Sábado, 16 de Abril de 2011

O Burro nos 'Ditos Dezideiros' e na tradição oral mirandesa

[Estudo publicado na revista Amigos de Bragança, Março de 2005]

 

 

 

Se, há alguns anos atrás, alguém dissesse que os burros mirandeses necessitavam de especial protecção pois estariam em risco de desaparecer, talvez não acreditássemos. Hoje ninguém tem dúvidas e também esse facto mostra como a nossa sociedade mudou. Companheiro inseparável do homem desde há milénios, o burro deixa a sua marca forte no nosso modo de pensar, na nossa forma de ver o mundo, em suma, na nossa linguagem, talvez como nenhum outro animal. Também essa marca se irá esbatendo com o tempo, desaparecendo nuns casos e tornando-se incompreensível noutros, como já hoje acontece em relação ao zebro, essa espécie de burro selvagem cuja existência apenas deixou rasto na toponímia. Aqui deixo algumas notas sobre o rasto do burro na linguagem mirandesa, em particular nos provérbios, pondo de lado algumas outras manifestações para não alongar excessivamente o artigo.

 

 


O burro como género: burros somos todos nós

 

Talvez a mais frequente acepção da palavra burro, nos provérbios, seja como sinónimo de pessoa, processo muito usado com animais quando se pretendem transmitir verdades universais. Esse facto mostra bem a proximidade desse animal no quotidiano de uma sociedade camponesa pobre, em que é animal de carga e de trabalho por excelência, mas mostra também que as pessoas não têm desse animal uma imagem tão negativa como pode parecer à primeira vista.

Assim, quando se pretende vituperar um oportunista que só vai onde pode obter um benefício, de preferência fácil e à custa da fraqueza ou impotência alheias, diz-se Adonde hai un burro muorto nun fáltan cuorbos ou Cheirou-le cumo cuorbos a burro muorto. Este dito, de que não encontro paralelo no adagiário português, é bem mais subtil, mas não menos cru, que o dedicado pelo adagiário espanhol aos caçadores de heranças sem escrúpulos Do viejos no andan, cuervos no gradan, com as variantes Do viejos no andan, cuervos no graznan e Cuervos vienen, carne hay. Num caso como noutro assentam no conhecimento de os abutres sobrevoarem as carcaças de animais mortos que antigamente eram deixados ao abandono no campo, facto de que a toponímia ainda guarda memória.

Em situações em que uma sequência de factos se apresenta como funesta, mas que não pode ser remediada ou a que nos resignamos, dizemos, Para adonde bai l burro que baia l’albarda, podendo até particularizar-se mais o dito, quando alguém está envolvido directamente, dizendo-se Para adonde bai l burro, que baia l’albarda i para adonde bai l’albarda, que baia Jesé.

Que o mundo não é linear, e que coxistem sempre forças contrárias que asseguram o equilíbrio do mundo e mantêm a esperança, é conclusão que as pessoas há muito tiraram do conhecimento da natureza e do comportamento do seu burro, dizendo Quando nace ua silba hai lhougo un burro pa la rober. Mas também o burro é um exemplo que serve para ilustrar alguma injustiça a propósito da retribuição ou a chamada de atenção de que o trabalho, só por si, pode não ser aquilo que traz mais reconhecimento social, pois L burro que mais trabalha nun ye l que melhor albarda trai. Conhecemos bem a resposta de Jesus às queixas da afadigada Marta perante a atitude de Maria, que não a auxiliava nas tarefas da casa: “Marta, Marta, andas atarefada e cansada com muitas coisas, mas apenas uma faz falta. Maria escolheu a melhor parte e não lhe será tirada” (Lucas, 10, 41-42). E que melhor imagem para traduzir a revolta de o justo pagar pelo pecador, do que a do provérbio Por bias de l burro, palos na albarda?

Também o burro serve para ilustrar a ligeireza com que alguns olham para o trabalho dos outros, não o valorizando ou não querendo eles próprios realizar o esforço necessário para atingir um resultado, mas apenas gozar esse mesmo resultado sem cuidar da cadeia de pequenos e duros esforços que a ele conduziram. Daí que Apuis de l burro albardado qualquiera un l monta ou L burro an casa faç falta, mas naide le quier dar de comer. Igualmente aquele que, devido a uma experiência limitada, tem em boa conta algo que não tem comparação com realidades bem mais nobres e desenvolvidas, impante com o seu umbigo, fica bem ilustrado no dito Quien burros agabou, nunca cun bacas lhabrou, ou naquele que critica o Ir de cabalho para burro.

Que cada um pode tratar dos seus negócios melhor que qualquer outro, pode ser demonstrado na relação estreita que se estabelece entre o dono e o seu burro, que se conhecem bem assim como às respectivas manhas: Naide puxa l rabo de l burro cumo l duonho; Naide puxa melhor l rabo de l burro que l própio amo; Nun hai naide melhor que l amo para falar de l sou burro. Daí que para as qualidades e defeitos das pessoas nada calhe melhor que as características que normalmente são atribuídas aos burros, como a teimosia e a estupidez: Bozes de burro nun chégan al cielo; Burro bielho nun toma andadura. Ou quando alguém ou alguma coisa vai de mal a pior, o burro não aguenta a comparação com o cavalo, considerado mais nobre, razão porque se diz que Bai de cabalho para burro. Igualmente, em sociedade há que ter respeito pelos outros, pois Quando un burro fala, ls outros scúitan, mas também é vituperada a inveja daqueles que não têm iniciativa e não podem deixar os outros singrar, dizendo-se que Quando un burro meija, a todos le dá ambeija. Mas não deixa de se sentir um certo apelo à tolerância perante a diferença quando se sentencia Cada burro cun sue teima.

Embora se diga que burro velho já não aprende ou já não muda, não deixa de se ter em conta que a velhice permite acumular sabedoria, experiência e convive com uma perda de inocência que não deixa os velhos ir em cantigas, daí que se diga, para qualificar uma pessoa com essas características que Ye burro bielho, como quem diz, mesmo aos burros o tempo pode ensinar muito. Também a pessoa demasiado insistente em algo que não deve, se procura calar com a expressão I dá-le, i la burra a fugir!, tal como se recrimina a pessoa que fala ou age com ligeireza, de qualquer maneira, dizendo-se que Fala d’anriba la burra ou que Faç las cousas anriba de la burra. Falar ou fazer as coisas desse modo é uma certa forma de arrogância, daí o convite ao arrogante ou se esconde atrás de vantagens não devidas ao seu próprio valor, Abaixa-te de la burra! Daquele que faz algo contrariado ou que se sente desconfortável no está a fazer se diz que Stá cumo l burro preso a la staca, dito que implica um juízo positivo em relação ao burro, amante da liberdade. Daquele que se depreza e cujas palavras não são merecedoras de atenção se diz que Bozes de burro nun chégan al cielo. Aquele que trabalha em excesso, aguentando com tudo e sem que daí venha grande resultado ou sem se queixar se diz que Ye un burro de carga.

Como podemos verificar em todos estes casos o nome burro é usado com sentido aberto, referido ao género humano. Este procedimento não é específico desta palavra – animal, mas acontece com outros animais. Não com qualquer animal, mas apenas com aqueles em relação aos quais o homem tem maior proximidade, não se encontrando nomes de animais que não façam parte do universo em que o dito é usado. De todos eles, estou em crer que o burro ocupa uma posição cimeira, não apenas em número de provérbios, mas de outros usos linguísticos, assumindo uma carga simbólica muito importante. Esse uso corresponde ao de uma sociedade agrícola, em que o burro desempenha um papel essencial: é um animal mais barato, é sóbrio quanto ao alimento, adapta-se a solos muito acidentados, é manso, tem um papel essencial na criação de um outro animal, do género muar, através do cruzamento com cavalo – égua, e é polivalente quanto às funções que pode desempenhar, a saber, servir como animal de carga, como animal de transporte de pessoas, para lavrar e, em geral, como animal de tracção em variadas situações. Em suma, um animal a quem o homem muito deve e por quem tem respeito, o que já não acontece com outros cuja função é, por exemplo, apenas produzir carne.

 

 

 

Do burro animal ao burro adjectivo

 

Atentas as suas características como animal, a palabra “burro” tem um uso pouco lisonjeiro quando aplicado a pessoas. O mesmo vale para um conjunto de derivados formados a partir daquela palavra. Com efeito, a definição de burro, enquanto adjectivo, não andará lonje de: estúpido, imbecil, teimoso. Também com esses sentidos a palavra é usada nos provérbios, mas nestes tem uma riqueza de significados muito mais ampla. Com aqueles sentidos, diz-se de alguém que é burro cumo ua puorta, burro cumo un cepo, burro cumo un çoco; ou faz-se a comparação com certas partes do corpo do burro, nomeadamente aquelas que deviam pensar mas não pensam (actividade perigosíssima, pois A pensar morriu-se un burro), dizendo-se de alguém que é cabeça de burro, ou que tem oureilhas de burro; de modo mais lapidar se diz de alguém que ye burro. Mas já se diz que alguém é uolhos de burro quando lhe pretendemos fazer realçar a maldade ou o carácter boçal.

Os comportamentos que revelam esperteza são exactamente contrários aos do burro. Assim, quando se quer avisar ou aconselhar alguém para proceder com esperteza se diz Tu nun me seias burro. Também se diz de alguém que agiu com esperteza naquilo que lhe convém, num comportamento próximo do oportunismo ou do egoísmo, Chama-le burro! Porém, a palavra já ganha um sentido muito diverso no dito Quien parte i reparte i nun queda cula melhor parte ou el ye burro ou nun ten arte, pois aí a palavra burro está no sentido de ingénuo, não oportunista, mas também de alguém que se deixa levar pelos outros, sentidos que não são necessariamente negativos. Esse mesmo sentido aparece num outro dito, relativo a alguém que verificou ter sido enganado na sua ingenuidade e boa fé, ou devido à sua generosidade com quem o não merecia, levando a pessoa a dizer de si própria Mas quien me manda a mi ser burro!? O burro é ainda o símbolo da mansidão, pois se diz de um outro animal que Ye manso cumo un burro, para significar que é confiável, afável, dócil, ao ponto de poder ser entregue a uma criança que não lhe fará mal.

A falta de esperteza parece ser um dos piores defeitos que uma pessoa pode ter, pois se diz que Ser probe nun ye defeito, mas ser probe i burro ye l pior defeito que puode haber. Assim, ser burro é luxo a que só os ricos se podem entregar, pois os pobres precisam de toda a esperteza para fazer pela vida. Mas também aqui a esperteza pode ser tomada tanto com o sentido de inteligência, como no sentido mais negativo que implica algum oportunismo, ou apenas no sentido de matreirice.

A palavra pode ainda ser usada com um sentido indefinido, como concentração de tudo o que há de negativo, aplicado a uma pessoa, razão porque o tratar muito mal uma pessoa, com palavras, é nada mais que Dar-le ua data de burro.

Assim, parecem estar associadas ao burro a estupidez, a casmurrice, o oportunismo, o egoísmo, mas também a ingenuidade, a pureza de alma, a boa fé, a generosidade, pois é confiável, afável, dócil, sóbrio e, ainda, a matreirice e o ser desenrascado. Esta riqueza de significados, que os dicionários não reflectem minimamente, é bem reveladora da relação contraditória que o homem tem com o burro, um misto entre desprezo e carinho, entre rejeição e admiração, enfim aquela relação que leva os contrários a atraírem-se e a repelirem-se ao mesmo tempo, como o gato e o rato, ou a relação dos dois compinchas que estão sempre a implicar mas não podem passar um sem o outro. Em suma, significados que implicam o reconhecimento de uma forte personalidade ao burro, tão grande como os seus defeitos e as suas virtudes.

Enquanto animal de trabalho por excelência, através dos ditos sobre o burro se exprime uma certa ambivalência das pessoas face ao trabalho. Creio que o sentido negativo que o adjectivo burro encerra resulta também de um modo de julgar a função e o comportamento do animal do mesmo nome: por um lado o ser um animal de trabalho, polivalente; por outro o seu comportamento dócil e a sua sobriedade. Está, portanto, implícita uma crítica a essas características, que a sociedade valora de modo ambivalente. Sendo esse o “destino” das pessoas do campo, de certo modo torna-se quase automática uma certa identificação com o animal e, simultaneamente, uma certa rejeição que é uma rejeição da sua própria condição. Algo tão óbvio que facilmente se lhe encontra transparência, bem expressa no dito Debagar se bai al loinje, mais burro ye quien se mata.

 

 

 

Afinal o burro é mesmo burro?

 

Do que vimos até agora, raras são as expressões em que se quer significar o burro animal. No entanto, também algumas lhe são dedicadas e nem todas têm um sentido pejorativo.

Em muitas dessas expressões ou sentidos da palavra, o burro aparece como um animal de trabalho por excelência, paciente, capaz de suportar cargas sem se queixar. Essa conotação não é necessariamente negativa numa sociedade camponesa. É o que se retira de expressões como Burro de carga, ou do nome dado a instrumentos e utensílios cuja função é aguentar cargas, como a armação que suporta a madeira que vai ser serrada, ou o pau com dentes de ferro, semelhante a um pente, utilizado para separar a lã mais fina da mais grosseira. Pisa-burros se chamam certas flores azuis dos prados, burro é um tipo de tijolo maciço.

Quanto à comida, é sabido que o burro é um animal sóbrio e esquisito em certos alimentos, o que as pessoas não compreendem pois dizem que Un burro ye tan burro que deixa la yerba buona i bai-se a comer cardos. Porém, reconhecem que mesmo um burro obedece mais facilmente a um bom alimento que a pancada. Daí que à admiração / indignação de alguém que diz L burro nun me anda!, outrem lhe responda, Dá-le de trás, isto é, dá-lhe de comer antes de o pores a andar, e não, bate-lhe na parte traseira, como pode parecer à primeira vista.

De um burro se diz que inventou a poda, chamando-se assim a atenção para a suposta facilidade dessa arte e para a inconsciência do animal quando faz bem, mas também quando faz mal pois se diz que La sprança (ou la cuncéncia) era berde, staba anriba dun cardo (ou dun carro), bieno un burro i comiu-la. Essa mesma inconsciência é verberada pelo dito Quien fai bersos sin querer, ye burro a baler.

Mas não pode criticar-se o burro por desempenhar a função que lhe está destinada na sociedade, sendo merecedoras de crítica as pessoas que assim não procedem, pois Quien ten burro i anda a pie, mais burro ye. Um burro especialmente criticável é o do João Brás, Que an beç de ir al palantre bai al para trás, e há pessoas que são como esse burro, isto é, mais burras que o normal dos burros. Também as consequências de certos actos podem implicar que um homem tenha de acompanhar o burro numa função tradicionalmente reservada ás mulheres, como é o fazer e levar as refeições que ceifam no campo, pois L que ampreinha la mulhier an Outubre bai pa la segada cul burro. De facto o burro está ligado muito à mulher que o usa para levar o comer ao campo e como meio de transporte e transportador privilegiado, deixando outras tarefas consideradas mais nobres, como a tracção, reservadas a vacas e mulas. Aqui aflora, pois a distinção mulher / homem e a separação de tarefas entre eles. Aliás, como é regra no que toca à criação as características do animal transmitem-se por via materna, mas isso seriam questões que nos obrigariam a dar a volta por outros caimnhos e a sair do nosso propósito inicial[1].

O simpático animal é muitas vezes usado em ditos jocosos. Assim se diz que uma das verdades do mundo é Ls burros tenéren l culo redondo i cagáren ls figos quadrados. Também se conta a adivinha: Abe lumbriga, / ten un bico na barriga, / Canta nas lhadeiras, / Ressona nas ribeiras, / Pon ls uobos a las dúzias / i nun ye burra. Se alguém responde Anton ye burro!, a conclusão surge fulminante Alhebanta-le l rabo i chupa-le l culo! Igualmente, quando se quer gozar com alguém que se mostra muito sabichão em assuntos de que nada percebe, se diz, Tu que antendes, mira a ber se la mie burra stá salida.

