razão também no domínio da língua.

Em paralelo com a língua estadual apenas podem ser colocadas as línguas clássicas, o latim e o grego, delas se apoderando através de um verdadeiro mito fundador que leva a que delas seja excluído tudo o que tenha proveniência diversa. É então e só então que se começa a colocar o problema de falar bem, de escrever bem, da língua canónica que é a língua literária e culta, devendo tudo o mais ser combatido por todas as formas.

A parafernália de expressões linguísticas, de modos de dizer rudes, de palavras estranhas que já ninguém na corte usa ou entende, de expressões culturais ainda algo bárbaras, etc., tudo isso deve ceder o passo à harmonia da unidade, à elevação da língua culta. Numa palavra, as línguas diferentes da estadual começam a ser aberta questionadas e o primeiro e óbvio passo é a sua menorização, ainda que nem sempre de modo sistemático.

Sobretudo a partir do século XIX, começam a soprar os ventos do chamado liberalismo. Este explode nas revoluções americana e francesa, com as suas proclamações dos direitos do cidadão, de liberdade, igualdade fraternidade, e com essas revoluções descobrimos que a diversidade de opiniões políticas deve ter expressão ao nível do próprio estado, agora inimigo do estado absolutista.

Essa orientação ganha especial corpo com o chamado romantismo, que preconiza o regresso às origens, ao passado, sobretudo medieval, a muito daquilo que o estado absolutista tinha deitado fora com a sua ânsia de racionalidade, que via na Idade Média a idade da trevas e do obscurantismo. Tradições, literatura popular, línguas minoritárias conhecem por esta altura um primeiro reconhecimento, superficial é certo, mas efectivo e importante.

Também o mirandês acaba por ser redescoberto com esse movimento, em 1882, com José Leite de Vasconcelos.

Com o liberalismo, começa a colocar-se o problema do individualismo, da liberdade, mas essa não é uma orientação que siga sem sobressaltos. A ele lhe sucedem de modo intermitente novos e mais eficazes absolutismos, novas e mais refinadas razões de estado, que negam a diversidade, a democracia, agora sob o signo dos socialismos, em particular dos comunistas, que promovem o mais radical igualitarismo.

Estas correntes têm a sua expressão mais acaba nos fascismos e no nazismo nacional-socialista, defensor de que só o bem nascido [eugenia] tem direito a sobreviver, encarando a diferença como uma doença, merecedora de erradicação implacável e sistemática. Por um caminho semelhante vão os diversos comunismos de estado.

Todo este período é acompanhado por um desenvolvimento significativo do ensino, das comunicações em geral e da imprensa em particular. Esse ensino apenas pode ser ministrado na língua do estado central, a língua das instituições, a língua dos livros e dos professores, a única que tem uma literatura com significado.

 

 

10.

O actual projecto europeu nasceu (anos 50 do século XX) dos escombros destas orientações e práticas que levaram à guerra e à destruição em massa e aos poucos foi afirmando a necessidade da sua negação e da sua ultrapassagem, para que nunca mais se repetissem.

Esta nova Europa assume-se como diversa e como democrática, tolerante e diversa, assente em estratégias de cooperação e não de domínio de uns povos sobre os outros.

Em rigor, quando falamos de línguas minoritárias, estamos a falar de um problema de liberdade, um problema que julgávamos definitivamente resolvido, mas que periodicamente nos rebenta nas mãos, colocando sempre novos problemas a resolver, provocando grandes estragos e tudo pondo em causa, obrigando-nos a retomar um caminho que deve ser constantemente aprofundado e não pode ser travado por nada nem por ninguém.

Muitos têm aproveitado a questão da língua para promover a autonomia política, o que considero um erro. As duas questões devem ser separadas e seguir caminhos próprios, pois não têm que coincidir. Esse caminho complicou e muito a vida às línguas não estaduais, erradamente associadas a programas autonomistas ou independentistas. E com isto não quero questionar o bem fundado desses desejos de autonomia, apenas afirmar que essa questão não se confunde com a da língua.

 

 

11.

