Domingo, 10 de Abril de 2011

Ernesto Rodrigues: intervenção no lançamento de Ls Lusíadas em Lisboa, dia 18 de Novembro de 2010, no Centro Nacional de Cultura

 

Entrei a ouvir Mirandês por via de colegas e amigos na adolescência. Tarde li os Estudos de Philologia Mirandesa (1900), de José Leite de Vasconcelos, e as visitas que este fez às fontes, em 1883 e 1884. Ao aproar, em cima de um burro, a Duas Igrejas, o Mestre invocou Vergílio: «hic domus, haec patria est… não a minha», avisou, «mas a do mirandês, que eu ia estudar». Um dos seus discípulos e testamenteiros, Orlando Ribeiro, que ainda conheci na nossa comum Faculdade de Letras de Lisboa, resumiu assim esse traço: «O Mirandês e as Tradições ilustram uma das principais facetas da vida científica de Leite de Vasconcelos – a extrema precocidade e a fidelidade, durante sessenta anos, às predilecções que constituem as suas principais linhas de pesquisa.» (Diário de Notícias, Lisboa, 7-II-1982)

 

A história da língua veio sendo contada, e dinamizada, por poucos, já na senda de António Maria Mourinho, que, em 1941, ano da morte de Leite de Vasconcelos, é convidado por Álvaro Pinto a colaborar na Revista de Portugal sobre fonologia mirandesa, vinte anos antes do título-charneira Nossa Alma i Nossa Tierra (1961). No lapso de 1971-1973, no semanário Mensageiro de Bragança, retomou o padre Mourinho a etnologia mirandesa e lições do Abade de Baçal. Sobre a história do idioma, entretanto, assinaria aí, em 1986, balanços suficientes sobre “Alguns cultivadores da língua mirandesa» (26-IX-1986; desce às notas de viagem a Miranda do seiscentista Manuel Severim de Faria); corrobora Menéndez Pidal e o sueco Erik Ataaft (1913) nas abordagens ao dialecto leonês; e, sobretudo, homenageia (Mensageiro de Bragança, 3-X-1986) Leite de Vasconcelos e o seu labor desde 1882, ano em que se estreava nestas lides com O Dialecto Mirandês (dito, já, no Mapa Dialectológico elaborado entre 1893 e 1897, co-dialecto, antes de o assumir língua, «idioma regular», no 1.º volume de De Terra em Terra, 1927).

 

Interessa-nos o segundo opúsculo, Flores Mirandesas (1884), com oitavas d’Os Lusíadas[1], e respectiva Proposição, saída em O Mirandês (1894), tudo acrescentado (incluindo excertos de teatro e de carta) no volume II (1901), IV parte, intitulada “Camoniana mirandesa”, de Estudos de Philologia Mirandesa.

 

Quer o soneto “Alma minha gentil que te partiste”, quer as endechas de “Aquela cativa” são comentados em artigo de Justino Mendes de Almeida[2], que antevê o «destino fatal do Mirandês, sujeito a desaparecer como língua literária e de comunicação, mais tarde ou mais cedo» (p. 158). Tanto pessimismo corroborava artigos de Imprensa, mais apocalípticos do que esperançosos. Assim, para memória passada, veja-se o Diário de Notícias de 10-I-1977, que titulava: «A fala mirandesa em vias de extinção»; mas o Expresso de 18-X-1980 anunciava: «Miranda do Douro – o despertar de um sono de 200 anos». O mesmo Diário de Notícias, em 21-III-1982, punha na boca de António Mourinho: «Mirandês pode desaparecer nos próximos 50 anos»; mas, em 5-XII-1993, afirmava, num desfasamento conceptual entre antetítulo e título: «Ensino escolar garante preservação do dialecto // Miranda do Douro / tem língua própria». Exceptuo destas hesitações as campanhas do jornal Planalto Mirandês (1986) e a coluna de Amadeu Ferreira, “Cumo quien bai de camino”, no jornal Público, sem já falar na sua larga colaboração no semanário Nordeste, onde fez a mão para o seu opus camoniano. Lidas aquelas notícias tremendistas, não temos a sensação de que se vai vencendo um pesadelo?

 

Recordo a precedência, pois, de Leite de Vasconcelos na tradução para Mirandês, também, do Camões épico, segundo descrição, algo desordenada, que desse labor fez Justino Mendes de Almeida. E comparemos duas estâncias do canto III, 20-21, não registadas por este camonista:

 

Eis aqui, quase cume da cabeça

De Europa toda, o reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa

E onde Febo repousa no Oceano,

Este quis o Céu justo que floreça

Nas armas contra o torpe Mauritano,

Deitando-o de si fora, e lá na ardente

África estar quieto o não consente.

 

Esta é a ditosa pátria minha amada,

À qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.

Esta foi Lusitânia, derivada

De Luso ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros,

E nela antam [então] os íncolas primeiros.

