Sábado, 16 de Abril de 2011

O Burro nos 'Ditos Dezideiros' e na tradição oral mirandesa

[Estudo publicado na revista Amigos de Bragança, Março de 2005]

 

 

 

Se, há alguns anos atrás, alguém dissesse que os burros mirandeses necessitavam de especial protecção pois estariam em risco de desaparecer, talvez não acreditássemos. Hoje ninguém tem dúvidas e também esse facto mostra como a nossa sociedade mudou. Companheiro inseparável do homem desde há milénios, o burro deixa a sua marca forte no nosso modo de pensar, na nossa forma de ver o mundo, em suma, na nossa linguagem, talvez como nenhum outro animal. Também essa marca se irá esbatendo com o tempo, desaparecendo nuns casos e tornando-se incompreensível noutros, como já hoje acontece em relação ao zebro, essa espécie de burro selvagem cuja existência apenas deixou rasto na toponímia. Aqui deixo algumas notas sobre o rasto do burro na linguagem mirandesa, em particular nos provérbios, pondo de lado algumas outras manifestações para não alongar excessivamente o artigo.

 

 


O burro como género: burros somos todos nós

 

Talvez a mais frequente acepção da palavra burro, nos provérbios, seja como sinónimo de pessoa, processo muito usado com animais quando se pretendem transmitir verdades universais. Esse facto mostra bem a proximidade desse animal no quotidiano de uma sociedade camponesa pobre, em que é animal de carga e de trabalho por excelência, mas mostra também que as pessoas não têm desse animal uma imagem tão negativa como pode parecer à primeira vista.

Assim, quando se pretende vituperar um oportunista que só vai onde pode obter um benefício, de preferência fácil e à custa da fraqueza ou impotência alheias, diz-se Adonde hai un burro muorto nun fáltan cuorbos ou Cheirou-le cumo cuorbos a burro muorto. Este dito, de que não encontro paralelo no adagiário português, é bem mais subtil, mas não menos cru, que o dedicado pelo adagiário espanhol aos caçadores de heranças sem escrúpulos Do viejos no andan, cuervos no gradan, com as variantes Do viejos no andan, cuervos no graznan e Cuervos vienen, carne hay. Num caso como noutro assentam no conhecimento de os abutres sobrevoarem as carcaças de animais mortos que antigamente eram deixados ao abandono no campo, facto de que a toponímia ainda guarda memória.

Em situações em que uma sequência de factos se apresenta como funesta, mas que não pode ser remediada ou a que nos resignamos, dizemos, Para adonde bai l burro que baia l’albarda, podendo até particularizar-se mais o dito, quando alguém está envolvido directamente, dizendo-se Para adonde bai l burro, que baia l’albarda i para adonde bai l’albarda, que baia Jesé.

Que o mundo não é linear, e que coxistem sempre forças contrárias que asseguram o equilíbrio do mundo e mantêm a esperança, é conclusão que as pessoas há muito tiraram do conhecimento da natureza e do comportamento do seu burro, dizendo Quando nace ua silba hai lhougo un burro pa la rober. Mas também o burro é um exemplo que serve para ilustrar alguma injustiça a propósito da retribuição ou a chamada de atenção de que o trabalho, só por si, pode não ser aquilo que traz mais reconhecimento social, pois L burro que mais trabalha nun ye l que melhor albarda trai. Conhecemos bem a resposta de Jesus às queixas da afadigada Marta perante a atitude de Maria, que não a auxiliava nas tarefas da casa: “Marta, Marta, andas atarefada e cansada com muitas coisas, mas apenas uma faz falta. Maria escolheu a melhor parte e não lhe será tirada” (Lucas, 10, 41-42). E que melhor imagem para traduzir a revolta de o justo pagar pelo pecador, do que a do provérbio Por bias de l burro, palos na albarda?

