Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

O oracionário mirandês: a língua das orações

[Estudo publicado no jornal Mensageiro de Bragança de 10 de Abril de 2003]

 

 

 

“Ó velhinha santa, minha boa amiga,

Reza o teu rosário, move os lábios teus!...

A oração é ingénua? Vem de crença antiga?

Não importa! reza, minha boa amiga,

Que orações são línguas de falar com Deus!...

Guerra Junqueiro, Os Simples, Lello & Irmão, Porto, 1978, p. 48.

 

 

 

Este texto pretende ser uma modesta e primeira reflexão sobre uma velha afirmação de J. Leite de Vasconcellos e sucessivamente repetida sem contestação, mas também sem demonstração: os mirandeses não rezam e talvez nunca tenham rezado mirandês.

Enunciado o propósito, fica claro que nos interessa, aqui e agora, o oracionário mirandês no seu aspecto cultural. Não que descuremos a essencial manifestação de fé que a oração sempre é, mas essa seria uma reflexão completamente distinta. É o sentido amplo de oração que nos servirá de referência. A pergunta - em que língua rezaram e rezam os mirandeses? -, delimita o nosso propósito, deixando de lado os inúmeros aspectos da chamada ‘piedade popular’, bem como a questão da língua das orações na Idade Média. Este texto vale, portanto, como uma primeira reflexão.

 

 

 

 

 

1. O movimento nacional dos sécs. XV-XVI para “rezar per linguajem”

 

Nos fins do século XV inicia-se em Portugal um movimento para rezar “per linguajem”, isto é, em português. Foi um movimento de grande amplitude e com intentos mais vastos de renovação da Igreja, visando ultrapassar a falta de cultura do clero e transmitir aos fiéis os princípios e mandamentos da doutrina cristã. Vários concílios provinciais realizados em fins do século XV estão na origem ou dão um grande impulso a esse movimento, como os de Braga em 1488, do Porto em 1496 e da Guarda em 1500. No que interessa ao nosso tema, refere a constituição XXX do sínodo do Porto: “por quanto somos ora emformados (...) que muitos freigueses (...) nõ sabem o pater noster nem ave maria nem mays pouco sabem os preçeptos e mãndamentos nem as obras de misericordia nem os pecados mortaaes pollo qual nõ se sabem cõfessar (...), mandamos que daqui em diante todollos abades rectores e capellães das ygrejas do dito nosso bispado (...) ensinem a todollos seus freigueses em modo que o bem possam aprender per linguajem os preçeptos e mãdamentos e peccados mortaaes” (vd. Elsa Maria Branco da Silva, O Catecismo Pequeno de D. Diogo Ortiz, Bispo de Viseu, edições Colibri, Lisboa, 2001, maxime p. 72).  Esta autora, onde pode encontrar-se um tratamento aprofundado do tema, conclui quanto àquele movimento: “No século XV a língua vernácula sofre uma valorização inquestionável em face da língua latina, como o provam as diferentes traduções que entretanto vão sendo feitas. Este fenómeno de publicação e de divulgação de obras em linguagem tem de ser interpretado como consequência da necessidade de afirmação da língua vernácula, pois temos a certeza que neste período de finais da Idade Média se começava a alargar o conhecimento do latim” (o.cit. p. 74).

É dentro deste movimento que devem ser integradas as Constituições Sinodais do Bispado de Miranda, de 1563, elaboradas por D. Julião D’Alva, 3º bispo de Miranda, que prescreviam: “Mandamos a todos os abbades, priores, reitores, curas & capellães deste nosso bispado, que cada um em suas ygrejas, assi nas matrizes como nas annexas, ponham em hũa taboa bem concertada hũa folha que agora mandamos imprimir, em que se contém a doutrina christãa: a qual estará pendurada de hũa cadea posta nas grades ou paredes das ditas ygrejas em altura conveniente: por que todos os que quiserem possam nella ler e aprender a dita doctrina, e pola mesma taboa a possam os ditos curas ensinar”. Os párocos deviam ensinar os moços de 5 a 12 anos “muy de vagar, em voz alta e intelligível, de maneira a que de todos possa ser entendida”. (in J. Leite de Vasconcellos, Estudos de Philologia Mirandesa, I, p.155). J. Leite de Vasconcellos admite tratar-se de disposições similares às de outros bispados mas, para uma região onde o povo falava mirandês, as consequências seriam bem maiores, concluindo: “... fica manifesto que mal poderiam ter chegado até nós orações e rezas em mirandês, se é que anteriormente a D. Julião ellas se usaram nesse idioma” (o. cit. p. 156). E acrescenta, “não sei se em algum tempo as orações foram rezadas em mirandês; o que porém é certo é que há razões históricas, e muito positivas, para se explicar o facto actual (“...de serem as rezas e orações não em mirandês, como se esperaria, mas em português”). São ainda as Constituições de D. Julião de Alva que nos elucidam.” (o.cit. p. 155).