 

 

 

Um mundo onde o burro faz sentido

 

Toda a cultura que envolve o burro tem uma espécie de mito fundador. Esse mito fundador diz-nos que “burro” não é um nome e sim um adjectivo e que apenas terá sido aplicado como nome ao nosso animal por castigo de Deus. Assim, a burrice existia antes do burro e continua a existir depois dele e apesar dele. Sendo assim, tudo bate certo e o burro apenas teria de se queixar de si próprio. A história foi assim recolhida por António Maria Mourinho[2]:

Era ua beç Nuosso Senhor que habie criado l mundo i to ls animales: las cabras, las canhonas, las bacas, ls cabalhos, ls cochinos, ls perros, ls gatos, ls lhiones, ls tigres, ls alifantes, ls ratos, ls lhiebres, ls coneilhos – buono,todos, todos...

Bai adespuis de ls haber criado, fizo-los todos por an pie del i iba-le ponendo a cada un sou nome:

- Tu sós baca, tu sós bui, tu sós oubeilha, tu sós carneiro, tu sós cordeirico – dixo pa l rapazico de l’oubeilha – tu sós lhion, tu sós cabalho, tu sós jumento, dixo pa l burro, i tu sós gato, i tu coneilho i tu cabra i tu chibo, i fui assi ponendo a todos l sou nome, até que s’acabórun.

Bai anton l jumento, çqueciu-se-le l sou nome. Inda ls outros animales nun habien acabado de recebir ls sous nomes i yá l jumento staba a apertar culs outros para que l deixássen achegar-se a Nuosso Senhor para saber cumo se chamaba.

Quando anton s’achega a Nuosso Senhor, cun cara de asno a perguntá-le:

- Oh meu debino Mestre, eu cumo me chamo que já se me esqueceu?

Bai Nuosso Senhor anton puxou-le pulas oureilhas, até que quedou culas oureilhas grandes i dixo-le assi:

- Tu és burro! ... que já não te lembras do teu nome! ...

I apuis l burro quedou-se a chamar burro i siempre culas oureilhas grandes.

Apesar do castigo de Deus pelo nome e pelas orelhas grandes, parece que o burro ainda ficou com esperteza suficiente para enganar seres tão espertos como o diabo. Essa é uma história que também visa mostrar às pessoas que se um burro enganou o diabo também elas serão capazes de tal feito, encerrando uma lição de confiança para vencer o mal e a sua personificação máxima, o diabo. A história é a seguinte[3]:

Ua beç ua burra tubo un burrico. Apuis, deili a trés dies que naciu, iba yá cun sue mai pa l cerrado. Apuis, andaba a saltos i a brincos no cerrado, pulhí. Apuis, passou eili l diabro i biu l burrico a dar saltos i brincos tan altos cumo la burra sue mai. I diç l diabro alhá para cun el todo admirado:

- Ai!, aquel burrico inda naciu há trés dies i yá salta tanto! ... Quando chigar a tener binte anhos, aposque dá saltos tan altos cumo l campanairo!?... Bou-me a lhebá-lo para casa.

Apuis l diabro lhibou l burrico pa sue casa i dou-le muito a comer i tratou-lo mui bien. Siempre mui bien. Quando chigou als binte anhos, yá l burro era bielho. Botou-lo fuora de l palheiro i l burro quaije nun se mexie. Pus yá era bielho! I diç anton l diabro pa l burro:

- Ora tu si que m’amoleste!

Ye la purmeira beç que l diabro, que se cuida tan spierto, se deixa anganhar dun burro.

Em conclusão, o burro é uma criatura de Deus, como todos os outros animais. Foi criado com funções específicas, pois Quien ten burra i anda a pie, mais burra ye. Daí que tudo fique mais no seu lugar se essa tiver sido a vontade de Deus que, diante da burrice e teimosia do animal, perdeu a paciência e teve de lhe puxar as orelhas. Porém, aquele mito fundador ensina-nos que há alguém mais estúpido que o burro, tão estúpido que trocou o céu pelo inferno, e esse alguém é o diabo e ensina-nos também que a vitória dos mais fracos sobre os mais fortes é um dado.

Também o homem muitas vezes perde a paciência com o burro e, sobretudo, com a sua vida. Nesses casos, o burro apenas cometeu o ‘crime’ de ser o companheiro que está mais perto e que, ensinou-lho a experiência, não há perigo de se colocar contra ele. É toda esta relação de grande complexidade e não linear, como pode parecer à primeira vista, que é espressa pelos ditos dezideiros mirandeses.

 

Amadeu Ferreira

 

 

 

Anexo

 

Ditos dizeiros mirandeses onde aparece a palavra burro ou um sinónimo

 

01. A burro dado nun se mira al diente.

02. A pensar morriu-se un burro.

03. Adonde hai un burro muorto nun fáltan cuorbos.

04. Bozes de burro nun chégan al cielo.

05. Burro bielho nun toma andadura.

06. Burro bielho pouca berdura.

07. Burro grande, nin que nun ande.

08. Cada burro cun sue teima.

09. Caim matou Abel cun ua carrelheira dun burro.

10. Carga feita, zancarrega tou polhino.

11. Cheirou-le cumo cuorbos a burro muorto.

12. Debagar se baia l loinge, mais burro (bien boubo) ye quien se mata.

13. Apuis de l burro albardado qualquiera un l monta.

14. Fazer las cousas an riba de la burra.

15. Ir de cabalho para burro.

16. L burro an casa faç falta, mas naide le quier dar de comer.

17. L burro que mais trabalha nun ye l que melhor albarda trai.

18. L que ampreinha la mulhier an Outrubre bai pa la segada cul burro.

19. La sprança era berde, staba an riba dun cardo (carro), bieno un burro i comiu-la.

20. Mais bal pequeinho i duro que grande i burro.

21. Márcio nun quier l rabo de l burro molhado, mas se fazir falta, oureilhas i todo.

22. Naide puxa l rabo de l burro cumo l duonho.

23. Naide puxa melhor l rabo de l burro que l própio amo.

24. Nun hai naide melhor que l amo para falar de l sou burro.

25. Para adonde bai l burro, que baia l’albarda.

26. Para adonde bai l burro, que baia l’albarda i para adonde bai l’albarda, que baia Jesé.

27. Por bias de l burro, palos na albarda.

28. Quando l burro mudar l diente, yá puode ir al prémio.

29. Quando nace ua silba hai lhougo un burro pa la rober.

30. Quando un burro fala, ls outros scúitan.

31. Quando un burro meija, a todos le dá ambeija.

32. Quanto más grande, maior burro.

33. Quien burros agabou, nunca cun bacas lhabrou (arou).

34. Quien fai bersos sin querer, ye burro a baler.

35. Quien parte i reparte, i nun queda cun la melhor parte, ou el ye burro, ou nun ten arte.

36. Quien tem burra i anda a pie, mais burra ye.

37. Ser probe nun ye defeito, mas ser probe i burro ye l pior defeito que puode haber.

38. Tengo ua gana cumo un cigano de furtar un burro.

39. Tu que antendes, mira a ber se la mie burra stá salida.

40. Ye cumo l burro de Juan Brás, an beç de ir al palantre, bai al para trás.

 


 

[1] Vd., quanto a esse e outros aspectos, tomando como referência a galinha, o trabalho de Ana Paula Guimarães, Cuidar da Criação. Galinhas, galos, frangos e pintos na tradição popular portuguesa, ed. Apenas Livros, Lda, Lisboa, 2002.

[2] António Maria Mourinho, Terra de Miranda. Coisas e Factos da Nossa Vida e da Nossa Alma Popular, Miranda do Douro, 1991, p. 297.

[3] António Maria Mourinho, ob. cit., pp. 297-298.

puosto por fracisco n. às 01:25
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Introdução aos ditos dezideiros mirandeses (2)

[estudo inédito]

 

 

“L perro de l’hourtelana” como (anti)modelo de conduta

 

A expressão mirandesa l perro de l’hourtelana tem a sua origem e retira o seu significado de um provérbio mirandês cujas origens remontam, pelo menos, à Idade Média. Daí passou para outras expressões do dia a dia, o que mostra bem a força e expressividade daquele provérbio para caracterizar o comportamento de determinadas pessoas. Como quase sempre acontece, o perro do nosso provérbio nada mais é que uma outra forma de dizer pessoa.

 

Registámos duas variantes mirandesas para o dito: L perro de l’hourtelana, só (solo) faç l que le dá la gana; L perro de l’hourtelana, nin come nin deixa comer. Esta segunda versão apenas a ouvimos uma vez, enquanto a primeira é de uso quotidiano. Por essa razão e devido à maior proximidade da segunda versão em relação ao dito espanhol que referimos a seguir, concentraremos a presente análise apenas na primeira daquelas versões. Também está muito viva a expressão, Ye (sós) cumo l perro de l’hourtelana, usada com o objectivo de repreender alguém que se faz esquisito ou que não sabe o que quer. Tem igualmente muita força uma outra expressão aplicada a alguém que está numa situação de fragilidade, de pé atrás ou de irritabilidade, que o torna susceptível perante palavras ou factos que não deviam dar azo a tal: Star mais melindroso que l perro de l’hourtelana. Assim, o provérbio original permitiu enriquecer a linguagem com expressões que o têm como referência[1].

Em todas as colecções castelhanas de provérbios, desde a Idade Média, aparece um dito semelhante com as seguintes variantes: El perro del ortelano: ni come las verças ni las dexa comer[2]; El perro del ortelano, ni come las verças ni las dexa comer al extraño[3]. Já noutro local escrevi sobre este dito[4], tomando como referência a peça de teatro de Lope de Vega “El Perro del Hortelano”, onde se faz alusão ao provérbio nos seguintes versos: 2193-2194: “Mas vénele bien el cuento/ del Perro del Hortelano” (2º acto); 2200: “pues coma o deje comer” (2º acto); 2297-2299: “es del hortelano el perro:/ ni come ni comer deja, /ni está fuera ni está dentro.” (2º acto); 3070-3073: “Diana ha venido a ser/ el perro del hortelano./ Tarde le toma la mano./ O coma o deje comer.” (3º acto)[5]. O facto de Lope de Vega tomar o dito para título da sua peça de teatro e a quantidade de variantes que aí deixa documentadas, mostra que seria um dito muito popular e conhecido em ambientes urbanos, mas também a sua plasticidade expressiva pois o dito acaba por se desdobrar em sentidos que não são totalmente coincidentes. Em qualquer caso, há uma ideia central que perpassa em quase todas as variantes: o cão nem come nem deixa comer. Aplicada a ideia a pessoas, estamos a falar de alguém que não faz nem deixa fazer.

 

Em colecções portuguesas de provérbios, apenas encontramos a seguinte versão: O perro do hortelão nem come as versas nem as deixa comer.[6] A grafia, atendendo ao uso das palavras “perro” e “versas”, parece não deixar dúvidas quanto à sua importação de Espanha, sendo também sintomático que não conste das colecções mais antigas de provérbios portugueses[7]. Resta saber se ainda está vivo em algum lado e, em caso afirmativo, se é utilizado com regularidade, conclusão que não pode ser retirada de colecções publicadas que são mera cópia de colecções anteriores e não de uma recolha que ateste o seu uso[8]. Em qualquer caso parece poder concluir-se, com alguma segurança, que o dito mirandês nada tem a ver com este que aparece em colecções portuguesas, não sendo de procurar aí a sua eventual origem. Afastamos, portanto, qualquer possibilidade de proveniência portuguesa do dito mirandês.

As várias versões recolhidas em mirandês e o facto de ser usado com muita frequência na linguagem quotidiana pode mostrar que o provérbio há muito tempo foi adoptado pela língua mirandesa. Repare-se que os atributos do cão nem sempre são os mesmos: ser melindroso não é o mesmo que fazer l que le dá la gana. A mesma ambiguidade parece ressaltar das várias variantes castelhanas, cujo número documenta a sua riqueza e uso frequente[9].

 

Ressalta do dito mirandês, desde logo, a ideia de imprevisibilidade do comportamento (faç l que le dá la gana), que o afasta do que é considerado normal, expectável[10]. Mas aquela impresibilidade envolve um carácter caprichoso, não orientado por uma racionalidade. Quem assim age não é, portanto, pessoa de confiança, não tem carácter. Do dito espanhol ressalta sobretudo a ideia de comportamento absurdo: o cão não come as couves, o que é normal dado que os cães não comem couves; mas já não se aceita que não as deixe comer a quem as pode comer[11]. Porém, esse comportamento absurdo que ressalta da versão espanhola, parece ter uma explicação: o cão está de guarda à horta das couves e age no cumprimento do seu dever de cão de guarda. O absurdo resulta de ele encarar a sua tarefa de tal modo que não recua perante quaisquer consequências, inclusive não deixar comer as couves ao dono, como referem algumas variantes. Devemos concluir que o sentido profundo do provérbio mirandês e o do espanhol, nas suas variantes mais antigas, são muito diferentes: naquele a imprevisibilidade do comportamento, neste a certeza;  naquele o capricho, neste o cumprimento cego de um dever; naquele uma atitude de falta de rigor, neste um rigorismo conservador que impede qualquer modificação; naquele um exercício incontrolado da liberdade, neste uma servidão cega; naquele a ausência de convicções, neste a teimosia em convicções erradas e nefastas. Em ambos os casos a mesma falta de racionalidade e a reprovação do comportamento do cão.

 

Uma importante diferença entre o dito mirandês e o espanhol tem a ver com o dono do cão: no caso espanhol é o ortolano, em todas as variantes; no caso mirandés é a hourtelana, mulher do hortelão[12]. Á primeira vista, a diferença de género parece resultar apenas de necessidades de rima, evidentes no dito mirandês e ausentes no espanhol. Não será, também, de afastar a ideia de uma certa falta de disciplina e menor rigor que popularmente é atribuído à maneira de ser do género feminino, pois deixa o cão fazer o quer, embora esta conotação não ressalte do uso do provérbio. Porém, creio que estará subliminarmente presente sobretudo a ideia de imprevisibilidade do comportamento da mulher que, tal como o cão do provérbio, seria volúvel, caprichosa, irracional ou, dito de outro modo, livre. Assim, o comportamento do cão seria moldado pelo comportamento da dona, não se devendo ao cumprimento de um dever (por exemplo o de guardar a horta, como no dito espanhol). Mas, afinal, o que é visto de modo tão negativo, não deixa de esconder uma certa inveja em relação a alguém que faz o que quer, isto é, decide de acordo com o que lhe dá prazer em cada situação. Quem é que, de acordo com a ideologia camponesa, pode fazer o que lhe apetece? Apenas os ricos que, não tendo necessidade de trabalhar para sobreviver, não estão sujeitos à escravatura da horta, do trabalho[13]. Então, a mulher acaba por ter um comportamento de rico, isto é, aquele a quem o camponês quer ser igual.

 

Embora não tenhamos documentação que o fundamente, não é de excluir que dois provérbios antitéticos pudessem ter existido numa fase inicial: um deles referido ao cão do hortelão, que terá ficado nas versões espanholas, e outro referido ao cão da hortelã, que terá ficado na versão mirandesa[14]. A sua formulação poderia aparecer apresentada em simultâneo, como exemplo de comportamentos antitéticos e condenáveis, acabando por se autonomizar mais tarde. O hortelão e a hortelã, exemplo de gente pobre e inculta, seriam tomados como exemplo de comportamentos igualmente condenáveis, embora por razões diferentes. O hortelão, agarrado à terra, não vê mais mundo que as suas couves, escravo do seu trabalho, enquanto a mulher faz o que lhe apetece, isto é, não tem quaisquer preocupações com os bens materiais, podendo fazer o que bem quiser, só pelo simples prazer de o fazer, independentemente das consequências. E por aqui perpassa toda a ambiguidade do provérbio, que diz e desdiz, elogia o que condena e condena o que elogia. Esta leitura do provérbio só não será possível se o interpretarmos apenas á luz de um moralismo linear, que uma sociedade rural como a mirandesa não consente, menos apegada a um moralismo imposto e mais consciente de que o trabalho não se impõe como um dever, mas apenas como uma necessidade.