Vejamos agora o que se passou com o mirandês. Este é uma variedade de leonês ou asturleonês, língua que, como muitas outras, surge na sequência do desmoronar do império romano e de uma profunda inter-relação entre a língua latina e as línguas faladas na região ‘grosso modo’ ocupada pelos ástures e depois alargada com o reino de Leão.

O leonês começou por ser língua real e de cultura, precedendo o nascimento de Portugal, escrita em muitos documentos medievais até ao século XIV. Portugal foi, pois, desde sempre, um país bilingue. Quase todo o distrito de Bragança era região de fala asturleonesa, língua cujas pegadas se mantêm ainda em todo esse território, pelo menos ao nível do vocabulário e da toponímia, em especial da toponímia menor. Como língua, acantonou-se progressivamente junto à região de fronteira, da Lombada ao Planalto Mirandês.

Lentamente, mas de modo seguro, assistimos à institucionalização das línguas faladas na corte, o português, o castelhano, o catalão e o aragonês. Porém, apenas cerca do século XV/XVI se coloca verdadeiramente o problema linguístico, através de um movimento que é contemporâneo do movimento cultural conhecido como Renascimento e Humanismo, mas também da afirmação do estado moderno, que em Portugal tem um significativo momento de viragem com D. João II.

Do ponto de vista linguístico este movimento traduz-se em duas orientações fundamentais, cujas concretizações importa revisitar, pois tal exercício não é comum entre nós:

 

a) um movimento de afirmação da língua, que assume as seguintes traduções práticas:

i. o estudo da língua, com o surgimento dos primeiros gramáticos;

ii. o enaltecimento da língua, apresentada como superior a todas as outras, no nosso caso sobretudo a castelhana;

iii. o incentivo a escrever em português, de que são expressão mais conhecida os versos de António Ferreira;

iv. o movimento para rezar em lingoagem, desencadeado pelas constituições episcopais, na sequência do Concílio de Trento e do seu Catecismo, que por todos deve aprendido, para reforçar a fé e prevenir as heresias: a língua nacional não é apenas a língua do rei, é também a língua de Deus e este segundo aspecto não deixa de ser tão ou mais eficaz que o primeiro. [Deixe-se aqui uma nota de como o Concílio de Trento transformou as línguas num problema ideológico, de grandes consequências: o latim foi definido como a língua de Deus mais genuína, a ponto de a versão oficial da Bíblia não ser a das suas línguas originais, mas a versão atribuída a São Jerónimo, a Vulgata];

 

b) um movimento de menorização de todas as línguas ou dialectos falados internamente, inibindo as pessoas de as falar, através da sua ligação a posições de atraso, de má vida, de incultura, assim gerando sentimentos de vergonha e de repúdio:

i. os mais elevados momentos desse movimento de menorização das línguas regionais e dos dialectos atingiu uma elevada expressão com o teatro do século XVI, que sempre foi muito popular, onde eram ridicularizados

- os falantes de dialectos regionais, de que é o protótipo o beirão, entre outros;

- os falantes de línguas minoritárias, integralmente encarnados nos pastores sayagueses, falantes de leonês [tudo devido à influência de Juan del Encina, natural de Fermoselle, junto à fronteira com Miranda, mas depois professor em Salamanca e homem da corte espanhola, precursor do teatro ibérico moderno]

ii. essa atitude foi adoptada, sem excepção, pelas classes letradas, sobretudo os funcionários reais e, mais tarde, pelos professores e outros funcionários, gerando um sentimento de humilhação e de vergonha, que foi estando na origem de um sistema de diglossia, isto é, de definição de papéis para cada uma das línguas [familiar e comunitário por um lado e institucional por outro];

iii. essa situação mantém-se nos nossos dias, em que a língua portuguesa caminha para a sua integral padronização, continuando a ser frequentes as atitudes de ridicularização das expressões dialectais [o falar à moda do Porto, à moda do Alentejo, ou das ilhas, por ex.], a  ponto de, por vezes, se sugerir que quem assim fala é menos inteligente pois, em rigor, não aprendeu a falar bem.

 

 

12.

Deixem-me dar-vos o exemplo daquilo que se passou comigo próprio. Eu tenho o privilégio de ter nascido com essa língua, numa altura em que ela era desprezada e considerada própria de gente atrasada, inculta e menos inteligente, razão porque fui obrigado a assumir o português ao entrar na escola.

