Domingo, 12 de Agosto de 2012

TOQUES DE SINOS NA TERRA DE MIRANDA, de Mário Correia [Âncora Editora]


(Texto em que se baseou a apresentação da obra na Feira do Livro de Lisboa, no dia 13 de maio de 2012 e mais tarde em Mogadouro)


1. A obra de Mário Correia, agora em 2.ª edição da Âncora Editora, Toques de Sinos na Terra de Miranda, reveste-se de grande importância não apenas para ajudar a recompor uma paisagem sonora hoje em desaparecimento muito acelerado, mas para ajudar a reconstituir uma marca essencial do viver no campo, avaliar o seu ritmo, os seus medos, as suas crenças, determinar os seus tempos essenciais.

Mário Correia fez uma importante investigação relativa à cultura do Planalto Mirandês, que é comum a outras regiões nomeadamente transmontanas, que vai desde a origem dos sinos à sua função, à sua evolução e até à sua forma e ornamentos, dedicando-se também a descrever vários tipos de toques de sinos, de que nos apresenta gravações em CD que acompanha o livro. A realidade aqui retratada está em desaparecimento progressivo, sendo já muito difícil encontrar quem execute determinados tipos de toques, alguns dos quais deixaram de ser executados há vários anos.



2. Os toques de sinos desempenhavam funções várias nas comunidades em que eram utilizados: funções civis, funções mágicas, funções estritamente religiosas.


As funções puramente civis dos sinos e dos seus toques foram as primeiras a desaparecer: os toques a rebate em caso de incêndio ou outra calamidade, os toques a concelho ou a caminhos ou para juntar o gado, exemplo vivo dos hábitos comunitários da bezeira, mas também para anunciar qualquer evento do interesse de toda a aldeia, a estes se devendo juntar, em muitas localidades, o toque para chamar para a escola, e o toque do relógio a marcar as horas, talvez o único que ainda perdura, embora seja desligado durante a noite e em muitos casos lhe sejam associadas músicas que, por serem repetidas tantas vezes (pelo menos de meia em meia hora), se tornam maçadoras, acabando mesmo por dar o efeito contrário do pretendido. Não vai longe o tempo em que a maioria das pessoas não tinha relógio e se guiava apenas pelo sol e as estrelas, sendo o toque das horas e meias horas pelo relógio do campanário um elemento complementar que não chegava a todos os locais do termo onde se desenrolavam os trabalhos do campo.


Havia toques com funções mágicas , é assim que gosto de as considerar, também já desaparecidos, de que se destaca o toque contra as tempestades [toque a tinta nubrada], e a que eu juntaria os toques da noite do dia de Natal e da noite de sábado para domingo de Páscoa, que antigamente se prolongavam por toda a noite durante a qual a juventude procedia aos entrancamentos ou entroncamentos , mas recentemente foram proibidos e de perto vigiada essa proibição pela GNR, sendo toques muito associados à juventude, como o eram os chamamos toques de paga vinho que existiam em algumas aldeias.


Os toques de sinos que mais têm perdurado são os toques com funções estritamente religiosas, não apenas aqueles que se ligavam ao anúncio de certas funções religiosas em regra repetidas mais ou menos vezes ao longo do ano (missas, festas, etc.) ligados a todos os aspectos que envolviam momentos essenciais quer da vida individual das pessoas, quer da comunidade:

- em termos individuais, os sinos tocavam em exclusivo para cada pessoa, pelo menos em duas ocasiões: o nascimento (festejado com o baptizado) e a morte; mas podiam ainda ser tocados mais duas vezes: no casamento, o que abrangia a maioria das pessoas, e com a extrema-unção, em que a pessoa fazia os últimos preparativos para morrer e a morte era anunciada rua fora, até com alguma pompa e o toque dos sinos era um repicado festivo, o que mostra bem quão distante está a sociedade de hoje dessas vivências da morte;

- em termos colectivos, os toques estavam associados a todo o tipo de celebrações religiosas que envolviam a comunidade (missas, novenas, festas principais);

- havia ainda toques que, não estando associados a quaisquer celebrações religiosas, tinham a função de ordenar a religiosidade privada de toda a aldeia e eram executados pelo menos quatro vezes ao longo do dia, repetindo-se todos os dias ao contrários de todos os restantes que eram sempre associados a um determinado evento: eram os toques das almas [de madrugada e à noite], o toque das ave-marias [ao meio dia] e o toque de trindades [ao por do sol], por eles se ordenava a religiosidade privada dos fiéis, embora acabassem por desempenhar outras funções menos religiosas.

Só por esta esquemática apresentação se pode ver a importância que os sinos tinham na vida das pessoas, faziam parte dessa vida e da aprendizagem das pessoas e foram objeto de muitos e muitos poemas, de que lembro em especial Rosalía de Castro e Fernando Pessoa, em que o ‘Sino da minha aldeia’ era o sino da Igreja dos Mártires, junto à sua casa, como o próprio Pessoa esclareceu em carta a João Gaspar Simões.



3. Sempre o som e o toque dos sinos me impressionou e desde que nasci me habituei a esse toque, a distinguir-lhe as modalidades e o significado, a obedecer-lhe e por ele acertar o ritmo do dia. Já em 2000, publiquei um poema em Cebadeiros[Campo das Letras] intitulado campanas, campaninas, campanairo e em que a certa altura se diz:


Todo l que ye amportante na mie tierra inda stá agarrado a 

campanas a campaninas i al campanairo:

nacer i spertar morrer i drumir

sonhar sufrir i fazer pula bida

fiestas i perciones anterros i casamentos

todo a cunjugar berbos siempre ne l amperatibo.


O livro do Mário Correia não necessita de apresentação. Tudo está ordenado de forma adequada e muito bem escrito. O que aqui posso deixar é o breve testemunho de alguém que ainda viveu toda a cultura dos toques de sinos e a traz gravada dentro de si, acrescentando às notas históricas e musicais de Mário Correia um toque sociológico e até psicológico. Pois os sinos e os seus toques não são apenas técnicas de construção ou de toque e execução musical, em que este aspecto musical é o que mais sobressai. Além disso, os sinos são 

- uma vivência individual tão forte que o seu código fica inscrito em quem o viveu, e por isso bem se compreende toda a carga emotiva que muitos poetas lhe associaram: Ó sino da minha aldeia / dolente na tarde calma, / cada tua badalada / soa dentro da minha alma [Fernando Pessoa];

- e uma instituição coletiva que marca de modo indelével a paisagem sonora e social de uma comunidade, além de serem uma espécie de linguagem, um código que todos entendem e tem a força imperativa de uma verdadeira lei a que, em certo tempo, era proibido e até perigoso desobedecer.  É o que farei, de modo sucinto.

Sempre o toque dos sinos esteve associado pelas pessoas a uma forma especial de linguagem, sendo mesmo certos toques associados a determinadas expressões:

- tocava o sino para a missa ou outra função religiosa e dizia-se: mira yá stan a chamar a missa ou l cura yá stá a chamar;

- sempre ouvi dizer que os sinos quando tocavam em caso de morte diziam: neto meu, lembra-te de mim, de mim foi para teu pai e de teu pai foi para ti.



4. Havia um toque que qualquer criança aprendia em primeiro lugar e desde muito cedo, o toque de Trindades: essa era a hora de recolher a casa, a partir da qual uma criança não podia ser vista na rua sozinha e os pais eram rigorosos nos castigos para quem não respeitava esse toque de recolher. Era um toque constituído por três grupos de três badaladas e era dado ao pôr do sol entre abril e setembro e ao início da noite entre outubro e março. Não é do meu conhecimento que as pessoas usassem esse toque para rezar [as avé marias], como devia ser, costume que já se teria perdido pelo menos para a maioria das pessoas. Por aqui se vê como o toque das Trindades tinha associadas ou foi ganhando outras funções além das religiosas. As crianças sabiam bem que qualquer brincadeira ou jogo em que estivessem envolvidas tinha que ser imediatamente largado, pois as ordens dos pais costumavam ser muito precisas: quando acabar de tocar las Trindades quiero te an casa.

As avé marias eram um toque idêntico às Trindades e tocavam-se também ao meio dia, e bem me lembro das correrias à saída da escola a ver quem chegava primeiro à corda do sino para tocar as avé marias ao meio-dia, não raro dando lugar a lutas, até que o toque foi proibido por essas razões.



5. Recordo-me bem do medo que incutiam os toques a rebate e, sobretudo, a tinta nubrada. 


Os toques a rebate estavam relacionados com situações de calamidade, como incêndios, ou outras que exigiam a imediata intervenção de todo o povo. Era um toque rápido e contínuo feito com apenas um dos sinos, a dar bem a ideia de urgência e de aflição.


No caso dos toques a Tinta Nubrada as crianças recolhíamo-nos em casa ou debaixo de algum cabanal, sempre com medo ainda aumentado pelas muitas histórias que se contavam sobre o poder destruidor dos astros e das suas centelhas, acreditando-se que eram pedras em fogo que desciam dos céus . Enquanto as mulheres rezavam a Santa Bárbara Bendita, nós muitas vezes cantávamos a canção dos sinos, talvez para espantar o medo, talvez para lhe intensificar o efeito:

Tinta de la tinta

de la tinta nubrada

nun bengas tan cargada

bai te a çcargar 

a la tierra de la Saiada.


De uma maneira geral, acreditávamos no efeito mágico daquele toque contra as trovoadas, começando o sino a tocar mal a trovoada se anunciava ao longe. Quanto tal não acontecia as pessoas impacientavam-se: ai bala-me Dius, antoce nun hai naide que baia a tocara tinta nubrada! Tal acontecia mesmo durante a noite, o que significa que sempre alguém podia estar desperto, pois a vida nem sempre deixava dormir descansado. Enquanto as trovoadas estavam associadas à força maléfica de seres chamados Astros, o toque dos sinos era uma força benfazeja que eles temiam, assim se travando uma luta muito dura entre o Bem e o Mal e os seus representantes, que as pessoas sentiam presentes em todo o lado e que podia interferir nas suas vidas de modo catastrófico. Este era um toque mágico, muito associado ao culto dos astros e que, como tal perdurou, até à sua extinção, apesar de a Igreja sempre o ter procurado acolher e explicar religiosamente, ao defender a ideia de que a força do toque dos sinos vinha de eles serem benzidos. Nas aldeias havia homens que desempenhavam as funções de verdadeiros tempestários, que não só não deviam ter medo dos astros vingativos quando iam tocar, como deviam saber tocar muito bem os sinos para que pudesse o toque surtir efeito. Esses homens eram muito respeitados na aldeia, autênticos sacerdotes dos astros.

Quando o toque dos sinos não conseguia afastar de todo a tempestade, as pessoas pensavam que sem eles ainda poderia ser pior. Mas nem sempre se tocava a tinta nubrada quando se anunciava uma tempestade, mas apenas quando se pensava que poderia ser destruidora das culturas, razão por que esse toque era sobretudo usado entre maio e setembro. Lembre-se que maio era considerado o pior mês das trovoadas, nele se celebrando a festa de Santa Bárbara que depois foi em muitos casos transferidas para o mês de agosto, altura em que mais pessoas se juntavam na aldeia e os trabalhos mais intensos do campo sofriam uma pausa.



6. O toque das almas era um toque que muito impressionava, pois era executado durante a noite: 

- de madrugada, por volta das seis da manhã, 

- e por volta das dez da noite, altura em que as pessoas estavam na cama. 

Hoje é difícil imaginar o ambiente que então se vivia, mas os ingredientes eram os seguintes: devemos juntar um profundo silêncio à mais completa escuridão, pois as aldeias ainda não tinham iluminação eléctrica, o que nas crianças era muito acrescentado com as histórias que ouviam contar, e em que a noite era o tempo de todos os males, dos ladrões, do demónio, das bruxas, dos lobos, das almas do outro mundo, etc. 

Esse toque era em certas noites associado, ainda que não coincidisse necessariamente, com o cantar das almas, a cortar o silêncio da noite com vozes que pareciam sair do ventre da terra, e quem acordava ouvia debaixo dos cobertores um canto que tinha a ver com um outro mundo, pois acreditávamos piamente que as almas do outro mundo andavam por ali esperando um dia entrar no descanso eterno. A oração e o canto das almas tinham como função apaziguar as almas penadas, que importunavam os vivos para que livrassem dos encarregos com que tinham morrido sem se poderem desobrigar, e para pedir pelo seu descanso, quando eram almas que ainda devessem espiar alguns pecados. Quer este toque quer este cantar das almas, sentia-se sempre muito longe, como vindo dum outro mundo. São práticas pré-cristãs que têm a ver com o culto dos mortos, talvez o culto mais antigo da humanidade, segundo os vestígios que chegaram até nós, culto esse que o cristianismo manteve e adaptou, embora sofrendo modificações até aos nossos dias.



7. O tocar a rebate usava-se sobretudo quando havia fogo, mas também diante de outra calamidade qualquer que exigia juntar o povo para lhe fazer frente. Este toque bem cedo foi substituído pela sirene dos bombeiros. Era um toque rápido, que exigia pressa todo ele e que agoniava o peito. Mas começava as pessoas começavam a sair à rua perscrutando o ar à procura de fumo que pudesse identificar o local do incêndio e caso não descobrissem dirigiam-se invariavelmente para a praça, levando balde e outros utensílios apropriados. E de todas as ruas confluía aquela massa de gente, aos gritos, com lamentos adequado à situação, misturados com votos e com orações, enquanto o toque continuava como se a aflição saísse do próprio peito, pois com a sua associação a determinados eventos, o toque como que os reproduzia dentro de nós num crescendo à medida que o tempo passava.



8. Tocar a concelho ou caminhos quando se queria juntar o povo para decidir ou para trabalhar. Estes são sempre toque de chamamento, muito simples, pois consistem em dar algumas badaladas seguidas no sino.



9. Os toques individualmente orientados, são dos toques mais interessantes, sobretudo porque assinalam factos individuais em sociedades de grande comunitarismos, nomeademante os factos que têm a ver com o acolhimento de alguém na comunidade ou com a sua saída, altura em que toda a comunidade se concentra nessa pessoa concreta: São toques em que os sinos tocam apenas para uma determinada pessoa, é um seu direito inalienável, seja quem for essa pessoa:

- o nascimento / baptizado: na aldeia todas as crianças eram batizadas logo a seguir ao nascimento e o toque dos sinos eram não só a festa religiosa, mas também o anúncio do nascimento de alguém à comunidade e o seu recebimento nessa comunidade: era este um toque festivo, um repicado executado em simultâneo por dois sinos; começavam a tocaar os sinos e logo se espalhava a notícia relativa à pessoa que era celebrada;

- a morte: este toque, a que também se chamava encordar, começava invariavelmente pelo identificação do tipo de pessoa morta através de um acorde dado em simultâneo no sino grande e no sino pequeno, acordes esses a que se chamavam pousas: duas para as mulheres e três para os homens; mal ouvíamos a primeira pousa, como que uma descarga eléctrica percorria o corpo e a pergunta saía naturalmente: quien se morriu? e em poucos minutos a informação circulava de boca em boca por toda a aldeia, toda a gente sabendo quais as cerimónias comunitárias que iam ter lugar a partir daí, nomeadamente para velar a pessoa morta e rezar-lhe por alma.

Além das pousas, o toque de mortos assumia três formas: 

- de repiquete, no caso de morte de uma criança, pois se pensava que ela ia directamente para o céu e portanto o toque era festivo como em qualquer outra festa; 

- de voltear, que era sempre um toque solene, mas a que se sobrepunha uma badalada de vez em quando no sino mais pequeno, o que produzia um efeito de arrepio pela conjugação do acorde menor executado em contratempo; 

- de um outro tipo toque, quando as pessoas não tinham condições para fazer voltear o sino, era dar uma badalada alternada no sino grande e no sino pequeno, o que produzia um intervalo menor no som que era muito triste ou que pelo menos nos habituáramos a ver como tal.

- o casamento: em que o toque era festivo, de repiquete, tal como no baptizado e outras festas.

- a extrema-unção: o toque tinha características próprias, mas era um misto dos anteriores isto é, de um toque de mortos com um repiquete festivo, como é muito bem explicado no livro do Mário Correia, sendo esta uma das cerimónias comunitárias mais extraordinárias a que era dado assistir, com a sua característica de socialização e anúncio público da morte, realidades que ainda vivi muito intensamente, mas tão longe da preocupação que hoje existe em esconder a morte, que raramente é um evento que interessa á comunidade, mas apenas às pessoas mais próximas do morto ou da sua família.



10. Os toques relativos às funções religiosas eram tantos quantas as funções religiosas, com particular destaques para os repiquetes processionais ou molineras, que era um tipo especial de repiquete, sempre toques festivos, e os toques de chamamento, em particular para a missa.

Os repiquetes ou toques festivos eram executados quer como anúncio e fim da função, quer durante a mesma. Eram executados sobretudo em baptizados, casamentos, morte de crianças, extrema-unção (durante o trajecto do cortejo com o padre entre a igreja e a casa do moribundo) e as procissões.

O repiquete das procissões das festas podiam assumir uma especial solenidade, como era o caso das molineras, que são um tipo especial de repiquete executado sobretudo quando a procissão saia da igreja e nela voltava a entrar.



11. As técnicas para a execução do toque dos sinos eram as mais variadas, conforme o número de sinos do campanário e a sua dimensão. De uma maneira geral todos os campanários tinham pelo menos dois sinos, o sino grande e o sino pequeno, pois a articulação entre ambos era essencial para executar os toques mais complexos, em particular os repiquetes e os toques a mortes. Muitas vezes havia um terceiro sino, usado para certos toques de chamamento ou para o relógio.

Dos toques de chamamento o mais solene e espectacular era o toque que consistia em fazer voltear os sinos sobre si próprios, que além disso eram toques que se podiam ouvir mais ao longe, em torno deles se criando um verdadeiro cerimonial pois exigia força e muita habilidade para fazer o sino rodar sobre si próprio. O voltear usava-se sobretudo em duas ocasiões: o chamar para a missa de domingo ou de um outro dia festivo; o toque de finados, quando a pessoa falecida era adulta. Por vezes, com força e habilidade fazia-se o sino dar várias voltas sobre si mesmo, sendo o voltear sempre dado com o sino grande. O toque de voltear tinha particular solenidade na missa do galo, na noite de 24 de dezembro, em que havia três toques com intervalo de uma hora, às 9, às 10 e às 11 da noite.

O toque normal de chamamento era invariavelmente constituído por uma sequência compassada de toques de um só sino, podendo no caso da missa de domingo alternar, isto é, com uma série de badaladas num dos sinos cuja frequência ia aumentando até o som ser contínuo, repetindo-se o processo no outro sino. No caso das missas de domingo, mais solenes, além do chamamento normal através do voltear do sino, havia o chamamento dado pelo padre quando chegava à igreja, conhecido como las cinco, pois era um toque que terminava com cinco badaladas espaçadas, e havia ainda o toque de duas badaladas, las dues, que era dado com o começo da missa e que era uma espécie de aviso aos mais retardatários.

O toque de mortos exigia sempre uma determinada combinação do sino grande e do sino mais pequeno que, devido ao intervalo musical produzido e ao espaçamento entre eles, com uma pausa pelo meio, produziam um efeito de arrepio que tenho bem gravado no corpo.

Já o toque festivo de repiquete era também a combinação do roque rápido dos dois sinos, produzindo uma ideia de festa que nos deixava em euforia a que acrescia o estalar dos foguetes e o toque da gaita ou da filarmónica a percorrer as ruas.



12. Quero dar os meus parabéns ao Mário Correio por nos deixar este testemunho tão importante, quer em termos descritivos quer em termos de gravações, nalguns casos de pessoas que já faleceram, também elas grandes músicos, como o tiu Eduardo Afonso de Travanca.

Espero que um dia possa este trabalho ser alargado ao estudo de outros aspectos como aqui por mim referenciados, quer de natureza sociológica quer de natureza comunitária, quer ainda outros aspectos e testemunhos das pessoas que viveram a cultura dos sinos, hoje irremediavelmente a caminho do desaparecimento, ainda que alguns toques continuem a perdurar e a ouvir-se o seu aspectos externo e musical, mas já desligado de toda uma cultura constituída por um sistema de crenças de vário tipo e por hábitos e práticas comunitárias que são um elo na cadeia do desenvolvimento das comunidades humanas



Lisboa (Feira do Livro), 13 de maio de 2012

Amadeu Ferreira
puosto por fracisco n. às 02:06
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