Também o burro serve para ilustrar a ligeireza com que alguns olham para o trabalho dos outros, não o valorizando ou não querendo eles próprios realizar o esforço necessário para atingir um resultado, mas apenas gozar esse mesmo resultado sem cuidar da cadeia de pequenos e duros esforços que a ele conduziram. Daí que Apuis de l burro albardado qualquiera un l monta ou L burro an casa faç falta, mas naide le quier dar de comer. Igualmente aquele que, devido a uma experiência limitada, tem em boa conta algo que não tem comparação com realidades bem mais nobres e desenvolvidas, impante com o seu umbigo, fica bem ilustrado no dito Quien burros agabou, nunca cun bacas lhabrou, ou naquele que critica o Ir de cabalho para burro.

Que cada um pode tratar dos seus negócios melhor que qualquer outro, pode ser demonstrado na relação estreita que se estabelece entre o dono e o seu burro, que se conhecem bem assim como às respectivas manhas: Naide puxa l rabo de l burro cumo l duonho; Naide puxa melhor l rabo de l burro que l própio amo; Nun hai naide melhor que l amo para falar de l sou burro. Daí que para as qualidades e defeitos das pessoas nada calhe melhor que as características que normalmente são atribuídas aos burros, como a teimosia e a estupidez: Bozes de burro nun chégan al cielo; Burro bielho nun toma andadura. Ou quando alguém ou alguma coisa vai de mal a pior, o burro não aguenta a comparação com o cavalo, considerado mais nobre, razão porque se diz que Bai de cabalho para burro. Igualmente, em sociedade há que ter respeito pelos outros, pois Quando un burro fala, ls outros scúitan, mas também é vituperada a inveja daqueles que não têm iniciativa e não podem deixar os outros singrar, dizendo-se que Quando un burro meija, a todos le dá ambeija. Mas não deixa de se sentir um certo apelo à tolerância perante a diferença quando se sentencia Cada burro cun sue teima.

Embora se diga que burro velho já não aprende ou já não muda, não deixa de se ter em conta que a velhice permite acumular sabedoria, experiência e convive com uma perda de inocência que não deixa os velhos ir em cantigas, daí que se diga, para qualificar uma pessoa com essas características que Ye burro bielho, como quem diz, mesmo aos burros o tempo pode ensinar muito. Também a pessoa demasiado insistente em algo que não deve, se procura calar com a expressão I dá-le, i la burra a fugir!, tal como se recrimina a pessoa que fala ou age com ligeireza, de qualquer maneira, dizendo-se que Fala d’anriba la burra ou que Faç las cousas anriba de la burra. Falar ou fazer as coisas desse modo é uma certa forma de arrogância, daí o convite ao arrogante ou se esconde atrás de vantagens não devidas ao seu próprio valor, Abaixa-te de la burra! Daquele que faz algo contrariado ou que se sente desconfortável no está a fazer se diz que Stá cumo l burro preso a la staca, dito que implica um juízo positivo em relação ao burro, amante da liberdade. Daquele que se depreza e cujas palavras não são merecedoras de atenção se diz que Bozes de burro nun chégan al cielo. Aquele que trabalha em excesso, aguentando com tudo e sem que daí venha grande resultado ou sem se queixar se diz que Ye un burro de carga.

Como podemos verificar em todos estes casos o nome burro é usado com sentido aberto, referido ao género humano. Este procedimento não é específico desta palavra – animal, mas acontece com outros animais. Não com qualquer animal, mas apenas com aqueles em relação aos quais o homem tem maior proximidade, não se encontrando nomes de animais que não façam parte do universo em que o dito é usado. De todos eles, estou em crer que o burro ocupa uma posição cimeira, não apenas em número de provérbios, mas de outros usos linguísticos, assumindo uma carga simbólica muito importante. Esse uso corresponde ao de uma sociedade agrícola, em que o burro desempenha um papel essencial: é um animal mais barato, é sóbrio quanto ao alimento, adapta-se a solos muito acidentados, é manso, tem um papel essencial na criação de um outro animal, do género muar, através do cruzamento com cavalo – égua, e é polivalente quanto às funções que pode desempenhar, a saber, servir como animal de carga, como animal de transporte de pessoas, para lavrar e, em geral, como animal de tracção em variadas situações. Em suma, um animal a quem o homem muito deve e por quem tem respeito, o que já não acontece com outros cuja função é, por exemplo, apenas produzir carne.

 

 

 

Do burro animal ao burro adjectivo

 

Atentas as suas características como animal, a palabra “burro” tem um uso pouco lisonjeiro quando aplicado a pessoas. O mesmo vale para um conjunto de derivados formados a partir daquela palavra. Com efeito, a definição de burro, enquanto adjectivo, não andará lonje de: estúpido, imbecil, teimoso. Também com esses sentidos a palavra é usada nos provérbios, mas nestes tem uma riqueza de significados muito mais ampla. Com aqueles sentidos, diz-se de alguém que é burro cumo ua puorta, burro cumo un cepo, burro cumo un çoco; ou faz-se a comparação com certas partes do corpo do burro, nomeadamente aquelas que deviam pensar mas não pensam (actividade perigosíssima, pois A pensar morriu-se un burro), dizendo-se de alguém que é cabeça de burro, ou que tem oureilhas de burro; de modo mais lapidar se diz de alguém que ye burro. Mas já se diz que alguém é uolhos de burro quando lhe pretendemos fazer realçar a maldade ou o carácter boçal.

Os comportamentos que revelam esperteza são exactamente contrários aos do burro. Assim, quando se quer avisar ou aconselhar alguém para proceder com esperteza se diz Tu nun me seias burro. Também se diz de alguém que agiu com esperteza naquilo que lhe convém, num comportamento próximo do oportunismo ou do egoísmo, Chama-le burro! Porém, a palavra já ganha um sentido muito diverso no dito Quien parte i reparte i nun queda cula melhor parte ou el ye burro ou nun ten arte, pois aí a palavra burro está no sentido de ingénuo, não oportunista, mas também de alguém que se deixa levar pelos outros, sentidos que não são necessariamente negativos. Esse mesmo sentido aparece num outro dito, relativo a alguém que verificou ter sido enganado na sua ingenuidade e boa fé, ou devido à sua generosidade com quem o não merecia, levando a pessoa a dizer de si própria Mas quien me manda a mi ser burro!? O burro é ainda o símbolo da mansidão, pois se diz de um outro animal que Ye manso cumo un burro, para significar que é confiável, afável, dócil, ao ponto de poder ser entregue a uma criança que não lhe fará mal.

A falta de esperteza parece ser um dos piores defeitos que uma pessoa pode ter, pois se diz que Ser probe nun ye defeito, mas ser probe i burro ye l pior defeito que puode haber. Assim, ser burro é luxo a que só os ricos se podem entregar, pois os pobres precisam de toda a esperteza para fazer pela vida. Mas também aqui a esperteza pode ser tomada tanto com o sentido de inteligência, como no sentido mais negativo que implica algum oportunismo, ou apenas no sentido de matreirice.

A palavra pode ainda ser usada com um sentido indefinido, como concentração de tudo o que há de negativo, aplicado a uma pessoa, razão porque o tratar muito mal uma pessoa, com palavras, é nada mais que Dar-le ua data de burro.

Assim, parecem estar associadas ao burro a estupidez, a casmurrice, o oportunismo, o egoísmo, mas também a ingenuidade, a pureza de alma, a boa fé, a generosidade, pois é confiável, afável, dócil, sóbrio e, ainda, a matreirice e o ser desenrascado. Esta riqueza de significados, que os dicionários não reflectem minimamente, é bem reveladora da relação contraditória que o homem tem com o burro, um misto entre desprezo e carinho, entre rejeição e admiração, enfim aquela relação que leva os contrários a atraírem-se e a repelirem-se ao mesmo tempo, como o gato e o rato, ou a relação dos dois compinchas que estão sempre a implicar mas não podem passar um sem o outro. Em suma, significados que implicam o reconhecimento de uma forte personalidade ao burro, tão grande como os seus defeitos e as suas virtudes.