Por isso, tenho agora duas línguas maternas, por elas dividindo a minha maneira de dizer o mundo, completando-se uma à outra, sem se deixarem confundir. Hoje auferem, dentro de mim próprio, de um verdadeiro estatuto de igualdade, o que nem sempre aconteceu:

i. numa primeira fase, o mirandês prevaleceu em termos absolutos;

ii. foi perdendo esse estatuto a favor do português a partir dos meus 11 anos, quando tive de sair da minha terra para ir estudar, primeiro em Vinhais e depois em Bragança, nessa caminhada conquistando o português como língua própria ao fim de uma longa e difícil luta, que durou até por volta dos meus 18 anos [note-se que o meu português é um português padrão e não o típico de Miranda ou da região do Nordeste];

iii. o estatuto de igualdade das duas línguas, dentro de mim, só volta a surgir já nos anos 90 do século XX, nomeadamente depois da aprovação da lei n.º 7/99, de 21 de janeiro.

 

 

13.

Em setembro de 1999 escrevi um manifesto intitulado Çtino para ua Lhéngua Marimunda. Manifesto an forma de hino. Esse manifesto foi lido a muita gente e por muita gente, distribuído em folhas e na internet. Aí se reflectia sobre a história da língua e se apelava aos mirandeses, perguntando a certa altura:

 

Que çtino queremos pa l mirandés?

Hai un tiempo para todo. Agora ye l tiempo pa respunder a la pregunta. Pa respunder cula  cabeça.(...) Ye mui defíçele respunder: la lhéngua está tan mala q’inda nun se çcubriu remédio que la salbe.

 

Depois, avançavam-se algumas propostas simples. Deixai-me que vos leia trechos dessa parte.

Ne ls últimos trinta anhos, la Tierra de Miranda anchiu-se de doutores, de jornales, de rádios, de telbisones. Mas nun hai doutores an mirandés, jornales que lo scríban, rádios que lo fálen, telbisones adonde se beia. L mirandés ye probe i nun tenerá denheiro pa telbisones, se calha nien para rádios. Mas puode tener doutores. I puode tener un jornalico, bien pequeinho que seia, que báia por esse mundo adonde haba un mirandés cula lhéngua amarfanhada andrento por muitos anhos i cun gana de la botar acá para fuora. Nun será assi que la Tierra de Miranda puode amostrar que ye grande? Qual ye l mirandés que nun darie dues crouas para ajudas a un jornalico que biba ũa beç por més, ó cada trés meses que seia?

Ne ls últimos trinta anhos, muita cousa que falában mirandés fúrun zaparcendo, muortas ó scundidas adonde naide las beia: arados, reilhas, charruas, carros de mulas i de bacas, albardas, melenas, jugos, setas de la palha, biendas i biendos, trilhos, fouces, ciguonhas, calagouças, asnales, cestos sterqueiros, cilhas, cargas i arrochos, cabeçadas, maços, colmeiros, fraugas, fornos, eiras i tanta, tanta cousa. Mas la bida nun parou, demudando-se l mundo a cada die. Bamos a deixar que la lhéngua se muorra agarrada a essas cousas que se morrírun, an beç de la fazer bibir agarrada a las pessonas que la fálan, demudando i quedando cun eilhas, indo cun eilhas pa to ls lhados?

Ne ls últimos trinta anhos, la lhéngua fui sendo scamugida de las casas: las cuntas yá nun chúben puls chupones, yá nun come a la mesa, yá nun drume na cama. Na rue, quando adrega a passar, yá hai quien la mire de lhado. A cuntinar assi, sin eira nien beira, há-de-se morrer cul friu, nũa nuite d’eimbirno, ambaixo algun cabanhal adonde, por smola, la deixórun drumir. Nun haberá na Tierra de Miranda ũa casa pa la lhéngua, que seia solo sue i adonde entre quien la querga falar, quien la querga daprender ó, al menos, botá-le ũa mano? Ũa casa que, sin ser scuola, sirba para ansinar quien quejir daprender? I adonde se guárden lhibros que fálen deilha i por eilha? Nun será assi que la Tierra de Miranda amostra que ye grande?