António Maria Mourinho (vd. Terra de Miranda. Coisas e factos da Nossa Vida e da Nossa Alma Popular, ed. Câmara Municipal, Miranda do Douro, 1991, pp. 261) segue a lição de J. Leite de Vasconcellos quanto à língua das orações e quanto às consequências das Constituições Sinodais de D. Julião d’Alva: “A gente da Terra de Miranda, segundo suponho, nunca terá rezado em mirandês. Durante a Idade Média, rezava-se em latim (...)”. Assim, as dúvidas de J. Leite de Vasconcellos (“não sei se em algum tempo as orações foram rezadas em mirandês”) convertem-se em certezas com António Maria Mourinho (“nunca se terá rezado em mirandês”).

Já Domingos Raposo não é tão incisivo, ao constatar a existência de orações em mirandês: “... para alhá de rezar quaije siempre an pertués, tamien ten las sues ouraçones an mirandés” i transcreve uma das muitas versões do “Padre Nuosso Pequenino” e algumas rezas (vd. Domingos Raposo, “Lhéngua Mirandesa – Muôlo de Cultura Biba, in Entre Duas Margens. Douro Internacional, João Azevedo Editores, Mirandela, 1998, p. 68).

As afirmações de J. Leite de Vasconcellos e de António Maria Mourinho, pese embora a grande autoridade destes autores, carecem de ser demonstradas. A constatação de Domingos Raposo, que qualquer mirandês pode corroborar, é incontornável: “existem orações em mirandês”. Mas essa constatação empírica não basta, pois este último autor também conclui que os mirandeses rezam quase sempre em português, isto é, não avança muito em relação às posições de Vasconcellos e de Mourinho. Para poder ir mais longe, impõe-se uma reflexão metodológica e terminológica que permita enquadrar a realidade do oracionário mirandês.

A oração tem de ser inserida na vivência da religiosidade pelas comunidades e pelas pessoas, numa situação em que o sagrado impregna profundamente toda a vida e o agir dos povos. Nesse sentido, é essencial distinguir realidades que não se confundem: a prática colectiva e pública da oração, nas igrejas e sob controlo da hierarquia e da própria comunidade; a prática individual de relacionamento com Deus e os santos através da oração; a prática individual ou colectiva de relacionamento com Deus, com os santos, ou com forças naturais, mas fora do controlo da Igreja e dos seus rituais. Vejamos cada uma das situações.

 

 

2. A oração na liturgia oficial na igreja

 

 

 

As orações ditas nas igrejas ou integradas em ritos do calendário litúrgico consistem, sobretudo, em fórmulas ensinadas através da catequese ou transmitidas oralmente de geração para geração e aprendidas em oracionários, muito em voga em determinadas épocas. Essas orações são ditas em português, desconhecendo eu qualquer excepção a essa regra. A Igreja adoptou claramente e de modo muito forte a língua portuguesa e esta foi imposta às pessoas como “língua de falar com Deus”. Tudo indica que assim será desde os sécs. XV-XVI, isto é, desde o início do movimento nacional para rezar “per linguajem”, que nunca teve em conta a especificidade linguística mirandesa, até porque, tudo indica, esta não seria considerada como uma verdadeira língua. Tal facto desencorajou a elaboração de orações para dizer na igreja e em público, pois tal nunca seria aceite. Quanto ao que terá acontecido antes dessa data, sobretudo durante a Idade Média, é assunto que deixamos para outra ocasião.