 

Leite de Vasconcelos deu um título – Pertual // (Camões – Lus. III, 20-21) –, dedicado


A Trindade Coelho

 

A sua tradução, datada de Tierra de Miranda, 8 de Setembre de 1884, é esta:


Bede-lo, quaije n’alto d’la cabeça

D’l’Ouropa toda l reino Lusitano,

Donde la tierra acaba i l mar ampeça

I donde Febo drume n’Ouceano.

L cielo quijo q’esta eiqui floreça

Nas armas contra l bruto Mouritano,

Botando-lo de si, i nien l deixando

Alhá, n’África, star la paç gozando.


Ye esta la mie pátria mui amada:

Se a eilha me lhebar l Cielo amigo,

Cun toda la mie obra yá acabada,

Apague-se esta lhuç ende cumigo!

Fui datrás Lusitánia, assi chamada

De Luso ou Lysa, que de l Baco antigo

Éran filhos, parece, ou cumpanheiros,

I antre ls sous habitantes ls purmeiros.

 

Porque não estamos em aula de tradução, e, no meu prefácio, exarei considerações sobre alguns passos da aqui presente, fico-me por estes 16 versos para comparação, com que mais sobressai um bem dificultoso exercício, face a Mestre José Leite de Vasconcelos. A tradução dos 8 816 versos d’Os Lusíadas é, em Fracisco Niebro, muito próxima da letra do original, mesmo se comparada com traduções em prosa. Farei curto exercício de análise comparativa.

 

O díctico ‘Eis aqui’ = Eiqui stá, transforma-o Vasconcelos em ‘Bede-lo’: o que, além, é afirmativo, mesmo impositivo, troca-se em acto volitivo, apesar de imperativo, ‘Vede-o’, forma, aliás, comum no Poema, no que isso comporta de repetição agora escusada.

 

Em vez do nome ‘cume’, bem dado por ‘crona’, ‘coroa’, Vasconcelos prefere um lugar onde, ‘n’alto’, diluindo a força da nossa posição geográfica.

Em ‘repousa’, ‘çcansa’ é bem diferente, para melhor, de ‘drume’.

 

Infelizmente, ambos omitem ‘justo’, quando, desde Ourique (presente na derradeira estância do Poema), Portugal é uma criação desse ‘Céu justo’.

 

Divergem em guerras / armas (este em Vasconcelos, à letra), letra que recupera Niebro em ‘torpe’, contra ‘bruto’, adjectivo mais animalesco, sem coloração moral. Vasconcelos omite ‘ardente’, o que transforma a rima emparelhada, vv. 7-8, em ‘-ando’, contra o original seguido em Niebro, ‘caliente / giente’.

 

A segunda estância é muito semelhante em ambos. Mas o primeiro verso é decisivo, e um dos mais importantes da nossa língua: «Esta é a ditosa pátria minha amada».

 

Vasconcelos secundariza outro díctico, ‘esta’, que Niebro coloca logo à entrada, respeitando, assim, o paralelo ‘Eis’ / ‘Esta’, com sílaba métrica na primeira. Pior, porque precisa de uma sílaba, Vasconcelos transforma ‘amada’ em ‘mui amada’, mas acaba de omitir um adjectivo fundamental associado à ideia de pátria, ‘ditosa’. Conseguem ambos, todavia, um decassílabo que Camões tirou a ferros, pois, para haver cesura em ‘pá-‘, temos de encaixar ‘Esta é a’ em duas sílabas, lendo ‘Es / téa’.

 

Em 1900, concluía Leite de Vasconcelos que «o grau de vitalidade do mirandês é pequeno; de um lado, quasi lhe falta absolutamente litteratura; do outro, o povo que se serve d’elle vae-o desaprendendo, sob a influência de condições variadas.» (p. 162-163) Sabemos, hoje, da existência de um corpus literário significativo em Mirandês, em todos os géneros, não sendo pouco para espantar a peça em três actos Saias (1938), de Alfredo Cortez, sobre costumes dessa terra, e na sua língua; mas nenhum título se aproxima do agora apresentado, facilmente entendível, sem evitar as dificuldades já patentes no original. Deve, assim, o leitor resolver dúvidas nas notas de uma edição em Português. E, sabido que o Português moderno arranca em 1572, pergunto-me se esta tradução não constituirá, também, um marco no tocante ao desenvolvimento da segunda língua nacional.

 

Ernesto José Rodrigues

Lisboa (Centro Nacional de CUltura), 18 de Novembro de 2010

 

 



[1] As Flores… são saudadas n’O Imparcial de Coimbra (Novembro de 1884), onde pontifica Trindade Coelho (ver Correspondência, ed. cit., p. 92).

[2] “Camoniana mirandesa”, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Lisboa, UAL, 1996, p. 157-166.

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