Bou-me a quedar porqui. Mas inda bos quiero fazer un zafio, a bós mirandeses que, cumo you, daprendistes a falar l mirandés anquanto mamábades, i tamien a bós que nun lo cheguestes a daprender bien, mas inda stais an tiempo puis solo por eilhas lhembrais buossos abós, i a todos bós que, séiadaes mirandeses ó nó, solo agora lo çcubris i tamien lo quereis meter andrento. Mirai par’andrento de bós, bien ne l fondo, i respundei, un por un, uolhos ne ls uolhos: quereis ser ls anterradores de la lhéngua q’ardestes? Quereis deixar que se muorra l’única cousa que ye solo buossa i, cumo nanhue outra, bos çtingue? Se quereis, anton ye tiempo de cumprar l caixon i purparar l antierro. Se nun quereis, anton spabilai-bos porque l tiempo ye scasso par’inda fazer algo.

 

Hoje algumas destas propostas estão concretizadas e superadas. Vejamos.

 

 

14.

Havia que escrever, mas para tal era necessário ensinar a escrever e de um modo uniforme, de acordo com a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, preservando a unidade o que não foi nada fácil de conseguir.

Havia que alargar o ensino a todos os graus, o que se conseguiu ao fim de poucos anos, mas um ensino muito deficiente, não obrigatório, com poucos tempos lectivos, sem programas oficiais e sem uma carreira para os seus professores.

Havia que tornar o mirandês escrito presente de modo regular e aí surgiu a Fuolha Mirandesa no Jornal Nordeste.

Havia que dar a conhecer o mirandês aos portugueses, ganhar a sua simpatia e daí a necessidade de uma actividade de difusão, quer através da escrita em mirandês em grandes jornais nacionais como o Público, quer através da tradução de obras populares, de fácil acesso e grande impacto, como foi o caso de Asterix e de Os Quatro Evangelhos.

Havia necessidade de criar uma literatura moderna e de qualidade em mirandês, quer através de obras originais, e nesse domínio muito se tem avançado com a publicação de obras nos mais diversos géneros literários, quer através da tradução dos grandes clássicos, nomeadamente portugueses como foi o caso de Os Lusíadas de Camões e a Mensagem de Fernando Pessoa, os Poemas de Catulo ou as Odes de Horácio.

Havia a necessidade de ocupar os novos espaços da internet e hoje são inúmeros os blogues e sites em mirandês, foi criada a Wikipédia em mirandês, além de se manter uma presença activa no Facebook.

Foi necessário desenvolver a investigação fundamental em mirandês aos mais diversos níveis, quer através do apoio à elaboração de teses universitárias, e várias foram as realizadas ou em curso e em distintas universidades sobretudo estrangeiras, quer da elaboração de materiais fundamentais como vocabulários, dicionários, gramáticas, cursos on line. Nesse sentido muito importante está a ser o projecto que está a ser desenvolvido em conjunto com a Microsof para efeitos de síntese da fala e elaboração de materiais fundamentais.

Poderia continuar a enumerar outros trabalhos que se têm desenvolvido, mesmo no domínio cultural em geral e da música em mirandês de modo especial. Mas creio que os exemplos dados bastam para ilustrar o trabalho imenso que foi feito ao longo da última dúzia de anos com tão pouca gente e com tão poucos meios.

 

 

15.

Perguntemos, então: com todo o esforço que foi e está a ser feito pode considerar-se assegurada a sobrevivência do mirandês? A resposta é inequívoca: não. Porquê? A razão desta resposta, em minha opinião, também não oferece dúvidas: nos nossos dias não há língua minoritária que subsista sem uma adequada institucionalização, isto é, sem que seja assumida pelas principais instituições que com os seus falantes de alguma forma se relacionam. Esta não é uma condição suficiente, mas é uma condição necessária. Foi com a sua expulsão ou não entrada nas várias instituições relevantes da nossa sociedade instituições que o mirandês entrou em perda progressiva. Agora há que seguir o caminho inverso.

De que instituições estamos a falar? Aqui destacarei as mais relevantes para o que aqui importa:

i. as instituições políticas, antes de mais: o estado central, as câmaras municipais, as juntas de freguesia;

ii. as instituições de ensino, seja a nível universitário, seja a nível secundário e básico, mas começando pela atitude do Ministério da Educação, sem o qual nada se faz em Portugal nesse domínio;

iii. os meios de comunicação social, com especial destaque para a rádio e a televisão, através do chamado serviço público;

iv. a igreja, enquanto entidade que tem, tradicionalmente e continua a ter, uma influência decisiva nas populações.

Neste domínio, assistimos a algumas iniciativas esporádicas e inconsequentes, que não tem qualquer efeito ao nível da preservação e desenvolvimento da língua. Porquê esta atitude? Penso que as razões são várias e vão desde a ignorância, à inércia. Mas, na base da atitude das instituições está uma atitude de desprezo e de falta de respeito pelas pessoas, bem como manifestações diversas do que acima chamamos razões de estado e que se desenvolveram com o alicerçar do estado moderno. Ao contrário do caso de outras línguas, essa atitude não pode derivar do receio que a língua pode suscitar dado o peso que poderia adquirir.

Com efeito, que peso, social, político, económico tem uma língua que é falada, ainda hoje, por gente em geral pouco letrada, sem qualquer peso económico e  em número tão reduzido que nem sequer chega aos dez mil falantes?

A principal vitória institucional do mirandês até hoje foi a sua consagração legal, mas não devemos esquecer que essa é uma consagração pouco clara e débil em muitos aspectos, que se arrisca a não passar do papel. Porém, apesar das suas limitações, a lei nem sequer tem vindo a ser cumprida pelas instituições que a tal estavam obrigadas por força dessa mesma lei.

A razão da atitude das instituições também não pode ser financeira, não pode ser porque é algo que fique muito caro. Com efeito, a maioria do que há a fazer é uma questão de atitude, nem dinheiro exige. Nos casos em que se exige dinheiro ele é em tão pequena quantidade que parece ridículo se comparado com outros tipos de gastos completamente inúteis a que assistimos. Basta visitar Miranda e, logo à entrada, observar as obras do Fresno, onde se gastaram milhões, que destruíram o ecossistema do rio e hoje a ninguém aproveitam. Diga-se que uma atitude positiva sempre poderia programar os gastos, mas essa questão nem sequer se chega a colocar. Não, o problema não é de dinheiro. Por isso, não tenho dúvidas, o julgamento da história será mais rigoroso.

 

 

16.

A atitude das várias instituições, que acabamos de referir, condiciona decisivamente a atitude das pessoas, a atitude dos falantes efectivos ou potenciais do mirandês. É sabido que a sobrevivência de uma língua nunca será possível sem uma atitude positiva, empenhada dos falantes nesse sentido. O síndroma da língua charra, da língua caçurra ainda não desapareceu completamente, o que bem se compreende pois se trata de um complexo colectivo que tem séculos de existência.

As pessoas olham para aquelas instituições e os seus dirigentes e não recebem qualquer incentivo prático, uma atitude constante e consistente de apoio à língua. Dou-vos um exemplo recente: a Câmara de Miranda do Douro fez uma exposição de fotografias e publicou um catálogo com essas fotos e histórias de pessoas de idade que, na maior parte dos casos praticamente só falam mirandês, mas é tudo publicado em mirandês; a minha mãe consta desse catálogo e disse-me que apenas falou em mirandês quando foram ter com ela.

Passamos nas ruas (de Miranda ou das aldeias) e nas estradas e a toponímia em mirandês ainda não é a regra; entramos nos erviços públicos e a sinalética em mirandês é inexistente. Isto é, o mirandês não está de modo natural e tão frequente quanto necessário nos espaços públicos.

O mirandês é factor de preferência no emprego, em igualdade de circunstâncias? De forma alguma.

As instituições elaboram os seus documentos em mirandês ou bilingues? Nunca. A Câmara de Miranda poderia ter uma pessoa, uma só que fosse, dedicada a essa tarefa, mas nem isso.

Poderíamos continuar a perguntar e a dar exemplos. Enfim, todo um conjunto de factores que de forma alguma conseguem ser superados por todos os aspectos positivos que acima enumerámos e que estão a ser desenvolvidos. Deste modo as pessoas não têm qualquer incentivo para ensinar os seus filhos e falar com eles mirandês.

 

 

17.

Se assim é, para quê continuar a lutar pelo mirandês, sem descanso, continuando a acreditar que a sua viabilidade é possível, essa atitude que em vez de acreditar no futuro procura conquistá-lo com a sua atitude de agora?

Em primeiro lugar, é um dever de cidadania que se nos impõe. Nós, os trazemos connosco a língua mirandesa, não podemos esperar que sejam outros a fazer o que a nós compete. Já no início desta conferência falei da importância das línguas, incluindo das microlínguas como o mirandês.

Em segundo lugar porque o mirandês é um elemento importante no bem estar, na felicidade daqueles que o falam. E isso é muito importante para a sociedade.

Devemos procurar manter e desenvolver a língua até que melhores condições se criem, nomeadamente a nível institucional. É como aguentar vivo alguém que tem uma doença incurável, mas que luta pela vida na esperança que se descubra uma cura para a sua doença.

O legado que a língua e a cultura mirandesas podem deixar ao nosso país e à humanidade será completamente diferente se mantivermos a nossa luta pela língua ou se a abandonarmos.

Mas já hoje, o contributo que podemos dar para a convivência na diversidade, para a aceitação e a valorização do que é diverso, é um contributo essencial, ainda que diminuto, para a sanidade da nossa sociedade, para a dignidade humana em que assenta o respeito e a paz.

Os critérios meramente utilitaristas são muito perigosos e a nossa sociedade acabará por ser vítima deles se não fizermos tudo para os contrariar. Passar o tempo a perguntar, para que serve? pode levar-nos a um ponto em que essa pergunta nos seja colocada a nós próprios ou a uma sociedade inteira e não sejamos capazes de aguentar a resposta. Num livro sobre a velhice, ainda inédito, sob a forma de diário de um velho, escrito nos anos cinquenta do século passado, escrevo a certa altura:

 

Pa que sirbe un sacho?

Pa que sirbe un arado?

Pa que sírben ls çapatos?

Pa que sirbe un bielho?

Siempre la mesma pregunta: pa que sirbe!?

L que nun sirbe para nada, bota-se pa la rue. Solo stroba. Nun hai campo para todo.

L mal ye que l que sirbe ó nun sirbe, depende de quien dá la repuosta: uns arríncan l jóio, mas outros ségan-lo para se lo dar a las béstias.

Passo ls dies sentado ne l puial de piedra de la rue: quien passa mira para mi. Sirbo para esso. A las bezes pongo l chapéu an riba de ls uolhos i miro por baixo. Quien passa pensa que stou a drumir. Assi, las pessonas míran i pénsan. Tamien sirbo para esso. Quando se ban todos pa l termo i ls garotos quédan porqui, sirbo pa le cuntar cuontas i, a las bezes, mandá-los star quietos quando son mi zanquietos.

Quando ua pessona passa la bida a preguntar, “para que sirbe?”, puode quedar cun un porblema mui grande: chega a bielho i nun aguanta ls delores de la repuosta.

 

 

18.

É tempo de concluir. Vale para as línguas, mesmo as mais débeis, mesmo as microlínguas como o mirandês, o que vale para nós próprios: a vida é uma conquista de cada dia, nada estando garantido, e enquanto estamos vivos vale sempre lutar pela vida.

Este é um trabalho apaixonante de cidadania a que muitos mirandeses como eu continuarão a dar o seu melhor, empenhando o seu engenho, pois esses são os únicos milagres possíveis, mas sem que nada garanta qualquer resultado. Termino com as palavras que, no seu poema MENSAGEM, ainda este mês publicado em mirandês, Fernando Pessoa colocou na boca do rei D. Duarte:

Cumpri contra l Çtino l miu deber.

Einutlemente? Nó, porque l cumpri.

Ou, então, as palavras que coloca na boca do prisioneiro de Fez, D. Fernando:

... benga l que benir, nunca será

Mais grande que mie alma.

 

Bragança, Instituto Politécnico, 28 de Outubro de 2011

Amadeu Ferreira

puosto por fracisco n. às 13:09
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