Durante muito tempo, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, circularam livrinhos com fórmulas de orações adequadas para todas as ocasiões da vida, ao longo do dia e do ano. Essas orações eram aprendidas por algumas pessoas que depois as divulgavam e que a tradição incorporou e adoptou, seleccionando aquelas a que o povo mais se afeiçoou por razões de facilidade ou de utilidade. António Mourinho dá o exemplo de tiu Domingos Cangueiro, de que eu próprio muito ouvi falar, como uma dessas pessoas que eram um repositório de orações (vd. Cancioneiro, cit., p. 285).

A repetição dessas fórmulas era considerada essencial, sendo muitas vezes mecânica na resposta à pessoa que conduzia a oração e, por vezes, deturpado o seu conteúdo por falta de entendimento de algumas palavras. Parece-me interessante referir que a pessoa que conduzia as orações públicas, por exemplo a velar um morto, apresentava as intenções dessas orações ou fazia a ligação entre elas sempre em mirandês, mas, mal iniciava a oração, passava ao português. Por vezes, nas orações públicas, pouco mais se ouvia que clamor que ressoava repetidamente pelas naves das igrejas ou nas casas. Muitas dessas orações concediam indulgências ou, se ditas um certo número de vezes ou em certos dias, concediam determinadas graças, o que era um factor essencial para serem ditas e repetidas. Por isso, sendo as orações aprendidas na língua portuguesa, esta passava a fazer parte essencial do formulário e devia ser mantida, como se o poder da oração também residisse nas próprias palavras.

Sendo a missa em latim, algumas pessoas rezavam baixinho certas orações, ensinadas para momentos próprios, ao ajoelhar-se, ao elevar da hóstia e do Cálice, etc. Várias dessas orações chegaram até nós e ainda hoje são ditas por pessoas mais velhas. Noutros tipos de rituais, que não a missa, como novenas, via-sacra, o “rosairo”, as orações ou respostas do povo ao sacerdote eram também em português. Igualmente parecem ter sido rezadas em português as duas orações mais populares, o Padre Nosso e a Ave Maria (o chamado Padre Nosso Anteiro), mas, nesse caso, dada a frequência com que eram rezadas, saía um português amirandesado, variando conforme as pessoas. Lembro-me da minha avó Ana a rezar assim (ainda nasceu no século XIX e morreu quando eu tinha 19 anos), pois rezar em português exigia um esforço muito maior, dado o menor domínio da língua.

Em conclusão, nas situações referidas neste ponto, a língua era usada em face de elementos estranhos à comunidade e a regra, nesses casos, mesmo que não se trate de rezar, é sempre o uso da língua portuguesa. A Igreja, encabeçada pelo padre que, em regra, não falava mirandês, era objecto de uma relação linguística similar à estabelecida com outras instituições públicas exteriores à comunidade, como as estaduais.

 

 

 

 

 

3. A oração como prática individual

 

 

Como é sabido, a oração na igreja ou ligada aos ritos do ciclo cristão não esgota as ocasiões em que se rezava, embora, à medida que recuamos no tempo, mais importante se revela o papel do ‘ministro’ no contacto com Deus, em nome de todo o povo. Dado que o sagrado impregnava de modo profundo a vida das pessoas, todas as ocasiões tinham orações a elas ligadas, tendo chegado até nós um grande conjunto de orações não oficiais, recitadas colectiva ou individualmente. Mesmo muitas pessoas que não frequentavam a igreja também rezavam. É frequente ouvir expressões como “You nun bou a missa, mas acá tengo la mie debocion.” Há algo de muito imediato, de urgente e de concreto nessas orações individuais, a contrastar com o carácter mais genérico e abstracto da maioria das orações referidas no ponto anterior que não contêm apenas súplicas, mas incorporam louvores, acções de graças, etc.. Nessas ocasiões as pessoas estão mais dispostas a fazer comércio através de promessas do que a rezar ou a confiar exclusivamente  nas palavras da oração, embora esta acompanhe sempre a prática, assente no princípio “do ut des” (dou para que me dês).