 

Há ainda uma outra diferença essencial que devemos assinalar entre as versões espanholas e a mirandesa: enquanto aquelas tomam uma referência concreta (as couves), esta é mais genérica, aproximando-se de uma verdadeira sentença. Também aqui a autonomia da versão mirandesa é total em relação ao homólogo provérbio espanhol.

 

Dos elementos apontados na nossa análise, podemos concluir pela autonomia do dito mirandês em relação ao dito espanhol. Ainda que a sua origem possa estar relacionada, ambos os ditos expressam visões da vida antitéticas, de uma complexidade que não se deixa captar numa leitura superficial. E tudo isto, apesar da transparência do provérbio mirandês, obnubilada pelo juízo moral que lhe subjaz, embora o que dele ressalte seja um determinado comportamento que se valoriza, mas não numa hortelã, pessoa pobre e tida por inculta, que deve comer o pão com o suor do seu rosto. Mas há algo que troca as voltas a esse sentido: a hortelã é uma mulher e, enquanto tal, é-lhe reconhecido um comportamento e uma capacidade que desdizem a letra superficial do provérbio e apontam para uma sociedade machista que detrás de um juízo negativo sobre a mulher proclama o seu poder e acaba por aparecer como uma condenação-valorização da liberdade. Como refere Ana Paula Guimarães, também a propósito da cantiga mirandesa “Ró-Ró”, “O óbvio pode esconder segredos. E o primeiro deles é ser capaz de dar pela transparência... Porque o mais difícil de ver é o que salta à vista...”[15].

 

Atenta a análise feita, podemos concluir que o provérbio apresentado terá tido origem na Terra de Miranda? Não me parece, pois a profissão de hortelão não é ou foi característica do modo e organização da produção tal como a conhecemos na Idade Média para a Terra de Miranda, mas mais adequada à de um serviçal de um nobre ou de um convento medievais. No mesmo sentido parece ir o uso do provérbio por Lope de Vega, numa peça destinada a um ambiente urbano. Além disso, a segunda variante do dito mirandês, L perro de l’hourtelana nin come nin deixa comer, aproxima-se muito da versão registada pelo Marquês de Santillana, facto que poderá não ser alheio à sua origem. Assim, parece mais adequado concluir que o provérbio terá sido trazido de Espanha para a Terra de Miranda, seguramente há muito tempo, pois se afastou de uma eventual versão original, ganhando contornos, sentido e características próprias, ao ponto de hoje se pode dizer que é um dito genuinamente mirandês, sem correspondência formal (que não de sentido) noutras línguas. Apesar disso, não podemos deixar de salientar a troca cultural entre as terras de Miranda e de Espanha, neste caso sem qualquer interferência de variantes portuguesas do provérbio, ao contrário do que verificamos com o dito analisado em artigo anterior, «Çamora nun se fizo nua hora».

 

Amadeu Ferreira

2005

 



[1] Todas as versões do provérbio apresentadas, bem como as expressões dele derivadas, foram recolhidas em Sendim, conhecendo-as eu próprio desde há 50 anos. Não encontrei nenhuma referência a este provérbio em qualquer das colecções de ditos mirandeses, referidas no artigo anterior. Por enquanto, desconheço se o dito ou alguma variante é usado em qualquer outra localidade da Terra de Miranda.

[2] Marqués de SANTILLANA, (1508), “Refranes que dicen las viejas tras el fuego”, in Obras Completas, ed. Biblioteca Castro – Fundación José Antonio de Castro, Madrid, 2002, p. 531.

[3] HERNÁN NÚÑEZ, (1555), Refranes o Proverbios en Romance, edición crítica de Louis Combet, Julia Sevilla Muñoz, Germán Conde Tarrío y Josep Guia i Marín, Tomos I i II, Guillermo Blázquez, editor, Madrid, 2001 vol. I, p. 84. Existem, ainda as seguintes variantes, que retirámos de ORTIZ URBIA e SEVILLA MUÑOZ (2002) Los 494 refranes del SENILOQUIUM, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid, p. 46, onde se dão indicações quanto às colecções onde aparece cada variante: El perro del ortelano, que ni come las berças ni las dexa comer al extraño; El perro del ortelano, que ni come las berças ni las dexa comer al amo; El perro del hortelano, ni come él ni deja comer al amo; El perro del hortelano, ni comerlo ni darlo; El perro del ortelano, que ni las berças come, ni quiere que otro las tome; El perro del ortelano, que ni quiere las berças para si ni para el amo; El perro del ortelano, que ni quiere las maçanas para si ni para el amo; El perro del ortelano, que no come las berças ni quiere que otro coma de ellas; El perro del ortelano, que ni roe el hueso, ni lo deja roer al extraño; No seas como el perro del hortelano; El perro del hortelano, ni hambriento ni harto; El perro del hortelano, ni hambriento ni harto no deja de ladrar; El perro del hortelano ladra a los de fuera y muerde a los de dentro; Andan como bestias de ortolano.

[4] Vd. Amadeu Ferreira “L perro de l’hourtelana”, in www.diariodetrasosmontes.com 17/04/2003.

[5] Edição utilizada: Lope de Vega, El Perro del Hortelano. El Castigo sin Venganza. edición de A. David Kossof, Clásicos Castalia, Madrid, 1993.

[6] António MORREIRA (1997), Provérbios Portugueses, 3ª ed., Editorial Notícias, Lisboa, p. 201; José Pedro MACHADO (1998) O Grande Livro dos Provérbios, 2ª ed., Editorial Notícias, Lisboa, p. 390.

[7] Apesar de a palavra “verças” nos aparecer em textos do português antigo, como na Comédia Eufrósina de Jorge Ferreira de Vasconcelos (vd. a edição adaptada por Silvina Pereira e Rosário Laureano Santos,  Edições Colibri, Lisboa, 1998, p. 73), e em Gil Vicente (Vd. As Obras de Gil Vicente, vol. V, direcção científica de José Camões, ed. Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2002, p. 509). O mesmo poderá ser dito a propósito da palavra “perro”, que hoje os dicionários registam sobretudo com sentido figurado (Vd., por ex. Cândido de Figueiredo, Grande Dicionário da Língua Portuguesa). Em qualquer caso, a menos adequada metodologia seguida na elaboração da maioria das colecções portuguesas de provérbios não permite uma conclusão. Para uma crítica a essas metodologias, vd. FUNK, Gabriela e FUNK, Matthias (2002) Pérolas da Sabedoria Popular Portuguesa.Provérbios das Ilhas do Grupo Central dos Açores (Faial, Graciosa, Pico, São Jorge e Terceira), ed. Salamandra, Lisboa, p. 12.

[8] Das recolhas, por nós conhecidas, que atestam, de alguma forma, o uso dos provérbios, não consta nenhum sequer semelhante ao que estamos a analisar. Vd., FUNK e FUNK, cit.; José Ruivinho BRAZÃO (1998), Os provérbios estão vivos no Algarve, editorial Notícias; DIAS, Jorge (1984), Rio de Honor. Comunitarismo Agro-Pastoril, 3ª edição, Editorial Presença, Lisboa,. pp. 291-295; FERNANDES, Maria Celina Busto (2001), Ecos do Passado, Vozes do Presente. Literatura Oral e Tradicional dos Concelhos de Vinhais e Chaves, ed. Sons da Terra, pp. 61-65; FERREIRA, Joaquim Alves (1999), Literatura Popular de Trás-os-Mpntes e Alto Douro, volume IV – Miscelânea, ed. autor, Vila Real; FONTES, António Lourenço (1992), Etnografia Transmontana. Vol. I Crenças e Tradições de Barroso, Editorial Bomingos Barreira, Lisboa, pp. 199-218; MELO, Leonor Jesus Marcos de (2002), Os Textos Tradicionais na Aula de Português: os Provérbios, ed. Almedina, Coimbra.

[9] María JOSEFA CANELLADA e BERTA PALLARES (2001), Refranero Español. Refranes, classificación, significación y uso, Editorial Castalia, Madrid, (301) interpreta assim a versão de Santillana: “Hay quien presenta oposición a todo lo que sea progreso, y no deja medrar a los demás”.

[10] Deixo aqui uma lista, incompleta, de outros ditos mirandeses que tomam o cão como animal de referência: Andar a la corrida de l perro; Andar cun perros muortos a (la) caça; Esse fai cumo l perro de tiu Pelilhos: quando bai atrás de las lhiebres, adelantra-se; Gatos i perros solo quieren galula; L perro i l nino ban para adonde le dan carino; Nun te fies an perro que nun lhadra nin na home que nun fala; Chobiu tanto que anté ls perros buírun de pies (culo); Perro de muitas bodas, por bias de uas perde las todas; Perro pula puorta, pedrada nel; Perro que lhadra nun muorde; Quando passar a la mie puorta, buona pedrada bai a lhebar l tou perro; Se chobir nas témporas de San Mateus, lhabra cun gatos i perros teus; Son cumo l perro i l gato; Andar (tener) cun  fame de perro. I inda: lhadrar bien se lhadra, la porra ye zlhadrar. Não se trata aqui de analisar a imagem do cão nos provérbios mirandeses, mas a uma primeira vista parece ser bastante negativa ou, pelo menos, parece ser considerar-se como muito má a condição do cão, o que contrasta com a forma como são usados outros animais.

[11] Note-se que esta explicação já não será válida para algumas das variantes apresentadas na nota 2, como as que se referem ao osso ou que tomam como referência o ‘ladrar’, variantes que são tardias e desenvolvimento das originais.

[12] A palavra mirandesa hourtelana tanto é o nome da planta em português chamada hortelã, como é o feminino de hourtelano, homem que trata duma horta.

[13] Não podemos deixar de aqui referir Gil Vicente, que tão bem retrata o comportamento do velho rico que fica a tomar conta da sua horta na ausência do hortelão e que tudo se permite, inclusive o dissipar toda a sua fortuna, por amores serôdios não correspondidos. Vd. “O Velho da Horta”, in Obras de Gil Vicente, vol. II, cit., pp. 205-228.

[14] Apesar de não poder fundamentar a análise do texto, pode funcionar como um indício o facto de Lope de Vega, na citada peça de teatro referir “es del hortelano el perro”, o que parece apontar para a preocupação de o distinguir de um outro perro, já não do hortelão. Note-se que a imagem mirandesa do cão é bastante negativa (vd. nota 10), ao contrário da de outros animais, sendo usado como cão de guarda de rebanhos e como caçador, pouco mais.

[15] Ana Paula Guimarães, Cuidar da Criação. Galinhas, galos,  frangos e pintos na tradição popular portuguesa, ed. Apenas Livros, lda, Lisboa, Lisboa, p. 28.

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Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

Introdução aos Ditos Dezideiros mirandeses (1)

 [Estudo publicado na revista Amigos de Bragança, junho de 2004]

 


 

1. Questões de terminologia e âmbito

 

Com este pretendemos iniciar uma série de artigos sobre os provérbios mirandeses, em língua mirandesa conhecidos por ditos dezideiros ou apenas ditos ou ainda, embora menos, adaiges. Para quem estuda uma realidade convém deixar claro, desde o início, o sentido dos termos utilizados. Pela nossa parte utilizaremos a expressão ditos dezideiros ou apenas ditos no seu sentido mais amplo, de acordo com o uso oral pelos mirandeses. Uma vez que escrevemos em português, tomaremos como sinónima a palavra portuguesa provérbio, também aqui usada em sentido amplo[1].

 

Como “ditos dezideiros mirandeses” ou “provérbios mirandeses” consideramos todos aqueles que são usados pelos mirandeses, sejam eles ditos em língua mirandesa, em português[2] ou em castelhano[3]. Afastamos, assim, a ideia de considerar apenas como mirandeses os provérbios que não são usados em mais lado nenhum ou os que são exclusivamente ditos em língua mirandesa. Os provérbios atravessam os tempos e as fronteiras, as línguas e as sociedades, sendo em número muito pequeno aqueles que se podem considerar apenas de uma dada região ou país, sendo igualmente muito difícil saber exactamente onde e quando tiveram origem. O mesmo se passa com os provérbios mirandeses.

 

A esmagadora maioria dos provérbios mirandeses são em língua mirandesa, mas devem também ser considerados os ditos usados apenas ou principalmente em português ou em castelhano, ainda hoje. O uso dos provérbios noutra língua que não a mirandesa, mesmo pelos falantes de mirandês e quando estão a falar essa língua, é extremamente significativo quanto a vários aspectos, nomeadamente à sua origem, e por ajudar a perceber aspectos importantes da cultura mirandesa. É, pois, errado, efectuar a sua tradução para mirandês para os apresentar a público, embora não deva haver uma postura rígida, dada a tendência de algumas pessoas a dizer tudo na língua em que em cada momento estão a falar. Este facto adquire ainda importância porque os mirandeses são bilingues, falantes de mirandês e de português e, muitos deles, embora cada vez menos, são ainda falantes de castelhano. Apesar de o uso do português ser intenso, verificamos que é diminuto o número de provérbios usados nessa língua, mesmo nos casos em que existe um correspondente em português. Este facto atesta, claramente, que os provérbios são usados pelas pessoas em situações de uso normal do mirandês, isto é, familiar e de relacionamento intra-comunitário, seja familiar, laboral ou outro. O mesmo não acontece com outras manifestações, como as orações[4].

 

 

2. Colecções de provérbios mirandeses já publicadas

 

Os ditos dezideiros representam um continente dentro do universo da cultura mirandesa. No entanto, têm sido objecto de diminuta atenção, pois as recolhas publicadas são ainda muito incipientes e o seu estudo está integralmente por fazer. Não foi, até agora, publicada qualquer colecção que deva considerar-se representativa dos provérbios mirandeses. Chegou a ser anunciada a publicação de uma muito extensa colecção recolhida por António Maria Mourinho, o que até agora ainda se não verificou, com prejuízo para a cultura mirandesa, apenas estando disponível uma publicação limitada feita pela Câmara Municipal de Miranda do Douro[5].

 

É J. Leite de Vasconcellos quem publica pela primeira vez alguns provérbios mirandeses. Para lá de referências dispersas pela sua obra, publica duas pequenas colecções: a primeira, em número de 8, em Dialecto Mirandez, 1882, pp. 33-34; a segunda, em número de 32, em Estudos de Philologia Mirandesa, II, 1900, pp. 41 e 331-334.

 

António Maria Mourinho, além da recolha acima referida, publica uma quantidade apreciável de provérbios dispersos por várias obras, mas apenas no Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas, 1º volume, 1984, publica de forma organizada cerca de setenta provérbios relacionados com o ciclo do ano, a que chama “Poesia popular agiológica e temporal ao correr do ano” (pp. 31-43).

 

Domingos Raposo, no estudo “Lhéngua Mirandesa – Muôlo de Cultura Biba”, em Entre Duas Margens – Douro Internacional, 1998, p. 69, publica um conjunto de 10 provérbios como exemplo, entre outros, da cultura mirandesa.

José Francisco Fernandes em Mirandês e Sendinês, Dois Falares, 2003, pp. 61 ss. publica à volta de uma vintena de provérbios que recolheu em Sendim.

 

Duarte Martins, na sua recente obra Bozes de l Praino. Recuolha de Testos an Lhiteratura Oural Mirandesa, Edições do Nordeste, 2004, pp. 71-110, publica um total de 237 “Senténcias, adaiges, ditos dezideiros i outros refranes”, recolhidos por ele próprio na aldeia de Malhadas.