Enquanto animal de trabalho por excelência, através dos ditos sobre o burro se exprime uma certa ambivalência das pessoas face ao trabalho. Creio que o sentido negativo que o adjectivo burro encerra resulta também de um modo de julgar a função e o comportamento do animal do mesmo nome: por um lado o ser um animal de trabalho, polivalente; por outro o seu comportamento dócil e a sua sobriedade. Está, portanto, implícita uma crítica a essas características, que a sociedade valora de modo ambivalente. Sendo esse o “destino” das pessoas do campo, de certo modo torna-se quase automática uma certa identificação com o animal e, simultaneamente, uma certa rejeição que é uma rejeição da sua própria condição. Algo tão óbvio que facilmente se lhe encontra transparência, bem expressa no dito Debagar se bai al loinje, mais burro ye quien se mata.

 

 

 

Afinal o burro é mesmo burro?

 

Do que vimos até agora, raras são as expressões em que se quer significar o burro animal. No entanto, também algumas lhe são dedicadas e nem todas têm um sentido pejorativo.

Em muitas dessas expressões ou sentidos da palavra, o burro aparece como um animal de trabalho por excelência, paciente, capaz de suportar cargas sem se queixar. Essa conotação não é necessariamente negativa numa sociedade camponesa. É o que se retira de expressões como Burro de carga, ou do nome dado a instrumentos e utensílios cuja função é aguentar cargas, como a armação que suporta a madeira que vai ser serrada, ou o pau com dentes de ferro, semelhante a um pente, utilizado para separar a lã mais fina da mais grosseira. Pisa-burros se chamam certas flores azuis dos prados, burro é um tipo de tijolo maciço.

Quanto à comida, é sabido que o burro é um animal sóbrio e esquisito em certos alimentos, o que as pessoas não compreendem pois dizem que Un burro ye tan burro que deixa la yerba buona i bai-se a comer cardos. Porém, reconhecem que mesmo um burro obedece mais facilmente a um bom alimento que a pancada. Daí que à admiração / indignação de alguém que diz L burro nun me anda!, outrem lhe responda, Dá-le de trás, isto é, dá-lhe de comer antes de o pores a andar, e não, bate-lhe na parte traseira, como pode parecer à primeira vista.

De um burro se diz que inventou a poda, chamando-se assim a atenção para a suposta facilidade dessa arte e para a inconsciência do animal quando faz bem, mas também quando faz mal pois se diz que La sprança (ou la cuncéncia) era berde, staba anriba dun cardo (ou dun carro), bieno un burro i comiu-la. Essa mesma inconsciência é verberada pelo dito Quien fai bersos sin querer, ye burro a baler.

Mas não pode criticar-se o burro por desempenhar a função que lhe está destinada na sociedade, sendo merecedoras de crítica as pessoas que assim não procedem, pois Quien ten burro i anda a pie, mais burro ye. Um burro especialmente criticável é o do João Brás, Que an beç de ir al palantre bai al para trás, e há pessoas que são como esse burro, isto é, mais burras que o normal dos burros. Também as consequências de certos actos podem implicar que um homem tenha de acompanhar o burro numa função tradicionalmente reservada ás mulheres, como é o fazer e levar as refeições que ceifam no campo, pois L que ampreinha la mulhier an Outubre bai pa la segada cul burro. De facto o burro está ligado muito à mulher que o usa para levar o comer ao campo e como meio de transporte e transportador privilegiado, deixando outras tarefas consideradas mais nobres, como a tracção, reservadas a vacas e mulas. Aqui aflora, pois a distinção mulher / homem e a separação de tarefas entre eles. Aliás, como é regra no que toca à criação as características do animal transmitem-se por via materna, mas isso seriam questões que nos obrigariam a dar a volta por outros caimnhos e a sair do nosso propósito inicial[1].

O simpático animal é muitas vezes usado em ditos jocosos. Assim se diz que uma das verdades do mundo é Ls burros tenéren l culo redondo i cagáren ls figos quadrados. Também se conta a adivinha: Abe lumbriga, / ten un bico na barriga, / Canta nas lhadeiras, / Ressona nas ribeiras, / Pon ls uobos a las dúzias / i nun ye burra. Se alguém responde Anton ye burro!, a conclusão surge fulminante Alhebanta-le l rabo i chupa-le l culo! Igualmente, quando se quer gozar com alguém que se mostra muito sabichão em assuntos de que nada percebe, se diz, Tu que antendes, mira a ber se la mie burra stá salida.

 

 

 

Um mundo onde o burro faz sentido

 

Toda a cultura que envolve o burro tem uma espécie de mito fundador. Esse mito fundador diz-nos que “burro” não é um nome e sim um adjectivo e que apenas terá sido aplicado como nome ao nosso animal por castigo de Deus. Assim, a burrice existia antes do burro e continua a existir depois dele e apesar dele. Sendo assim, tudo bate certo e o burro apenas teria de se queixar de si próprio. A história foi assim recolhida por António Maria Mourinho[2]:

Era ua beç Nuosso Senhor que habie criado l mundo i to ls animales: las cabras, las canhonas, las bacas, ls cabalhos, ls cochinos, ls perros, ls gatos, ls lhiones, ls tigres, ls alifantes, ls ratos, ls lhiebres, ls coneilhos – buono,todos, todos...

Bai adespuis de ls haber criado, fizo-los todos por an pie del i iba-le ponendo a cada un sou nome:

- Tu sós baca, tu sós bui, tu sós oubeilha, tu sós carneiro, tu sós cordeirico – dixo pa l rapazico de l’oubeilha – tu sós lhion, tu sós cabalho, tu sós jumento, dixo pa l burro, i tu sós gato, i tu coneilho i tu cabra i tu chibo, i fui assi ponendo a todos l sou nome, até que s’acabórun.

Bai anton l jumento, çqueciu-se-le l sou nome. Inda ls outros animales nun habien acabado de recebir ls sous nomes i yá l jumento staba a apertar culs outros para que l deixássen achegar-se a Nuosso Senhor para saber cumo se chamaba.

Quando anton s’achega a Nuosso Senhor, cun cara de asno a perguntá-le:

- Oh meu debino Mestre, eu cumo me chamo que já se me esqueceu?

Bai Nuosso Senhor anton puxou-le pulas oureilhas, até que quedou culas oureilhas grandes i dixo-le assi:

- Tu és burro! ... que já não te lembras do teu nome! ...

I apuis l burro quedou-se a chamar burro i siempre culas oureilhas grandes.

Apesar do castigo de Deus pelo nome e pelas orelhas grandes, parece que o burro ainda ficou com esperteza suficiente para enganar seres tão espertos como o diabo. Essa é uma história que também visa mostrar às pessoas que se um burro enganou o diabo também elas serão capazes de tal feito, encerrando uma lição de confiança para vencer o mal e a sua personificação máxima, o diabo. A história é a seguinte[3]:

Ua beç ua burra tubo un burrico. Apuis, deili a trés dies que naciu, iba yá cun sue mai pa l cerrado. Apuis, andaba a saltos i a brincos no cerrado, pulhí. Apuis, passou eili l diabro i biu l burrico a dar saltos i brincos tan altos cumo la burra sue mai. I diç l diabro alhá para cun el todo admirado:

- Ai!, aquel burrico inda naciu há trés dies i yá salta tanto! ... Quando chigar a tener binte anhos, aposque dá saltos tan altos cumo l campanairo!?... Bou-me a lhebá-lo para casa.

Apuis l diabro lhibou l burrico pa sue casa i dou-le muito a comer i tratou-lo mui bien. Siempre mui bien. Quando chigou als binte anhos, yá l burro era bielho. Botou-lo fuora de l palheiro i l burro quaije nun se mexie. Pus yá era bielho! I diç anton l diabro pa l burro:

- Ora tu si que m’amoleste!

Ye la purmeira beç que l diabro, que se cuida tan spierto, se deixa anganhar dun burro.