Há um texto impressionante que nos é apresentado por A. M. Mourinho como testemunho pessoal (Terra de Miranda..., cit., p. 367) nos seguintes termos: “Nas igrejas em que não há altar das almas, são os votos e orações pelos mortos dirigidos à Santa Cruz. Uma imagem grande do Crucificado segue à frente da cruz paroquial nos acompanhamentos fúnebres. Recordo-me de ter ouvido num enterro, em Cércio, ao chegar a Santa Cruz à casa onde estava o defunto, uma velha mirandesa dorida pela morte do marido, levantando as mãos ao céu a clamar em mirandés: Ah Santa Cruç gloriosa, acumpanhai la almica de l miu home pa l reino de la Glória!... Ah Pai de mezericórdia, nun deixeis la almica de l miu home caier n’einfierno!...”. Em rigor, estamos perante uma verdadeira oração e não perante um pranto dado que este se traduz em fórmulas previamente preparadas e muitas vezes ditas por profissionais pagas para chorar. Eu próprio assisti diversas vezes a situações como as que A. M. Mourinho relata, em que a língua utilizada era sempre o mirandês. Refiro este exemplo como paradigmático relativamente às orações individuais das pessoas, com ou sem exteriorização pública.

No seu dia a dia, os mirandeses sempre se referiram a Deus na sua língua, seja ao cumprimentar as outras pessoas (Dius mos dé bunos dies. Bunos dies mos dé Dius), ao lembrar os mortos (Que Dius le perdone! Que Dius l tenga an çcanso!), seja ao dirigir-se a Deus, à Virgem ou aos santos em momentos de aflição (Ah Dius!, ajuda-me; Ai bala-me Dius!; Ai, bala-me la birge Santíssima!; Ai Nuossa Senhora m’acuda!). Embora não estejamos perante orações, estas fórmulas e outras semelhantes mostram a existência de uma referência a Deus em mirandês. O mesmo vale para os nomes dados a Nossa Senhora e aos santos, sempre tratados em mirandês: Nuossa Senhora de l Naso, de la Lhuç, de l Monte, de l Rosairo, de l Sartigalho; San Jesé, San Juan, Sant’Antonho, Santa Bárbela, Sant’Eistéban, Santa Marina, Santa Luzie, etc. Este facto ajudar a explicar que os mirandeses nunca tivessem deixado de rezar em mirandês e a importância dos santos como alguém considerado simultaneamente mais próximo das pessoas e de Deus. Isso demonstra igualmente que as pessoas encaram a sua língua como instrumento adequado para se dirigir a Deus ou aos santos ou para invocar o seu nome. Quando faltam elementos de controlo ou inexistem outras razões que imponham a língua portuguesa nas orações, a língua usada tende a ser o mirandês como língua mais natural e usada no dia a dia. Merecem tratamento os problema psicossociológicos resultantes dos modos de tratamento não uniformes usados com Deus, mas não podemos tratá-lo neste espaço.

As orações públicas rezadas fora da igreja, por exemplo no fim de uma refeição de festa, eram sempre conduzidas por uma pessoa que se considerava que sabia rezar: é ‘a pessoa que mandava rezar’. Alguém diz: “Bá, quien manda rezar?” E logo uma pessoa se oferecia ou era indicada. Essa pessoa dirigia a oração, fazendo as encomendações pelos mortos, dizendo as intenções da oração, pelas colheitas, pela saúde, etc. o que já era uma verdadeira oração, sempre dita em mirandês. Tudo termina com o chamado Padre Nosso Anteiro (Padre Nuosso, Pan Nuosso, Abe Marie i Santa Marie), dito nun português muito amirandesado. Este Padre Nosso Anteiro tinha autonomia face às outras orações, pois era uma espécie de chave com que terminavam quase todas as orações, e era dito ao toque das Trindades, ao passar no campo junto de uma cruz, depois das refeições, etc. Dizem as pessoas mais velhas para clarificar: “nós poniemos todo al nuosso son” (punhamos tudo à nossa maneira). Por exemplo, uma pessoa entrava na igreja e benzia-se com água benta dizendo: An nome de l Pai, de l Filho i de l Sprito Santo.