 

Finalmente, a maior colecção de provérbios mirandeses até agora publicados tem vindo a lume no Jornal Nordeste, na página “Miranda: tierra, giente i lhéngua”. Aí foram publicados, desde o início de 2003 até agora, cerca de 500 “ditos mirandeses”, na sua maioria recolhidos por Carlos Ferreira e por mim próprio (Sendim), mas também por Bina Cangueiro e José Vitorino (Águas Vivas), Duarte Martins (Malhadas) e Alcina Pires (Genísio). A publicação irá continuar, fazendo-se referência ao autor da recolha e, sempre que possível, ao local de recolha.

 

Esta última colecção e a de Duarte Martins têm uma característica importante: são recolhas muito recentes, já efectuadas depois do ano 2000 e atestam o seu uso actual, facto que se reveste de grande importância, a que acresce o facto de ser referido o local de recolha[6]. Considerando todas as publicações até agora efectuadas[7], fácil se torna concluir que foram dados a lume menos de um milhar de provérbios mirandeses, o que é manifestamente pouco, quer tendo em conta o número de mais de quatro mil que constam da obra inédita de António Maria Mourinho, acima referida, quer tendo em conta o número de provérbios até agora recolhidos por mim e por Carlos Ferreira, que andarão à volta de dois milhares[8]. Tal permite-nos concluir que as publicações feitas ainda não são significativas do universo de ditos dezideiros mirandeses.

 

A publicação de recolhas de ditos dezideiros é muito importante, nomeadamente quando feita com rigor e tendo presente o carácter vivo dos provérbios. Essas recolhas devem abarcar, progressivamente, toda a Terra de Miranda para serem devidamente representativas. É também muito importante a recolha das diversas variantes de cada provérbio. Há-de chegar a altura em que as recolhas feitas devem ser testadas, quer quanto ao grau de vitalidade dos provérbios quer quanto ao contexto em que são usados, entre outros aspectos.

 

 

3. Os provérbios mirandeses devem ser objecto de estudo

 

Os provérbios têm vindo a ser cada vez mais objecto de estudo, mesmo ao nível das universidades[9]. A bibliografia disponível é já muito numerosa e não pode deixar de ser tida em conta no estudos dos provérbios mirandeses. Devemos resistir a quedar-nos por meia dúzia de declarações sobre a sabedoria popular que, muitas vezes, nem é popular, mas sim de fonte erudita, embora tenha sido adoptada pelo povo. Também não devemos embarcar na consideração superficial de que os provérbios em uso numa determinada região são específicos dessa região, ignorando que têm vida em muitas regiões, não só do país, como do estrangeiro, em particular da Espanha, com que as pessoas da Terra de Miranda sempre mantiveram intensos contactos, o que deu lugar a uma intensa troca cultural. Como veremos, as coincidências impressionam.

 

Um primeiro estudo a fazer deve levar-nos à comparação entre os provérbios em uso na Terra de Miranda e os que são publicados noutras colecções portuguesas[10] e espanholas[11], nomeadamente as mais antigas. Tal comparação, só por si, não irá permitir datar o uso de cada um dos provérbios na Terra de Miranda, mas permitir-nos-à ter uma ideia das trocas culturais que neste domínio se deram entre esta e outras regiões, facto a que até agora não foi dada a devida importância e que o estudo dos provérbios ajudará a reforçar. Permitir-nos-à também estudar melhor as variantes adoptadas e as próprias mudanças de sentido que em cada provérbio se verificaram.

 

Também é nossa intenção ir isolando ditos dezideiros, ou variantes, que apenas se encontram na Terra de Miranda e não constam de qualquer das colecções até agora publicadas. É óbvio que este é um trabalho imenso, que sempre deixará de fora da consulta alguma publicação a que não tivemos acesso e deve atender à possibilidade de nem todos os provérbios terem sido até agora recolhidos de modo exaustivo.

 

É ainda possível efectuar uma catalogação ordenada dos ditos dezideiros estudados, seguindo vários critérios relevantes, sejam eles de conteúdo, sejam de referência temporal ou outra.

 

A metodologia a seguir para atingir o nosso propósito será sempre discutível, mas privilegiaremos a abordagem de provérbios isolados ou de grupos de provérbios de algum modo relacionados, o que nos servirá de base para uma síntese posterior. Com efeito, parece-nos difícil fazer sínteses ou análises mais gerais sem ter descido à análise pormenorizada de cada provérbio e suas variantes ou de provérbios relacionados. É de acordo com esta metodologia que vamos continuar este estudo. Sempre que possível, apontaremos o contexto em que cada dito é usado e o sentido que lhe é atribuído pelas pessoas.

 

 

4. Çamora nun se fizo nua hora

 

Há um dito mirandês que se apresenta com duas formas, admitimos que outras existam: Çamora nun se fizo nua hora; Nun se fizo Çamora toda nua hora; Roma i Çamora nun se fazírun nua hora. Iniciamos o estudo por este dito, dada a sua antiguidade e as suas muitas variantes e equivalentes. O seu sentido é claro e não necessita de particulares explicações: tudo leva o seu tempo, não deve esperar-se que algo difícil se faça depressa, não sendo a impaciência boa conselheira[12]. Este provérbio já foi referido como podendo ser específico de Sendim o que, como veremos, não corresponde aos factos[13].

 

Há quem considere que este dito terá surgido após o longo cerco a Zamora levado a cabo pelo rei Sancho II de Castela no ano de 1072[14]. Após esse feito, ter-se-à espalhado por toda a Espanha. Aparece já em colecções de provérbios muito antigas como o Seniloquium (séc. XV), embora não conste da lista do Marquês de Santillana (1508), e repete-se em colecções posteriores, onde aparece nas seguintes formulações: En una hora no se toma Zamora; En una hora no se ganó Zamora; No se ganó Zamora en una hora; No se ganó Zamora en una hora, ni Roma se fundó luego toda; No se ganó Zamora en una hora, ni Sevilla en un día. Correm, ainda, os seguintes provérbios com o mesmo sentido: No se ganó Toledo en un credo; Toledo no se ganó en un credo ni Almería en una Avemaría; No se fundó Roma en una hora; No se hizo Sevilla en un solo dia.[15]

 

Nos refraneiros portugueses encontramos Não se ganhou Samora em uma hora. Mas também os seguintes, talvez mais frequentes: Roma e Pavia não se fizeram num dia; Roma não se fez numa hora; Não se fez Roma e Pavia num dia; Não se fez Roma em um dia[16]. Pela grafia Samora pode concluir-se que o dito já entrou há bastante tempo no refraneiro português, facto que também nos leva a questionar a sua vitalidade, não sabendo se será usado em algum lado. Ao contrário do mirandês, verifica-se que o dito português parece ser uma tradução directa de uma das formas castelhanas. Com efeito, o dito mirandês é o único a usar o verbo “fazer”, enquanto em castelhano e em português se usa o verbo “ganhar”. Tal leva-nos a pensar que o dito mirandês foi influenciado pelas variantes que se referem a Roma, e que a rima Çamora / hora terá também tido influência na persistência do provérbio. De registar o seu uso em Portugal, fora da Terra de Miranda e em toda a Espanha, não se circunscrevendo à região de Zamora. Porém, a formulação usada parece ser privativa da Terra de Miranda, reveladora de um cruzamento de influências de outras formulações portuguesas ou castelhanas. Esse cruzamento poderá ter incidido num primitivo provérbio, mais encostado às formulações castelhanas, que terá sofrido a influência da formulação portuguesa Roma não se fez numa hora. É este cruzamento de influências o que nos parece mais característico, pois está presente em muitas outras manifestações culturais populares mirandesas.

