Sábado, 9 de Abril de 2011

Ernesto Rodrigues: intervenção no lançamento de Ls Lusíadas em Miranda do Douro, dia 17 de Setembro de 2010, die de la Lhéngua Mirandesa

 

Agradeço o convite que o meu já velho amigo Amadeu Ferreira me endereçou, e peço desculpa pela ousadia de, em Terra de Miranda, no vigésimo quinto aniversário de despacho governamental (de 9 de Setembro de 1985) autorizando a disciplina de Mirandês na escola Preparatória da cidade, e sendo objecto desta conversa uma tradução de Fracisco Niebro, eu vir falar grabe ou fidalgo.

 

Perdoa-mo um friso de amizade, a perfazer 40 anos, em que sobressaem jovens mirandeses no então Liceu Nacional de Bragança. Conheci-os em 7 de Junho de 1971, quando se preparava jornal do Lar Calouste Gulbenkian, intitulado O Grupo, suspenso ao terceiro número, em Maio de 1972, por causa de uma reportagem minha. Eu era o único não-mirandês numa equipa formada por futuros juristas: Júlio Meirinhos (teria, depois, outras experiências jornalísticas), Artur Cordeiro, António Neto, António Ramos Preto e Alcides Rodrigues (com quem assinei, em 1974, um best-seller, Ilha da Madeira: Cemitério Particular); perdi o rasto ao administrador Armandino Marcos; e perdemos a companhia do director, que cimentava o grupo, e bom poeta, um apaixonado pela fotografia, autor da fotomontagem da capa no meu livro de estreia, em 1973, o meu chorado Domingos Neto. Em troca, reencontrei o artista da banda, o escultor José António Nobre, cuja exposição de Máçcaras prefaciei há dois anos. Com Amadeu Ferreira, e irmão Manuel Ferreira, conhecimentos anteriores, acabo de citar uma dezena de mirandeses, entre os quais nunca me senti perdido.

 

Contei aquele juvenil encontro em Pátria Breve (2001), miscelânea de homenagem ao Nordeste e ao Planalto Mirandês, onde transcrevo, do I volume fac-similado de Estudos de Philologia Mirandesa (1900), que a Câmara editara em 1992, as visitas decisivas de José Leite de Vasconcelos a estes lugares, em 1883 e 1884. Ao aproar, em cima de um burro, a Duas Igrejas, o Mestre invocou Vergílio: «hic domus, haec patria est… não a minha», avisou, «mas a do mirandês, que eu ia estudar». Esse não é o latim popular de que, via Leão do outro lado da fronteira, proveio esta língua, mas pátria é o lugar aonde se regressa – e, no caso do meu ilustre predecessor na Faculdade de Letras de Lisboa, pátria sua foi o Mirandês. Um dos seus discípulos e testamenteiros, Orlando Ribeiro, resumiu assim esse traço: «O Mirandês e as Tradições ilustram uma das principais facetas da vida científica de Leite de Vasconcelos – a extrema precocidade e a fidelidade, durante sessenta anos, às predilecções que constituem as suas principais linhas de pesquisa.» (Diário de Notícias, Lisboa, 7-II-1982) Estudante de Medicina no Porto, devia ir tão imbuído da sua paixão, que nem deu cavaco ao grande amigo Trindade Coelho, que o repreende, em Outubro de 1883: «Soube qe estiveste em Miranda do Douro. Patife! Era m.to longe d’ali a Mogad.ro?...»[1]

 

Ora, a história da língua vem sendo contada, e dinamizada, pelos hoje, aqui, justamente galardoados, na senda de estudos de António Maria Mourinho, que, no ano da morte de Leite de Vasconcelos (1941), é convidado por Álvaro Pinto a colaborar na Revista de Portugal com artigos sobre fonologia mirandesa, vinte anos antes do título-charneira Nossa Alma i Nossa Tierra (1961), cujo cinquentenário pede reedição. Conheci o padre Mourinho no lapso de 1971-1973, no Mensageiro de Bragança, onde colaborávamos, ele com etnologia destas terras, na peugada do Abade de Baçal. Sobre a história do idioma, entretanto, aí assinou, em 1986 – quando arranca, de vez, o ensino, autorizado por novo despacho –, balanços suficientes sobre “Alguns cultivadores da língua mirandesa» (26-IX-1986; desce às notas de viagem a Miranda do seiscentista Manuel Severim de Faria); corrobora Menéndez Pidal e o sueco Erik Ataaft (1913) nas abordagens ao dialecto leonês; e, sobretudo, homenageia (Mensageiro de Bragança, 3-X-1986) Leite de Vasconcelos e o seu labor desde 1882, quando se estreava nestas lides com O Dialecto Mirandês (que seria, no Mapa Dialectológico elaborado entre 1893 e 1897, co-dialecto, antes de o assumir língua, «idioma regular», no 1.º volume de De Terra em Terra, 1927).

Interessa-nos o segundo opúsculo, Flores Mirandesas (1884), com oitavas d’Os Lusíadas[2], e respectiva Proposição, saída em O Mirandês (1894), tudo acrescentado (incluindo excertos de teatro e de carta) no volume II (1901; reed., 1993), IV parte, intitulada “Camoniana mirandesa”, de Estudos de Philologia Mirandesa.

 

Quer o soneto “Alma minha gentil que te partiste”, quer as endechas de “Aquela cativa” são comentados em artigo de Justino Mendes de Almeida[3], que antevê o «destino fatal do Mirandês, sujeito a desaparecer como língua literária e de comunicação, mais tarde ou mais cedo» (p. 158). Tanto pessimismo corroborava artigos de Imprensa, mais apocalípticos do que esperançosos. Assim, para memória passada, veja-se o Diário de Notícias de 10-I-1977, que titulava: «A fala mirandesa em vias de extinção»; mas o Expresso de 18-X-1980 anunciava: «Miranda do Douro – o despertar de um sono de 200 anos». O mesmo Diário de Notícias, em 21-III-1982, punha na boca de António Mourinho: «Mirandês pode desaparecer nos próximos 50 anos»; mas, em 5-XII-1993, afirmava, num desfasamento conceptual entre antetítulo e título: «Ensino escolar garante preservação do dialecto // Miranda do Douro / tem língua própria». Exceptuo destas hesitações as campanhas do jornal Planalto Mirandês (1986) e a coluna de Amadeu Ferreira, “Cumo quien bai de camino”, no jornal Público, sem já falar na sua larga colaboração no semanário Nordeste, onde fez a mão para o seu opus camoniano. Lidas aquelas notícias tremendistas, não temos a sensação de que se venceu um pesadelo?

 

Recordo a precedência, pois, de Leite de Vasconcelos na tradução para Mirandês, também, do Camões épico, segundo descrição, algo desordenada, que desse labor fez Justino Mendes de Almeida: Proposição, ou seja, canto I, 1-3, «estâncias 106 do canto I, 83 do canto VI e 3 do canto VII, os episódios de ‘Egas Moniz’ (III, 35-41), 3 de ‘Inês de Castro’ (III, 118-136), da ‘Batalha de Aljubarrota’ (IV, 28-45), de ‘Fernão Veloso’ (V, 27-36), e ainda das estâncias 4 e 5 do canto I, 78-82 do canto VII, 127-128 do canto X, 83-87 do canto VII, 8 e 9 do canto X e 154-156 do mesmo canto» (p. 158). Saudemos, assim, iniciativa de ex-futuro médico, que, já nos seus tentames de jovem, era um poeta sofrível nas páginas literárias dos anos 70 do século XIX. E comparemos duas estâncias do canto III, 20-21, não registadas em Mendes de Almeida:

 

Eis aqui, quase cume da cabeça

De Europa toda, o reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa

E onde Febo repousa no Oceano,

Este quis o Céu justo que floreça

Nas armas contra o torpe Mauritano,

Deitando-o de si fora, e lá na ardente

África estar quieto o não consente.

 

Esta é a ditosa pátria minha amada,

À qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.

Esta foi Lusitânia, derivada

De Luso ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros,

E nela antam [então] os íncolas primeiros.

 

Leite de Vasconcelos deu um título – Pertual // (Camões – Lus. III, 20-21) –, dedicado


A Trindade Coelho


Bede-lo, quaije n’alto d’la cabeça

D’l’Ouropa toda l reino Lusitano,

Donde la tierra acaba i l mar ampeça

I donde Febo drume n’Ouceano.

L cielo quijo q’esta eiqui floreça

Nas armas contra l bruto Mouritano,

Botando-lo de si, i nien l deixando

Alhá, n’África, star la paç gozando.


Ye esta la mie pátria mui amada:

Se a eilha me lhebar l Cielo amigo,

Cun toda la mie obra yá acabada,

Apague-se esta lhuç ende cumigo!

Fui datrás Lusitánia, assi chamada

De Luso ou Lysa, que de l Baco antigo

Éran filhos, parece, ou cumpanheiros,

I antre ls sous habitantes ls purmeiros.

 

A tradução vem datada de Tierra de Miranda, 8 de Setembre de 1884.

 

Porque não estamos em aula de tradução, e, no meu prefácio, exarei considerações afins, fico-me por estes 16 versos para comparação, com que mais sobressai um bem dificultoso exercício, face a Mestre José Leite de Vasconcelos. A tradução dos 8 816 versos d’Os Lusíadas é, em Fracisco Niebro, a mais próxima da letra do original, mesmo se comparada com traduções em prosa. O díctico ‘Eis aqui’ = Eiqui stá, transforma-o Vasconcelos em ‘Bede-lo’: o que, além, é afirmativo, mesmo impositivo, depende de um acto volitivo, apesar de imperativo, ‘Vede-o’, aliás, comum no Poema, no que isso comporta de repetição aqui escusada. Em vez do nome ‘cume’, bem dado por ‘crona’, ‘coroa’, Vasconcelos prefere um lugar onde, ‘n’alto’, diluindo a força da nossa posição geográfica. Em ‘repousa’, ‘çcansa’ é bem diferente, para melhor, de ‘drume’. Infelizmente, ambos omitem ‘justo’, quando, desde Ourique (presente na derradeira estância do Poema), Portugal é uma criação desse ‘Céu justo’. Divergem em guerras / armas (este em Vasconcelos, à letra), letra que recupera Niebro em ‘torpe’, contra ‘bruto’, adjectivo mais animalesco, sem coloração moral. Vasconcelos omite ‘ardente’, o que transforma a rima emparelhada, vv. 7-8, em ‘-ando’, contra o original seguido em Niebro, ‘caliente / giente’.

 

A segunda estância é muito semelhante em ambos. Mas o primeiro verso é decisivo, e um dos mais importantes da nossa língua: «Esta é a ditosa pátria minha amada». Vasconcelos secundariza outro díctico, ‘esta’, que Niebro coloca logo à entrada, respeitando, assim, o paralelo ‘Eis’ / ‘Esta’, com sílaba métrica na primeira. Pior, porque precisa de uma sílaba, Vasconcelos transforma ‘amada’ em ‘mui amada’, mas acaba de omitir um adjectivo fundamental associado à ideia de pátria, ‘ditosa’. Conseguem ambos, todavia, um decassílabo que Camões tirou a ferros, pois, para haver cesura em ‘pá-‘, temos de encaixar ‘Esta é a’ em duas sílabas, lendo ‘Es / téa’. 

 

Registei outros casos problemáticos da tradução num prefácio em que devera ter referido a edição d’Os Lusíadas. Fac-Símile das Duas Edições de 1572 (1980), pela Academia das Ciências de Lisboa. Mas isso obrigava-me a longa conversa, pois sabemos, hoje, que não houve duas edições em 1572, o que levantava outro problema: ter de falar de 29 exemplares conhecidos da primeira edição, trabalho comparativo empreendido por K. David Jackson, que não referi, 29 exemplares «oriundos de bibliotecas e colecções de oito países e três continentes», como diz Jackson, na introdução ao cd-rom em que os reúne. Contesta ele a relação Ee / E (seja, v. 7 do canto I; «E entre gente remota edificaram» versus «Entre gente remota edificaram»), exemplificando com «um exemplar da British Library (G 11286) [que] tem o pelicano virado à esquerda, mas tem a leitura da primeira estrofe de E, isto é, da outra edição, segundo os esquemas de E e Ee»... Há muito Camões ainda por esclarecer, e não só na lírica.

 

Em 1900, concluía Leite de Vasconcelos que «o grau de vitalidade do mirandês é pequeno; de um lado, quasi lhe falta absolutamente litteratura; do outro, o povo que se serve d’elle vae-o desaprendendo, sob a influência de condições variadas.» (p. 162-163) Sabemos, hoje, da existência de um corpus literário significativo em Mirandês, em todos os géneros, não sendo pouco para espantar a peça em três actos Saias (1938), de Alfredo Cortez, sobre costumes deste chão, e na sua língua; mas nenhum título se aproxima do agora apresentado, facilmente entendível «em seus andamentos e modulações», sem evitar as dificuldades já patentes no original. Deve, assim, o leitor resolver dúvidas nas notas de uma edição em Português. A gente mirandesa, creio, pode recuperar «sabores da infância, subitamente colados ao Livro nacional»; cada vez mais língua de cultura, virando-se contra a anunciada perdição, «o Mirandês alarga o seu raio veicular», escrevi (2010, p. 48-50); e, sabido que o Português moderno arranca em 1572, pergunto-me se esta tradução não constituirá, também, um marco no tocante ao desenvolvimento da segunda língua nacional. Isso desejo; isso espero; trabalhemos, para que o futuro nos dê razão.

 

Ernesto José Rodrigues

 



[1] Trindade Coelho, Correspondência. 1873-1908, ed. de Hirondino Fernandes, Bragança, Brigantia, 2008, p. 78.

[2] As Flores… são saudadas n’O Imparcial de Coimbra (Novembro de 1884), onde pontifica Trindade Coelho (ver Correspondência, ed. cit., p. 92).

[3] “Camoniana mirandesa”, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Lisboa, UAL, 1996, p. 157-166.

puosto por fracisco n. às 18:17
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Domingo, 3 de Abril de 2011

Anterbençon ne l salimiento de Ls Lusíadas, an Miranda de l Douro

 

 

Ampeço por agradecer al Senhor Perjidente de Cámara l haber metido este salimiento de Ls Lusíadas an Mirandés, na sesson solene de l Die de la Lhéngua Mirandesa. Para mi ye ua honra que solo puode benir de la lhéngua eilha mesma i de l grande poeta Camões.

 

Andar mais de quenhientos quelómetros al para acá i outros tantos al para alhá, inda porriba apuis de haber screbido la notable antrada a la traduçon de Ls Lusíadas, dá bien la eideia de l sfuorço de l Porsor Ernesto Rodrigues para star eiqui, l que solo la amisade puode splicar. Bien hais Ernesto, por todo. Académicos de nome ténen sido eissenciales para ajudar a la crediblidade de l mirandés i nun ye cousa pouca que l Porsor Ernesto Rodrigues benga a ancarreirar tamien por esse camino.

 

Eiditar lhibros an mirandés nun ye de quien anda a la cata de best-sellers i a la spera de ganhar muito denheiro. Dende que l trabalho de la Eiditora Àncora i de l dr. Batista Lopes ye subretodo un grande apoio a la cultura mirandesa, a que yá tanto dou.

 

Nun quiero eiqui squecer l amigo i mestre José Ruy, pula culidade de l sou trabalho i la einorme dedicaçon al mirandés, muito para alhá de l que ye eisigible a quien scribe ia quien zeinha. Bien háiades, mestre José Ruy, nunca bos gpagaremos todo l que teneis feito pula denificaçon i pula dibulgaçon de l mirandés.

 

 

Cumo ye sabido, la traduçon de Ls Lusíadas ampeçou a ser publicada ne l Jornal Nordeste, an Janeiro de 2004, a la rezon de cinco stáncias por semana. Bendo bien, era algo que muito se fazie subretodo ne l seclo XIX ne ls jornales. Bonda botá-le la cuonta a las 1102 stáncias i esso dá-mos 221 semanas de publicaçon, l que an termos de jornal atira para 4 anhos i nuobe meses. I fui an Setembre de 2008 que essa publicaçon se acabou. Apuis desso fui reber i tornar a reber até Júnio de 2010, nun camino que nunca tenerie paraige se un die nun tubira dezido, chega!

 

 

Cumo testo base pa la traduçon segui la eidiçon de l Porsor Álvaro Júlio da Costa Pimpão. La berdade ye que me tornei un colecionador de eidiçones de Os Lusíadas, de studos, notas, bocabulairos i outros trabalhos subre Os Lusíadas, nua gana de todo melhor antender. Mas, para alhá desso, muito me serbi nas mies dúbedas de bárias traduçones an lhénguas strangeiras, de que tamien me tornei colecionador, subretodo de traduçones an castelhano, catalan, francés i eitaliano. Assi i todo, debo referir l uso special que fiç de la traduçon de Benito Caldera, un pertués porsor na Ounibersidade de Alcalá de Henares, salida an Márcio de 1580, i que fui la purmeira traduçon de l poema para castelhano anque lhougo apuis, nesse mesmo anho, tenga salido ua outra de Pedro de Vega, porsor an Salamanca.

 

 

La pregunta que eiqui pongo yá fui pula cierta puosta por bárias pessonas: l que ye que lhieba alguien a fazer ua boubada destas ne l seclo XXI, i inda porriba nua lhéngua cumo l mirandés, de bocabulairo lhemitado, subretodo rural i falada por mui poucos miles de pessonas i inda porriba muitas deilhas nien sáben ler?

 

L’eideia de traduzir l poema de Camões para mirandés fui, an purmeiro, agarrar las possiblidades que el le ouferece a la dibulgaçon de la lhéngua mirandesa, tornando-la mais coincida. Mas fui tamien l querer lhebar la lhéngua mirandesa por mares datrás nunca nabegados, fazendo-la passar pula dura pruoba que ye la de le dar boç a esse poema único, i cuido que se sal mui bien de l feito: ua lhéngua que lhuita cun sues andebles fuorças pa nun se deixar afogar ne ls mares amalgados an que ten de nabegar, dá-se bien cun esse poema que tamien tubo de ser salbo de las augas de l grande mar.

Sendo Ls Lusíadas l maior poema d’amor de la lhiteratura pertuesa, l trabalho de l tradutor solo puode ser antendido cumo un ato de amor pulas dues lhénguas lhénguas de l tradutor, l pertués i l mirandés, i dua grande proua por fazer parte de l pobo que las fala: ora, falar de amor i falar de boubadas bai a dar al mesmo.

Al modo que l tiempo passa, Ls Lusíadas ban sendo lhebados na corriente de l riu de l squecimiento i esso ye ua einorme perda yá que ye na mimória que assenta l bibir dun pobo, que por eilha bince l tiempo, i esse ye l camino de l’eimortalidade tamien pa la lhéngua.

 

 

L nome de Camões i l sou poema resúmen, an muito, l’alma, la cultura i la lhiteratura dun pobo, questuma-se dezir, mas todo esso staba ancumpleto sin la traduçon de l poema para mirandés. Cumo pertueses, tamien ls mirandeses fázen parte antegrante de l heiroi coletibo de Ls Lusíadas. Quadra-le bien als mirandeses essa eipopeia adonde a la grandeza de ls feitos se cuntrapon la pequenheç de l reino, adonde la fuorça de buntade i la determinaçon puoden arrepassar las fraquezas – i esso nun ten nada a ber cun cunsidrar ls çcubrimientos cumo eidade d’ouro, que nun l son. Assi sendo, Ls Lusíadas nun puoden quedar na beneraçon dun grupo de specialistas, nin de lheitura pa ls mirandeses que fúrun oubrigados a lé-lo ne l ansino secundairo a contragusto, ponendo-lo apuis de lhado para siempre. Tamien cula sue traduçon para mirandés Ls Lusíadas puoden ganhar nuobos lheitores que, de outro modo, nunca chegarien até el.

 

 

Puls feitos que diç, pul camino que apunta, pula sue grandeza cumo poema, Ls Lusíadas son un património de todos ls pertueses i de la houmanidade. Assi, ua nuoba lhéngua an que ye traduzido ben a cuntinar essa eideia, ajuntando-se a las muitas an que l poema yá fui i cuntina a ser traduzido. Dende que esta traduçon tamien seia ua houmenaige al grande poeta, un bózio contra l squecimiento, ua afirmaçon de la sue modernidade, amostrando cumo la globalizaçon nun ten sentido fuora de l’andebidualidade de ls pobos, por bien pequeinhos que séian.

 

 

Mas esta ye la purmeira traduçon, an mais de quenhientos anhos de l poema, que nun ye feita nua lhéngua strangeira, mas nua lhéngua de Pertual que a Camões nun le passarie pula cabeça que esistira.

 

 

Spero que ls mirandeses i ls pertueses téngan proua desta traduçon de Ls Lusíadas, nua outra sue lhéngua que ganha un statuto de maioridade i chega a puntos adonde hai bien pouco tiempo nien era possible sonhar. Mas eiqui stamos. I spero que de nós ls mirandeses naide puoda dezir l que Camões dixo de ls mandantes de l sou tiempo:

 

Yá chega, Musa, yá, mie lhira tengo

Çtemperada i la boç yá mi roufeinha,

Nun ye de l canto, mas de ber que bengo

Cantar a gente xorda cumo peinha.

Quien dá fuorça al angeinho, you cumbengo,

Nun ye la Pátria, nó, porque stá preinha

De gusto de codícia i de bruteza

Dua ruda, apagada i ruin tristeza.

(X, 145)

 

 

Miranda, 17 de Setembre de 2010. Sesson Solene de l Die de la Lhéngua Mirandesa

Amadeu Ferreira

 


 

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