Podemos concluir que os mirandeses, quando assumem a oração como um acto individual, tendem a rezar em mirandês, e nesta língua se dirigem a Deus, a Nossa Senhora e aos santos, mesmo quando usam fórmulas prévias e ainda que tenham de as traduzir, não se importando com o desacerto da rima. Quando a oração é pública, mas fora da igreja, e ‘quem manda rezar’ é um mirandês, a oração é sempre em mirandês, rematando com uma fórmula, em regra o Padre Nuosso Anteiro, numa mistura das duas línguas, a tender mais para uma ou para outra conforme as pessoas.

Não posso deixar de referir que há um número significativo de orações em castelhano que também são recitadas, todas se caracterizando pela sua rima expressiva e cantante, que sónan bien, como me disseram algumas pessoas, e são ditas como se fossem um romance não cantado. Na maioria dos casos, tal como referimos para as fórmulas oracionais em português, eram ditas com uma grande quantidade de palavras mirandesas.

 

 

 4. O poder das palavras

 

 

Há muitos casos de orações dirigidas a Deus e aos Santos em que se atribui um valor específicos a uma oração concreta, com aquela fórmula, ainda que deturpada em muitos dos casos. Há mesmo orações que exigem determinados ritos, por exemplo rezar três vezes ao dia; rezar às sextas-feiras; rezar ao deitar ou ao levantar, etc. Há uma oração apropriada para cada momento e para cada situação. De entre estes casos impressionam particularmente os exemplos de orações em português que terminam com fórmulas explicativas dos seus efeitos. Estas fórmulas não são específicas do oracionário mirandês. O que as caracteriza é serem em língua mirandesa. São fórmulas que já não fazem parte da oração, e no entanto são ditas sem respirar após ter acabado a oração. Vejamos alguns exemplos. Uma oração a São Bartolomeu recolhida em Sendim termina assim (vd. Carlos Ferreira, in www.mirandes.no.sapo.pt): “Quien esta ouracion dezir trés bezes al die, ancuntrará las puortas de l cielo abiertas i las de l einfierno nunca s’abriran”. Numa outra oração recolhida no mesmo local: “Quien esta ouracioun dezir todas las sestas de l anho, sacará ua alma de pena i la sua de l pecado”. Nalguns casos a fórmula final é ainda mais enfática: “Quien la sabe que la diga/ Quien nó, que l’aprenda,/ A la hora de la sue muorte, / Sue alma se l’arrependa (vd. António Maria Mourinho, Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas, 1º volume, Miranda do Douro, 1984, p. 113). Ou ainda esta variante, que me habituei a ouvir desde criança: “Quien la sabe que la diga/ Quien nó que la deprenda, / Q’a la hora de la sue muorte/ La sue alma nun se perda.” A língua usada com estas e outras fórmulas semelhantes mostra que as pessoas, mal terminava a oração propriamente dita, voltavam à sua língua, o que é bem revelador de que a língua utilizada era aquela em que as orações tinham sido previamente aprendidas.

O povo sempre teve o gosto das fórmulas oracionais complexas, dramáticas, com o seu quê de teatral, ainda que de origem erudita, tal como sempre foram apreciadas as pessoas que sabiam de cor essas orações. Eu próprio ainda hoje tenho bem presente a profunda impressão que, em criança, me causava o “Triste Dia” (tradução portuguesa do “dies irae”), rezado/declamado nos três dias em que se rezava nos “rosairos de belada” após a morte de uma pessoa e em casa dela. No comentário que faz a esta oração, António Maria Mourinho reflecte bem esse ambiente: “O fundo dramático de medo e espanto que domina também esta tradução do Dies Irae (...) caiu muito bem nas almas destes povos, por isso eles a conservam intacta até para além dos nossos dias.” (vd. Cancioneiro..., cit., p. 285). Todo este ambiente incentivava a que as orações fossem ditas na língua em que foram aprendidas, o português.