 

Amadeu Ferreira

2004

 

 



[1] Abordam o problema, nomeadamente distinguindo entre adágio, aforismo, anexim, apotegma, axioma, ditado, dito, dizer, exemplo, máxima, parémia, preceito, prolóquio, provérbio, refrão, rifão, sentença, etc., vários autores. Vd., por ex. e numa abordagem breve, mas remetendo para uma mais extensa bibliografia, Fernando de Castro Pires de LIMA (1963), Adagiário Português, Lisboa, pp. 49 ss.; José Ruivinho BRAZÃO, coord. (1998) Os provérbios estão vivos no Algarve, editorial Notícias, Lisboa, pp. 21-25; E. ORBANEJA y MAJADA (2000), El Saber del Pueblo, ed. CIE Inversiones Editoriales, Madrid, pp. 10-22; María Josefa Canellada, “Para una tipología del refran español”, in JOSEFA CANELLADA, María e BERTA PALLARES (2001), Refranero Español. Refranes, classificación, significación y uso, Editorial Castalia, Madrid, pp. 419 ss., Leonor Jesus Marcos de MELO (2002) Os Textos Tradicionais na Aula de Português: os Provérbios, Almedina, Coimbra, pp. 23 ss.

[2] Por ex., sempre ouvimos em português o dito “Nozes ó saco, elas o dirão”.

[3] Por ex., os ditos “Ferriada nó es caldera”; “Al picaro, al picaro y medio”.

[4] Vd. Amadeu FERREIRA (2003), “O Oracionário Mirandês: A Língua das Orações”, in Mensageiro de Bragança, 10 de Abril de 2003. Em sentido coincidente Duarte Manuel Mendes MARTINS (2004) Bozes de l Praino, Edições Nordeste, Lisboa (apersentaçon).

[5] Foi o próprio António Maria Mourinho que anunciou essa colecção em Curriculum Vitae (notas culturais), 1942-1995, Bragança, 1995, p. 50, intitulada “Provérbios e Refrãos Mirandeses - «Ditos dezideiros» - coligidos entre o povo mirandês”. Tenho comigo uma cópia dessa obra inédita, que apresenta o seguinte título: Refrãos e Provérbios Mirandeses - «Ditos Dezideiros» - Recolhidos e coligidos por ordem alfabética em Língua Mirandesa por: António Maria Mourinho (cópia iniciada em 1/10/1991). 05-04-95. O exemplar que possuo é encadernado, em formato A5, e pertence a uma edição limitada efectuada pela Câmara de Miranda do Douro, sendo Júlio Meirinhos Presidente da Câmara que amavelmente me ofereceu aquele exemplar, com o título “Ditos Dezideiros Mirandeses”. Os ditos dezideiros desse exemplar estão ordenados alfabeticamente e numerados do 1 ao 4289.  Tendo em conta esta edição, ainda que limitada, da Câmara de Miranda do Douro, a obra já não se pode considerar inédita, razão porque a usaremos neste estudo de modo devidamente referenciado, embora apenas nos casos em que o provérbio em causa não conste de outra colecção publicada.

[6] Como atestam alguns autores, há adagiários publicados que chegam a incluir “traduções de provérbios estrangeiros que nunca circularam na boca do povo” (Gabriela FUNK (2000) “Notícia sobre o Adagiário Açoriano Contemporâneo”, in Gabiela FUNK (dir.) Património Oral. A Voz Popular. Estudos de Etnolinguística, ed. Património, Cascais, p. 89.

[7] Não consideramos aqui os ditos dezideiros dispersos pelas obras dos vários autores mirandeses, inseridas nos próprios textos, e de que até agora ainda não foi feita uma recolha sistemática, embora seja nosso objectivo fazê-la no processo de estudo dos provérbios mirandeses a que estamos a proceder.

[8] Sabemos, por conversa com outros autores, da existência de outras recolhas de ditos dezideiros, aqui fazendo votos para que venham a ser publicadas tão breve quanto possível.

[9] Mencionamos a seguir alguns estudos realizados em Portugal, de que temos conhecimento. Como refere Arnaldo Saraiva, “Contam-se pelos dedos de uma só mão os estudos relevantes que nas últimas décadas se escreveram em Portugal sobre os provérbios” (in “Os provérbios no Algarve e em Portugal”, prefácio a José Ruivinho BRAZÃO, coord. (1998) Os provérbios estão vivos no Algarve, cit.). José MATTOSO (1987) O essencial sobre os provérbios medievais portugueses, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda; José MATTOSO (1987), “Sur les Proverbes Medievaux Portugais”, in Litterature Orale Traditionelle Populaire. Actes du Colloque, ed. Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel, Paris, pp. 533-560; Ana Cristina Macário LOPES (1992) Texto proverbial português – Elementos para uma análise semântica e pragmática, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; José Ruivinho BRAZÃO (1994) Estudo e formalização das propriedades léxico-sintácticas das expressões fixas proverbiais, dissertação de mestrado, Lisboa, Faculdade de Letras de Lisboa; Leonor Jesus Marcos de MELO (2002) Os Textos Tradicionais na Aula de Português: os Provérbios, Almedina, Coimbra. A estes juntamos, em língua castelhana: María JOSEFA CANELLADA e BERTA PALLARES (2001), Refranero Español. Refranes, classificación, significación y uso, Editorial Castalia, Madrid; e vários estudos específicos de Jesús Cantera ORTIZ DE URBINA e Julia SEVILLA MUÑOZ (2001a), El Calendario en el Refranero Español, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid; (2001b), El Calendario en el Refranero Francés, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid; (2002), Los 494 Refranes del “Seniloquium”, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid; (2003), Libro de Refranes y Sentencicias de Mosén Pedro Valdés, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid.

[10] A primeira colecção de provérbios portugueses foi publicada em 1551 pelo espanhol, professor na Universidade de Salamanca, Hernán Nuñez. Seguimos aqui a edição crítica de Louis Combet, Julia Sevilla Muñoz, Germán Conde Tarrío e Josep Guia i Marín, de HERNÁN NÚÑEZ, Refranes o Provérbios en Romance, tomos I e II, Guillermo Blázquez editor, Madrid, 2001. A primeira recolha feita em Portugal deve-se a António DELICADO (1651) Adágios portugueses, reduzidos a lugares comuns, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa. Às inúmeras colecções de que nos vamos servir faremos referência nos locais próprios.

[11] São de referir as do Marqués de SANTILLANA (1508), “Refranes que dicen las viejas tras el fuego”, in Obras Completas, ed. Biblioteca Castro – Fundación José Antonio de Castro, Madrid, 2002; do chamado Seniloquium, do século XV, in Jesús Cantera ORTIZ DE URBINA e Julia SEVILLA MUÑOZ (2002), Los 494 Refranes del “Seniloquium”, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid; de Pedro Valdés, do século XVI, in Jesús Cantera ORTIZ DE URBINA e Julia SEVILLA MUÑOZ (2003), Libro de Refranes y Sentencicias de Mosén Pedro Valdés, Guillermo Blázquez, Editor, Madrid; e de HERNÁN NÚÑEZ, já referido na nota anterior. Outras colecções mais recentes serão referidas à medida que a elas recorrermos.

[12] JOSEFA CANELLADA e BERTA PALLARES (2001, 343): “Refrán con que se significa que las cosas importantes y arduas necesitan tiempo para ejecutarse o lograrse”. O mesmo conclui o sapo que andou sete anos a subir um sulco e, no fim, acabou por não conseguir: “... cousas a la priessa nunca dan cierto”. Ver o conto de Antóno Bárbolo Alves, “Angarés”, in Cuntas de la Tierra de las Faias, Ed. Campo das Letras, 2000.

[13] Vd. José Francisco FERNANDES (2003), cit., p. 63 e nota 29.

[14] Vd. Concha VENTURA CRESPO e Flórian FERRERO FERRERO (1997) Leyendas Zamoranas, Editorial Semuret, Zamora, pp. 15-16.

[15] Referências retiradas de ORTIZ URBINA e SEVILLA MUÑOZ (2002, 45-46).

[16] António MOREIRA (1997) Provérbios Portugueses, Editorial Notícias, 3ª edição, pp. 177, 279; José Pedro MACHADO (1998), O Grande Livro dos Provérbios, Editorial Notícias, 2ª ed., pp. 339 e 543. Já em GIL VICENTE encontramos França e Roma nam se fez n’hum dia (vd. o auto “Breve Sumário da História de Deus”, versos 839-840, in As Obras de Gil Vicente,vol. I, direcção científica de José Camões, ed. Centro de Estudos de Teatro e Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002, p. 320).

 

 

 

puosto por fracisco n. às 15:23
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