Em conclusão, o burro é uma criatura de Deus, como todos os outros animais. Foi criado com funções específicas, pois Quien ten burra i anda a pie, mais burra ye. Daí que tudo fique mais no seu lugar se essa tiver sido a vontade de Deus que, diante da burrice e teimosia do animal, perdeu a paciência e teve de lhe puxar as orelhas. Porém, aquele mito fundador ensina-nos que há alguém mais estúpido que o burro, tão estúpido que trocou o céu pelo inferno, e esse alguém é o diabo e ensina-nos também que a vitória dos mais fracos sobre os mais fortes é um dado.

Também o homem muitas vezes perde a paciência com o burro e, sobretudo, com a sua vida. Nesses casos, o burro apenas cometeu o ‘crime’ de ser o companheiro que está mais perto e que, ensinou-lho a experiência, não há perigo de se colocar contra ele. É toda esta relação de grande complexidade e não linear, como pode parecer à primeira vista, que é espressa pelos ditos dezideiros mirandeses.

 

Amadeu Ferreira

 

 

 

Anexo

 

Ditos dizeiros mirandeses onde aparece a palavra burro ou um sinónimo

 

01. A burro dado nun se mira al diente.

02. A pensar morriu-se un burro.

03. Adonde hai un burro muorto nun fáltan cuorbos.

04. Bozes de burro nun chégan al cielo.

05. Burro bielho nun toma andadura.

06. Burro bielho pouca berdura.

07. Burro grande, nin que nun ande.

08. Cada burro cun sue teima.

09. Caim matou Abel cun ua carrelheira dun burro.

10. Carga feita, zancarrega tou polhino.

11. Cheirou-le cumo cuorbos a burro muorto.

12. Debagar se baia l loinge, mais burro (bien boubo) ye quien se mata.

13. Apuis de l burro albardado qualquiera un l monta.

14. Fazer las cousas an riba de la burra.

15. Ir de cabalho para burro.

16. L burro an casa faç falta, mas naide le quier dar de comer.

17. L burro que mais trabalha nun ye l que melhor albarda trai.

18. L que ampreinha la mulhier an Outrubre bai pa la segada cul burro.

19. La sprança era berde, staba an riba dun cardo (carro), bieno un burro i comiu-la.

20. Mais bal pequeinho i duro que grande i burro.

21. Márcio nun quier l rabo de l burro molhado, mas se fazir falta, oureilhas i todo.

22. Naide puxa l rabo de l burro cumo l duonho.

23. Naide puxa melhor l rabo de l burro que l própio amo.

24. Nun hai naide melhor que l amo para falar de l sou burro.

25. Para adonde bai l burro, que baia l’albarda.

26. Para adonde bai l burro, que baia l’albarda i para adonde bai l’albarda, que baia Jesé.

27. Por bias de l burro, palos na albarda.

28. Quando l burro mudar l diente, yá puode ir al prémio.

29. Quando nace ua silba hai lhougo un burro pa la rober.

30. Quando un burro fala, ls outros scúitan.

31. Quando un burro meija, a todos le dá ambeija.

32. Quanto más grande, maior burro.

33. Quien burros agabou, nunca cun bacas lhabrou (arou).

34. Quien fai bersos sin querer, ye burro a baler.

35. Quien parte i reparte, i nun queda cun la melhor parte, ou el ye burro, ou nun ten arte.

36. Quien tem burra i anda a pie, mais burra ye.

37. Ser probe nun ye defeito, mas ser probe i burro ye l pior defeito que puode haber.

38. Tengo ua gana cumo un cigano de furtar un burro.

39. Tu que antendes, mira a ber se la mie burra stá salida.

40. Ye cumo l burro de Juan Brás, an beç de ir al palantre, bai al para trás.

 


 

[1] Vd., quanto a esse e outros aspectos, tomando como referência a galinha, o trabalho de Ana Paula Guimarães, Cuidar da Criação. Galinhas, galos, frangos e pintos na tradição popular portuguesa, ed. Apenas Livros, Lda, Lisboa, 2002.

[2] António Maria Mourinho, Terra de Miranda. Coisas e Factos da Nossa Vida e da Nossa Alma Popular, Miranda do Douro, 1991, p. 297.

[3] António Maria Mourinho, ob. cit., pp. 297-298.

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