Há um conjunto de outras orações, geralmente ditas em mirandês, em que o poder das palavras é igualmente essencial. Muitas delas são classificadas como rezas e benzeduras, que têm muita da sua eficácia agarrada ao ritual das palavras, ditas de certa maneira e por uma certa ordem, bem como aos sinais feitos enquanto se diz a oração. O seu texto escapa a um controlo oficial, estando a língua em que são ditas exclusivamente dependente de quem as diz. Centrando a atenção nestes casos, encontramos orações para uma boa cozedura do pão, para quando se coloca uma galinha a chocar os ovos, orações a Santa Bárbara contra as trovoadas, orações a Santo António quando se perdem coisas ou para guardar os gados, orações para obter a cura de doenças de pessoas ou animais, etc. De todas essas orações circulam inúmeras versões em mirandês, mas podemos encontrá-las noutras regiões do país, e mesmo na região de Miranda, em português.

 

 

 

 

 

5. O oracionário mirandês 

 

As orações transmitidas pela tradição oral, independentemente da sua origem, fazem parte da literatura oral e são um dado cultural e identitário da mais alta relevância. Relativamente ao oracionário em mirandês, as recolhas efectuadas até agora são ainda muito pouco significativas, talvez devido à pouca importância que se tem dado a essa parte da literatura oral. Parece-me essencial colmatar essa lacuna e trazer à luz do dia o essencial do oracionário mirandês, independentemente da língua em que as orações são rezadas.

A mais importante recolha até agora efectuada foi publicada por António Maria Mourinho no Cancioneiro e Danças Tradicionais Mirandesas, vol. I (pp. 257-276), onde são publicadas à volta de 40 orações, das quais só uma é em mirandês, dedicada a Santo António (p. 259-260) e outra é em mirandês e em castelhano (p. 122-125). Alguns outros elementos são publicados em outras obras do autor, que deu grande importância à religiosidade do povo mirandês, embora sejam muito poucas as orações recolhidas (ver, em particular, Terra de Miranda... cit.)

Domingos Raposo (“Lhéngua Mirandesa – Muolo de Cultura Biba”, in Entre Duas Margens. Douro Internacional, João Azevedo Editores, Mirandela, 1998, p. 68) publica uma versão do “Padre Nuosso Pequenino”  e uma oração para rezar quando se mete o pão no forno.

Em Lhiteratura Oral Mirandesa. Recuôlha de textos an mirandés, Granito Editores e Livreiros, Porto, 1999, coord. por António Bárbolo Alves, é publicada uma oração em mirandês e duas benzeduras em português (vd. p.61).

Carlos Ferreira publicou cinco orações recolhidas em Sendim (www.mirandes.no.sapo.pt), quatro em mirandês e uma em mirandês e castelhano.

Foi também publicada uma oração a Santa Bárbara, em mirandês, no sítio da internet www.eb2-miranda-douro.rcts.pt/mirandes/

Numa recente recolha de literatura oral efectuada em Malhadas por Duarte Martins (no prelo) são também apresentadas várias orações recolhidas da tradição oral, todas em mirandês. Algumas são versões em mirandês de orações já publicadas por António Mourinho, mas em português.

Eu próprio tenho recolhido em Sendim, de forma não sistemática, algumas orações até agora não publicadas, mas que tive em conta para este estudo.

 

Do que fica dito, com base nas recolhas publicadas e em inquéritos pessoais realizados, não se comprovam as afirmações de J. Leite de Vasconcellos e de António Maria Mourinho quanto à língua usada pelos mirandeses para rezar. O que se pode concluir é, afinal, bem simples, embora desconcertante: o uso da língua em relação às orações não difere, em grau, do uso da língua em relação às outras situações da vida e à literatura oral em geral. Assim, quando usou a célebre e hoje ultrapassada fórmula de que o mirandês era a língua do campo, do trabalho e do amor, J. Leite de Vasconcellos devia ter acrescentado, glosando a belíssima expressão de Guerra Junqueiro, que o mirandês também é uma língua de falar com Deus. Se tivesse percebido isso, talvez encarasse duma outra forma a capacidade de resistência do mirandês.

 

Amadeu Ferreira

 

 

 

puosto por fracisco n. às 16:03
| comentar | ajuntar als faboritos
|

.mais subre mi

.buscar neste blogue

 

.Setembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.testos nuobos

. O oracionário mirandês: a...

.arca

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds