Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Ls Quatro Eibangeilhos - Tradução de Amadeu Ferreira. Apresentação

 

[Deixa-se eiqui la apersentaçon feita pul doutor António A. Pinelo Tiza na apersentaçon de Ls Quatro Eibangeilhos an Bergáncia, Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, die 27 de Nobembre a a las 15:00]

 

 

                Foi-me dada a distinta honra de apresentar em Bragança esta obra que é a tradução para a língua mirandesa dos Quatro Evangelhos – Ls Quatro Eibangeilhos – que é, como sabemos, o livro sagrado basilar do Cristianismo. Um trabalho com a assinatura de Amadeu Ferreira que me convidou para dizer estas duas palavras de apresentação que, embora indigno, aceitei com todo o gosto e agradeço. Digo indigno sem falsa modéstia porque, na verdade, não sendo oriundo das Terras de Miranda, não conheço a língua mirandesa com a profundidade que se exige para o efeito. Estou convencido que foi a amizade que nos une desde os primeiros tempos do seminário, que em conjunto frequentámos, até à faculdade onde nos licenciámos em Filosofia. Haveria, mesmo aqui em Bragança, outras pessoas mais bem qualificadas para fazer esta apresentação. Por isso, meu caro Amadeu, muito obrigado por esta honra que me concedeste.

            Amadeu Ferreira dispensa apresentações, aqui em Bragança como em qualquer parte do País, pela obra que tem vindo a realizar em prol da sua língua materna que, em boa verdade, é o Mirandês e não o Português. E não só (veja-se a orelha da contra-capa).

            Quando digo que não conheço o Mirandês estou a lembrar-me da expressão que os mirandeses usam: o mirandês tem que se mamar, o que não aconteceu comigo, salvo algumas palavras que se usavam e usam pelo povo rural em toda esta região do Nordeste. José Leite de Vasconcelos, esse grande vulto da Filologia Mirandesa e Portuguesa, refere, a este propósito: “Toda a fronteira de Trás-os-Montes oferece ao exame do investigador uma notável série de linguagens, que em muitos casos se relacionam umas com as outras por quase insensíveis pontos de transição” (Estudos de Filologia Mirandesa). Parece que esses vocábulos populares nada mais são do que resquícios do antigo Leonês que, tal como o próprio Mirandês, continuam em uso nestas terras de fronteira. Mas isso não é suficiente para que possamos dizer que também aqui se fala este idioma. Bem pelo contrário. Nos nossos tempos de jovens estudantes do seminário, fui uma vez passar uns dias a casa do Amadeu em Sendim. E a verdade é que aquela forma de falar me soava a algo muito estranho. Lembro-me, por exemplo, de sua mãe lhe dizer para se “peinar” (pentear), “que íbamos a cenar”, os “caminos” e tantas outras…

            Mas não será pelo facto de o Português ser para os mirandeses a sua segunda língua que o Amadeu não fez a tradução dos Quatro Evangelhos a partir do Português; ou não fosse o Português, tal como para Fernando Pessoa e para todos nós, a sua Pátria. Disso podem estar seguros. Estou seguro de que ele ama tanto a língua portuguesa quanto a portuguesa. Não foi ele que traduziu a nossa maior obra poética – Os Lusíadas? E haverá obra mais difícil de traduzir do que esta? Sabemo-lo bem desde os tempos em que tínhamos que a interpretar. Mais ainda: escreveu obras em ambas as línguas, como Tempo de Fogo, aliás, La Bouba de la Tenerie, que são uma e a mesma obra, um romance, que não propriamente a tradução do Português para o Mirandês, ou vice-versa. São a mesma obra escrita nas duas línguas. Ou ainda Stória dua Lhéngua i dun Pobo, igualmente nas duas línguas. Haverá no mundo algum outro autor que tenha escrito as suas obras em duas línguas? Talvez haja, mas contar-se-ão pelos dedos e eu não conheço nenhum.

Amadeu traduziu os Evangelhos a partir do Latim – a Vulgata de São Jerónimo – a primeira tradução do Grego (língua em que foram escritos) para a língua franca daquele tempo, a língua do Império Romano a que todos os povos do Mediterrâneo, e não só, pertenciam. A edição é a chamada Nova Vulgata, ratificada pelo Concílio Ecuménico do Vaticano II, reconhecida pelo Papa Paulo VI e promulgada por João Paulo II. Não é, portanto, uma qualquer edição mas sim aquela que está oficialmente reconhecida pela Igreja Católica. Todos estes detalhes de procedimento (que não são detalhes), suponho que nos levam a considerar que Amadeu se recusou categoricamente a ser um tradutor-traidor (il tradutore è un traditore). Suponho, repito, a forma mais adequada de não trair o pensamento dos autores, pensamento que é tão somente a base da doutrina cristã, era ir às fontes mais recuadas e acessíveis e, ao mesmo tempo, reconhecidas – a versão latina, já que a grega não estaria ali à mão de semear. Além disso, ambos nós estudámos Latim e Grego. De Latim foram uns oito anos, de grego, três. Deste, do Grego, pelo menos em mim pouco resta (já passaram 40 anos). Dos oito anos de Latim, bastante mais ficou. Está aqui patente a prova do que afirmo. O Amadeu tem melhor memória e, por isso, tem bem presente o seu conhecimento. Se assim não fosse, não estaríamos agora aqui a apresentar a versão mirandesa dos Quatro Evangelhos. Ou estaríamos – uma tradução a partir do Português – correndo o risco de termos, perante nós, um traidor do pensamento dos quatro evangelistas.

Não basta ter conhecimento da língua para se ser um bom tradutor. É necessário saber da matéria, do objecto intrínseco da obra, que é como quem diz, da sua correcta interpretação. Só então se está preparado para escolher as palavras, as expressões adequadas. Que o pensamento do autor seja devidamente expresso. Ora, o Amadeu sabe da matéria em questão. Ambos estudámos os Evangelhos, numa cadeira designada Sagrada Escritura que, por ser o que mais interessava, incidia fundamentalmente no Novo Testamento. Já nessa altura, escrevíamos artigos numa revista, que era dos alunos, intitulada RADAR (cuja colecção pretendemos agora recuperar, mas só conseguimos ainda um número), sobre esta e outras disciplinas teológicas. Posso dizer que, nos estudos que publicávamos, exprimíamos ideias novas e avançados, que vinham na sequência da abertura levada a cabo pelo Concílio do Vaticano II.

Voltando ao Mirandês, convém acrescentar que, mantendo esta língua em uso palavras ditas “antigas”, está mais próxima do Latim do que o Português. Cito Leite de Vasconcelos: “Dizia ele [o seu amigo Branco de Castro]: - “Isto é uma gíria de pastores, uma fala charra, não tem regras, nem normas!”. Mas, quando eu lhe mostrava que as correspondências dela com o Latim eram certas, que a conjugação seguia com ordem, - ele pasmava, e admirava-se que entre os cabanhaes de Genísio, e em meio dos hortos de Ifanes se pudesse ter feito cousa tão regular como era a língua que os velhos cabreiros lhe haviam ensinado em pequeno. E também se entusiasmava, e começava comigo a venerar esta deserdada e perdida filha do Latim” (p. 5).

A título exemplificativo, vejamos então uma passagem do Evangelho de João.

             1 Iesus ergo ante sex dies Paschae venit Bethaniam, ubi erat Lazarus, quem suscitavit a mortuis Iesus. 2 Fecerunt ergo ei cenam ibi, et Martha ministrabat, Lazarus vero unus erat ex discumbentibus cum eo.
3 Maria ergo accepit libram unguenti nardi puri, pretiosi, et unxit pedes Iesu et extersit capillis suis pedes eius; domus autem impleta est ex odore unguenti.
4 Dixit autem Iudas Iscariotes, unus ex discipulis eius, qui erat eum traditurus:
5 “ Quare hoc unguentum non veniit trecentis denariis et datum est egenis? ”.
6 Dixit autem hoc, non quia de egenis pertinebat ad eum, sed quia fur erat et, loculos habens, ea, quae mittebantur, portabat.
7 Dixit ergo Iesus: “Sine illam, ut in diem sepulturae meae servet illud.
8 Pauperes enim semper habetis vobiscum, me autem non semper habetis ”.
(João, 12, 1-8).

            1 Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro, o que falecera e a quem Jesus ressuscitara dos mortos. 2 Ofereceram-lhe uma ceia. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele. 3 Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume. 4 Então um dos Seus discípulos, Judas Escariotes, filho de Simão, aquele que O havia de entregar, disse: 5 “Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres”? 6 Disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa, tirava o que nela se metia. 7 Respondeu Jesus: “Deixai-a, ela tinha-o guardado para o dia da Minha sepultura. 8 Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis”.

            1 Seis dies antes la Páscoa, Jasus fui-se até Betánia, adonde moraba Lházaro a quien el rucecitara de ls muortos. 2 Ende ouferecírun-le de cenar. Marta andaba a servir a la mesa i Lházaro era un de ls que stában a la mesa a par de Jasus. 3 Ende Marie, agarrando un arrate de ounguiento de nardo puro, mui caro, ountou-le la pies a Jasus i anxugou-se-los cul pelo deilha. La casa quedou chena cul oulor de l ounguiento. 4 Judas Simon Scariotes, un de ls sous deciplos, aquel que l habie de atraiçonar, dixo: 5 “Porque nun se bendiu este ounguiento por trezientos denheiros i se dou als probes?” 6 El falou assi nó por s’amportar culs probes, mas porque era lhadron. Cumo era el que andaba cula bolsa, roubaba l que se botaba alhá. 7 Dixo-le, anton, Jasus: “Deixa-la an paç, puis l guardou pa l die de l miu antierro. 8 Als probes siempre ls heis de tener cun bós, mas a mi nun me heis de tener siempre”.

Dies (dies)

Cena (cena)

Paç (pax, pacem); cruç (crux, crucem);

Stában (stábat); andaba; roubaba; botaba; ministrabat; había (habebat)…

Dixo (dixit) - disse

Seia (seat) - seja

Eilha (illa) - ela

Cun bós (vobiscum) – convosco

Ámades (ametis, diligatis)

An mi (in me) – comigo

Ámades (ametis, diligatis)

Lhuç – “Caminai anquanto teneis lhuç, para que la scuridon nun bos agarre, puis quien anda a las scuras nun sabe para adonde bai” (João, 12, 35). Sobressai bem nesta citação a abrangência da expressão: nun bos agarre, bem mais próxima do Latim, non vos comprehendat, traduzida em Português “não vos surpreendam”. Agarrar quer dizer envolver, possuir

 

            Outra citação do Evangelho de João, capítulo 15, esta já em si mesma carregada de uma rara beleza literária e não só – é a elevação do princípio formulado por Jesus ao mais alto grau do humanismo e que deveria estar presente em todas as religiões, para que elas pudessem cumprir o desígnio que lhes cabe e nem sempre acontece. Mas dito em Mirandês parece soar ainda mais íntimo, afectuoso, mais humano.

 

9 Sicut dilexit me Pater, et ego dilexi vos; manete in dilectione mea.
10 Si praecepta mea servaveritis, manebitis in dilectione mea, sicut ego Patris mei praecepta servavi et maneo in eius dilectione.
12 Hoc est praeceptum meum, ut diligatis invicem, sicut dilexi vos;
15 Iam non dico vos servos, quia servus nescit quid facit dominus eius; vos autem dixi amicos, quia omnia, quae audivi a Patre meo, nota feci vobis.
17 Haec mando vobis, ut diligatis invicem.

 

            9 Tal i cumo l miu Pai me amou, tamien you bos amei a bós; deixai-bos star ne l mil amor. 10 Se guardardes ls mius mandamientos, quedareis ne l mil amor; tal i cumo you guardo ls mandamientos de mil pai i me mantengo ne l amor del. 12 L mil mandamiento ye este, que bos ámades uns als outros, tal i cumo you bos amei. 15 Yá nun bos chamo criados, porque l criado nun sabe l que faç l amo del; mas tengo-bos chamado amigos, porque bos tengo dado a saber todo l que oubi de miu Pai. (…) L que bos mando ye que bos ámades uns als outros”.

                Não se diz que o Mirandês é a língua dos afectos ou, como refere Leite de Vasconcelos, “a língua do lar, do campo e do amor”? (p. 12). Pois bem. É esta a sensação que nos fica ao lermos ou ouvirmos ler (para os que não a sabemos falar como deve ser) este basilar mandamento de Cristo e do Cristianismo.

            Suponho que estas duas citações serão suficientes para compreendemos o alcance deste trabalho de tradução dos Quatro Evangelhos – o livro sagrado por excelência do Cristianismo.

 

Para uma tradução isenta, em relação ao autor, e compreensível para os leitores ou ouvintes, para além das citadas exigências (conhecimentos das línguas e das temáticas em questão), é imprescindível conhecer em profundidade o povo que fala a língua e adoptar as expressões mais adequadas a cada contexto em concreto; apenas dois ou três exemplos:

            “Yá nun bos chamo criados” (João 15, 15). Criados e não servos. O primeiro vocábulo é o mais aceitável em Mirandês e não servos, como aparece na tradução portuguesa. No povo mirandês não se praticava a escravatura para a qual nos remete o termo servo; isso era coisa dos nobres. Este será, portanto, um exemplo de como não basta conhecer a língua e a matéria em causa (a que se traduz), mas também o povo a que se destina, que o Amadeu conhece como ninguém. Por isso, aplica exactamente a terminologia mais compreensível e adequada.

            “Habeis de chorar i quedareis penerosos…” (João, 16, 20), frase traduzida em Português: “Chorareis e lamentar-vos-eis”. “Quedar penerosos”, cheios de pena, provavelmente terá, no povo mirandês, mais intensidade do que o verbo lamentar, usado na tradução portuguesa.

            Outro exemplo: “Tubírun-me senreira sien rezon” (João, 15, 25) – “Odiaram-me sem motivo”. O Amadeu sabe porque usou a palavra senreira em vez de ódio; o mesmo poderemos dizer de rezon, em vez de motivo. Talvez porque aquelas (senreira e rezon) têm mais força, acentuam mais o sentimento e a ideia que se pretendem expressar e, portanto, são as que mais se coadunam a este contexto.

            Outro ainda: “Darei porrada ne l pastor i las canhonas de l ganado ban-se a scapar cada una para sou lhado” (Mateus, 26, 31) – “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho dispersar-se-ão”. Qual destas duas formas terá mais força, qual será mais incisiva na ideia que se pretende transmitir?

 

            E por falar em língua de afectos, é gratificante constatar o uso frequente de diminutivos no Mirandês, como forma de expressar a afectividade. Se o Português é muito rico neste recurso linguístico, o Mirandês ainda é muito mais rico. Atendamos a esta citação do Evangelho de João, 16, 16-20:

            16 “Mais un pouquito i nun me bereis; i inda mais outro pouquito i tornareis-me a ber, porque you bou pa l Pai.”

            17 Ende, alguns de ls sous deciplos dezírun uns pa ls outros: “Que quiren dezir estas palabras” “Un pouquito i nun me bereis”; i “inda mais outro pouquito i tornareis-me a ber”; i tamien “porque me bou pa l Pai?” 18 Dezien assi: “L que quier dezir “un pouquito”? Nun sabemos l que stá a decir.”

            19 Jasus dou-se de cuonta que le querien preguntar algo i dixo-le: Preguntais-bos uns als outros subre l que you dixe: Un pouquito i nun me bereis i inda mais outro pouquito i tornareis-me a ber? 20 Lhembrai-bos bien de l que bos digo: Habeis de chorar i quedareis penerosos (…)”

            Toda esta ambiência está carregada de afectividade: Jesus que anuncia que vai para junto de seu Pai, a quem ama, os discípulos que ficaram apreensivos por se darem conta que iriam ficar sem ele, esta forma de não compreenderem ou não quererem compreender, por ser tão doloroso… É a nossa saudade.

             

            A terminar, a questão das traduções anteriores dos Evangelhos, um tema que Amadeu desenvolveu muito bem na sua intervenção em Lisboa, no acto de apresentação desta mesma obra (Blog Studos Mirandeses). Por isso me dispenso de aprofundar a questão e limitar-me-ei a umas breves referências, só mesmo para concluir.

            José Leite de Vasconcelos na obra Estudos de Filologia Mirandesa, refere a tradução feita por Bernardo Fernandes Monteiro, em finais do século XIX, de alguns capítulos do Evangelho de São Lucas e a Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios. Estes textos foram publicados na Revista de Educação e Ensino. Mais tarde, o mesmo Bernardo Monteiro acabou por traduzir os Quatro Evangelhos, que se encontram manuscritos. Desta tradução foram publicados, em 1897, apenas alguns trechos, pela mão de Trindade Coelho (outro amante da língua mirandesa), ao tempo considerada um dialecto, no jornal O Repórter.

            António Maria Mourinho, sacerdote, historiador e mirandês, já nos anos 80 do século passado, traduziu para Mirandês e publicou no Mensageiro de Bragança alguns trechos dos Evangelhos, com objectivos litúrgicos, segundo o próprio Amadeu Ferreira. Ficamos sem saber se chegou a utilizá-los em alguma cerimónia litúrgica. Se o foi, talvez alguém se lembre disso. Seria interessante investigar no terreno, isto é, nas paróquias por onde ele passou.

            Não sei qual teria sido a fonte que serviu de base a estas traduções, se foi o Latim (a Vulgata) ou o Português. O que sabemos é que a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa não tinha sido assinada, o que só veio a acontecer em 1999, um facto decisivo para a sua afirmação e reconhecimento como língua – a nossa segunda língua oficial. Um facto que outras línguas minoritárias invejam por não o terem conseguido, apesar dos esforços que os povos seus falantes têm desenvolvido. Agora, esta obra que hoje aqui nos é apresentada por Amadeu Ferreira tem a garantia de um estudioso competente de ambas as línguas, da fonte fidedigna na qual se fundamentou, da matéria em questão e do conhecimento profundo dos seus principais destinatários – o povo mirandês, ao qual ele pertence.

            Já depois da Convenção, Amadeu Ferreira começa traduzir e publicar trechos dos Evangelhos no Mensageiro de Bragança. Desta feita, sabemos que este trabalho foi realizado com base no texto latino da Vulgata e, obviamente, observando as normas da Convenção, em cuja feitura ele próprio participou.

            Prosseguiu o trabalho iniciado em 2002, para agora o terminar e no-lo apresentar. Pelo meio, como sabemos, escreveu e traduziu as obras de que temos conhecimento. Desde as primeiras traduções, foi preciso esperar mais de um século até que pudéssemos dispor desta obra em Mirandês – o livro sagrado da doutrina cristã.

            É minha convicção de que, assim como a tradução de Os Lusíadas deu um impulso decisivo para a afirmação do Mirandês como língua oficial em Portugal, também a tradução dos Quatro Evangelhos dará o mesmo contributo perante a Igreja e os fiéis católicos mirandeses e portugueses em geral.

            Termino formulando dois votos.

            O primeiro é um repto ao Amadeu – a tradução de todo o Novo Testamento. Digamos que o mais difícil está feito. Agora faltam “apenas” os Actos dos Apóstolos, as cartas às muitas comunidades de cristãos de Paulo, João e Judas (que não o Escariotes, mas o santo) e o Apocalipse de João, esse belíssimo e esotérico livro final.

            O segundo voto. Sendo o Mirandês língua oficial e sendo o Evangelho a Palavra de Deus, pois que passe esta palavra a ser proclamada nesta língua nos actos litúrgicos. O momento parece-me o mais oportuno: um bispo jovem e aberto à modernidade, natural da diocese e, portanto, sensível às idiossincrasias culturais do rebanho que apascenta. Necessitaremos de sacerdotes sabedores desta língua? Por certo. Os que são oriundos das Terras de Miranda, mais ou menos jovens, hão-de dominá-la porque de crianças a aprenderam, mesmo que a não tenham estudado, como agora acontece. Aos restantes, nada mais que pedir-lhes este esforço apostólico.

            Ao Amadeu Ferreira, as minhas homenagens, em meu nome pessoal e, se me é permitido, em nome também da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

            Bem hajam.

 

António A. Pinelo Tiza

Bragança, 27 de Novembro de 2011

puosto por fracisco n. às 02:11
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Intervenção do professor Aires Nacimento

 

 

 

Interveção do Professor Aires Nascimento no lançamento de Ls Quatro Eibangeilhos, (em formato .pdf) pode ser lida aqui.

 

 

 

 

 


puosto por fracisco n. às 23:31
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Domingo, 13 de Novembro de 2011

Anterbençon ne l salimiento de LS QUATRO EIBANGEILHOS (Lisboua)

 

1. Anque hounesto, este ye un sfergante special pa la lhéngua mirandesa, pa la bibliografie de la Bíblia i pa la cultura pertuesa. Fui cumo ato de cultura, hai que lo dezir, que fiç esta traduçon de Ls Quatro Eibangeilhos i la fui podando i apurando al lhargo de bários anhos. Anque se puoda çcutir quales son ls aliçaces de la nuossa cultura, la que chamamos oucidental, cuido que nien aqueilhes que nun son crentes, cumo ye l miu caso, poneran an dúbeda l’amportança de Ls Quatro Eibangeilhos a esse nible. Bien sabemos de la lharga cumbibença, por muitos modos, cun estes testos seia de ls mirandeses seia la mie an special que, por un cachico mais de onze anhos stube ne ls seminários de Benhais i de Bergança, antre 1961 i 1972 [Deixai-me fazer eiqui un paréntese: las bidas que un die bibimos, i cuido que podemos tener mais bidas do que ls gatos,  nun hai que fazer de cuonta que las squecemos i assi querer-las scunder, hai que las aporfelhar puis ye esse l solo modo de las mirar de caras.] Antoce, era neçairo Ls Quatro Eibangeilhos que pudíran ser lidos an mirandés, cada pessona ou anstitutiçon le dando l uso que antenda mais al modo. Ye agora ampossible que alguien querga negar que la lhéngua mirandesa ye ua lhéngua de quemunicaçon para todos ls temas i oucasiones i, para aqueilhes que nel acradíten, tamien ua lhéngua de falar cun Dius.

 

 

2. Ye sabido que l mirandés, assi cumo las lhénguas de la familha stur-lhionesa, ten la sue ourige ne l lhatin, habendo-se formado zde ls remanses que se fúrun acamando al lhargo de seclos na zona acupada puls pobos stures, nun purmeiro tiempo agarrando l bielho reino de Lhion, se ende nun cuntarmos la zona galhega. Ls Quatro Eibangeilhos habien de haber sido traduzidos zde l oureginal griego, mas l miu saber de griego nun dá para tan lhargo tranco. Por esso se me pareciu natural agarrar cumo punto de salida l testo lhatino de la VULGATA, dado cumo sendo de San Jerónimo que, por pedido de l papa Dámaso I, haberá feito la traduçon ou al menos parte deilha, antre la fin de l seclo IV i ls ampeços de l seclo V. Esta traduçon lhatina fui oufecializada pul Cuncílio de Trento (1546), la chamada Uulgata Clementina. L Papa Paulo VI, apuis de l Cuncílio Baticano II, mandou reber esse testo, quedando la nuoba bersion acabada an 1979, que zdende quedou coincida cumo Noua Uulgata. Fui nesse testo que assentou esta mie traduçon, feita antre 2002 i 2004, bárias bezes rebista até al die an que passou a l’ampresson.

 

Las anfluenças que se le podien apegar zde l pertués quedában assi arredadas, indo l mirandés a buer na sue mais clarica fuonte. La prossemidade antre algun bocabulairo mirandés i l lhatin ye tan grande que nun ye percisa qualquiera traduçon, mas ye subretodo al nible sintático que ls peligros de anfluença siempre fúrun mais grandes. Por estas rezones, esta traduçon puode ser tamien amportante na eibeluçon de l mirandés screbido, puis custitui mais ua stada, bien pequeinha que seia, ne l refuorço dua lhéngua que, cumo ye sabido, nun tubo ouportunidade de passar pul sou Houmanismo i l sou Renacimiento.

 

 

3. Splicada la ouportunidade de traduçon de Ls Quatro Eibangeilhos para mirandés i las bantaiges lhigadas a la traduçon feita zde l lhatin, cuido ser ouportuno deixar eiqui un teçtemunho público subre la bibliografie mirandesa de la Bíblia, yá que nun ye coincida de l público i até nien de ls própios mirandeses. Nessa bibliografie hai que retener trés nomes: Bernardo Fernandes Monteiro na fin de l seclo XIX, António Maria Mourinho na fin de l seclo XX i you própio, Amadeu Ferreira, ne ls ampeços de seclo XXI. Tamien se soubo la ambora de que Domingos Ferreira, a bibir an Zenízio, habie traduzido la Bíblia para mirandés, habendo apersentado seis belumes screbidos a mano ne l Museu de Miranda an 2009, mas la berdade ye que essa traduçon nun ye coincida para eiqui se poder falar deilha, sendo cierto que l sou outor la apersentou cumo habendo sido feita zde l pertués. Bamos, antoce, a ber, de modo algo menudo, ls cuntributos pa la traduçon de la Bíblia, que coincemos, eiqui se fazendo un punto de la situaçon.

 

 

 

[O trabalho de tradução de Bernardo Fernandes Monteiro]

 

4. As primeiras traduções conhecidas de textos da Bíblia para mirandês foram feitas por Bernardo Fernandes Monteiro. O manuscrito com a tradução, que se conserva no Museu de Arqueologia, em Lisboa,  é datado do Porto e nele se inscreve o ano de 1896. A obra é oferecida «Ao meu muito prezado primo Manuel Ferreira Deusdado em penhor de profunda sympathia e affectuosa estima». Trata-se de um texto que apenas descobri em 2009, quando já tinha integralmente traduzido Ls Quatro Eibangeilhos. Da leitura que da obra pude fazer penso que seria importante o seu estudo, embora em muitos aspectos Bernardo Fernandes Monteiro se tenha dixado influenciar mais que o razoável pela edição portuguesa da obra. Apesar disso é o mais importante monumento literário escrito do mirandés do século XIX, sendo impensável o estudo da língua sem a esse documento recorrer. Espero que o esquecimento a que tem sido votado acabe muito brevemente.

 

É Trindade Coelho quem nos informa (Reporter, n.º 1509, de 01/01/1897): “a tradução mirandeza é feita rigorosamente sobre o texto portuguez do Padre António Pereira de Figueiredo, que traduziu segundo a Vulgata.” Diga-se que essa era a única edição integral da Bíblia em português na altura disponível, tendo a sua 1.ª edição sido feita em 1842, a que se seguiram várias reimpressões. Em geral, considera-se que era uma edição rigorosa. Faço notar que na altura não estava acessível entre nós a excelente tradução de João Ferreira de Almeida, feita a partir dos textos originais.

 

O destino do volume manuscrito de Bernardo Fernandes Monteiro é algo atribulado. Tendo sido oferecido a Manuel Ferreira Deusdado, passa para as mãos deste e sucessivamente para as de Trindade Coelho, de novo para Manuel Ferreira Deusdado e por fim para José Leite de Vasconcelos que o deixou no seu espólio, embora até há muito se desconhecesse o seu paradeiro. Quero aqui deixar público testemunho das jornadas de pesquisa que no Museu de Arqueologia comigo fizeram o José Pedro e a Mariana Gomes, que tudo fotografaram com grande rigor e profissionalismo, bem como o apoio prestado pelo pessoal da biblioteca desse Museu, em especial a sua directora da altura, dr.ª Lívia.

 

Tendo-a terminado em 1896, podemos perguntar quando começou Bernardo Fernandes Monteiro a sua tradução. Não sabemos e talvez nunca venhamos a saber ao certo. No entanto, alguns elementos conhecidos nos podem aproximar de uma resposta. Com efeito Manuel Ferreira Deusdado começou a publicar textos da Bíblia em mirandês, traduzidos por Bernardo Fernandes Monteiro, em 1894. Tal significa que a tradução terá começado antes dessa data. São dois os locais onde essas publicações foram feitas: a Revista de Educação e Ensino e o jornal diário lisboeta, Reporter

 

 

[A publicação das traduções de Bernardo Fernandes Monteiro na Revista de Educação e Ensino]

 

5. A Revista de Educação e Ensino [Vol. IX (1894), pp. 152-165, 252-265 i 500-507], dirigida por Manuel Ferreira Deusdado, publicou os dez primeiros capítulos do Evagelho de São Lucas, tudo indicando que Bernardo Fernandes Monteiro por aí tenha começado a sua tradução de Os Quatro Evangelhos.

 

Como nota relevante diga-se que o texto é precedido de uma introdução do grande filólogo Aniceto R. Gonçalves Vianna sobre o modo como deveria escrever-se o mirandês. Assim se fixa a primeira grafia do mirandês, funcionando esse texto como uma espécie de primeira convenção ortográfica da língua mirandesa.

 

Na mesma Revista de Educação e Ensino [Vol. IX (1894), pp. 182-184, portanto intercalada entre vários capítulos do Evangelho de Lucas] se publica também o capítulo VII da 1ª Carta de San Paulo als Coríntios. E apenas a tradução desse capítulo chegou até nós [essa epístola tem XIII capítulos], embora comece com o conhecido intróito «Paulo chamado apóstelo de Jasus Cristo por buntade de Dius a Sóstenes nuosso armano».

 

Destes textos retira José Leite de Vasconcelos vários exemplos para ilustrar a sua gramática mirandesa.

 

 

 

[A publicação das traduções de Bernardo Fernandes Monteiro no jornal Reporter]

 

6. No dia 29 de dezembro de 1896, Manuel Ferreira Deusdado escreve a Trindade Coelho, na altura redactor do jornal diário Reporter sob o pseudónimo de Ch-A.Hysson, a seguinte carta por este publicada no jornal Reporter n.º 1509, de 01/01/1897:

 

“Meu caro Ch-A.Hysson:

Visto te occupares das nossas cousas trasmontanas, acho bom que te não esqueças das tradições mirandezas, e principalmente da lingua. O meu primo Bernardo Fernandes Monteiro, por suggestão minha, começou a publicar em 1894 na ‘Revista de Educação e Ensino’, em versão mirandeza, a primeira epístola de S. Paulo aos Corinthios, e o Evangelho de S. Lucas. Ahi tens agora a tradução completa dos quatro Evangelhos, manuscriptos, em bello volume (...)

O distincto philologo e meu amigo, o sr. Gonçalves Vianna, desempenhou-se dessa tarefa, na minha Revista, em 1894. Ha em mirandez já muitos textos publicados, seguindo essa orthographia dos Evangelhos (...)

T.C. 29-XII-96. Ex toto corde: Ferreira Deusdado.”

 

Trindade Coelho passa a publicar, semanalmente, entre os dias 1 de janeiro e 7 de fevreiro de 1897, os trechos correspondentes ao Evangelho da missa de cada domingo. Inicia a publicação logo no dia de ‘Ano Bom’ de 1897, o 1º de Janeiro, com a seguinte introdução:

‘Desejo começar o novo anno, trazendo aos meus leitores, á litteratura e á religião do meu paiz uma novidade encantadora: e é que d’ora ávante lhes darei os evangelhos dos domingos e dias sanctificados, não em portuguez como até aqui, - mas n’esse querido e interessantissimo idioma mirandez, que se falla a dois passos da minha terra, em todo o concelho de Miranda do Douro, limitrophe do meu (...)

Ora é no idioma que elles falam, que eu passo, d’aqui por deante, a dar-lhes os Evangelhos. E de certo que é uma curiosidade inedita para a biographia da Biblia, saber que eu tenho em meu poder, admiravelmente copiados, em livro encadernado que tem 368 paginas grandes, e a duas columnas por pagina, os quatro Evangelhos: S. Matheus, S. Marcos, S. Lucas e S. João.

Auctor deste admiravel e carinhoso trabalho o sr. Bernardo Fernandes Monteiro, 1º aspirante da Alfandega do Porto, e mirandez. E por ser mirandez e muito intelligente, a sua traducção mereceu os gabos do notavel philologo sr. Gonçalves Vianna, e será, já agora, na historia da Biblia, um trabalho não só memorado, mas memorando ...

Veio ás minhas mãos o precioso manuscrito mediante a boa amizade de Ferreira Deusdado, que por ser transmontano, e dos melhores, e dos de lei, veio trazer ao meu carinho pela nossa terra o effusivo carinho que elle lhe dedica.

Bem haja elle; e como quer que seja muito interessante a carta que me escreveu, vou copiál-a para aqui, para que a história fique mais completa, e bem documentado, para a minha gratidão, o favor que me fez.”

 

Por este texto se vê como o ilustre escritor mogadourense percebeu bem a importância da tradução que tinha em mãos. Infelizmente, a tradução de Bernardo Fernandes Monteiro apenas foi redescoberta mais de 100 anos depois, sendo impossível avaliar o impacto que teria tido na língua mirandesa caso tivesse sido publicada em fins do século XIX, como ele desejava e lhe chegou a ser prometido.

 

 

 

[As traduções de António Maria Mourinho]

 

 7. Depois de BernardoFernandes Monteiro foi necessário esperar noventa anos para voltar a ver publicados alguns trechos de Os Evagelhos em mirandês. Tal feito deve-se a António Maria Mourinho, que também foi padre. Porém, apenas conhecemos a publicação de dois pequenos textos: «Prólogo do Evangelho de São João precedido de um pequeno comentário em português para a 3.ª missa do Natal» (Mensageiro de Bragança, 19.12.1987); «Os Evangelhos da Páscoa em mirandês, com um pequeno preâmbulo em português» (Mensageiro de Bragança, 31.3.1988).

 

Estas são os traduções de António Mourinho que conhecemos, mas admitimos que outros trechos por ele tenham sido publicados, em qualquer caso em muito pequeno número e com objectivos litúrgicos. Também não sabemos qual o texto que serviu de base a António Maria Mourinho para as suas traduções.

 

 

 

[O trabalho de tradução de Amadeu Ferreira]

 

[As traduções publicadas no Mensageiro de Bragança]

 

8. No dia 4 de janeiro de 2002 inicia-se a publicação de trechos de Ls Quatro Eibangeilhos em mirandês, no jornal semanal Mensageiro de Bragança. Apesar de já o fazer na nota de tradução com que abre o livro, quero mais uma vez e publicamente agradecer ao dr. Inocência Pereira, na altura director desse jornal, o ter possibilitado a publicação, apesar de poderosas forças na altura se terem oposto. A publicação do texto do evengelho dominical manteve-se semanalmente durante os anos de 2002 e 2003. Na introdução a essa publicação fiz a ligação com a publicação de trechos da tradução de Bernardo Fernandes Monteiro feita por Trindade Coelho no jornal Reporter, entre janeiro e Fevereiro de 1897. Já nessa altura eu falava de uma «fetura publicaçon antegral de Ls Quatro Eibangeilhos an mirandés». Igualmente se apontava o texto da Vulgata como base para a tradução que estava a ser publicada. Entre as pessoas que na altura me incentivaram a avançar com a tradução devo referir o cónego Francisco Moscoso, de saudosa memória e a quem aqui presto a minha homengam, e, por intermédio dele, o Sr. D. António Rafael, na altura bispo de Bragança e Miranda. Outras foram as pessoas que me tentaram dissuadir, nomeadamente dizendo que uma tradução como esta exigia especiais autorizações, mas o meu trabalho sempre foi voluntário e livre, não carecendo da autorização de quemquer que fosse.

 

 

 

[As traduções publicadas no blogue Cumo quien bai de camino]

 

9. No blogue Cumo quien bai de camino http://lhengua.blogspot.pt publiquei [entre 8 de abril e 24 de julho de 2007] a tradução de O Cântico dos Cânticos, que brevemente sairá em livro pela Editora Zéfiro com o título L Mais Alto Cantar de Salomon, com assinatura de Fracisco Niebro. A primeira versão desta tradução foi feita entre Outubro de 2002 e Fevereiro de 2003, tomando como base o texto de Cantar de Cantares de Salomon do profesor da Universidade de Salamanca Frei Luís de León, datado de 1571, e que levou o seu autor a ser preso pela Inquisição de Valhadolide por cinco anos. Tempos em que traduzir a Bíblia era muito perigoso!

 

No mesmo blogue iniciei, em 4 de outubro de 2007, a publicação da tradução de vários poemas do livro de Os Salmos. De cerca de metade [73] de Os Salmos já por mim traduzidos foram publicados 30 naquele blogue.

 

Já em agosto de 2011, no mesmo blogue se publicam trechos de O Livro de Job.

 

Todas estas publicações se inserem num projecto de tradução dos livros poéticos do Antigo Testamento.

 

 

 

[A edição da Sociedade Bíblica de Ls Quatro Eibageilhos]

 

10. Desde muito cedo o Dr. Timóteo Cavaco me fez chegar a sua vontade de se encontrar comigo, através de um aluno meu da Faculdade de Direito da Universidade Nova e seu amigo. Assim se deu o contacto, não sei precisar a data, mas em 2004. Desde a primeira hora, falámos da tradução de Os Evangelhos para mirandês. Através dele tive acesso a vários textos, entre eles a tradução de João Ferreira de Almeida, o texto da Nova Vulgata e o texto sinóptico em grego e em latim, que muitas dúvidas me ajudou a tirar. Foi também por seu intermédio que conheci o grande especialista da Bíblia professor Carlo Buzetti, da Universidade de Milão, com quem tive a oportunidade de almoçar na Casa do Alentejo onde me ofereceu uma bonita tradução piemontesa do evangelho de Mateus. Dele recebi a sugestão de seguir o texto da Nova Vulgata, o que me permitiu uma revisão do texto, tornado o texto traduzido mais solto e de uma sintaxe menos menos complexa, mas mais rigorosa.

 

Já há vários anos que a Sociedade Bíblica aguardava a entrega do texto para publicação, mas eu próprio fui adiando essa entrega, falhando prazos por mim próprio estabelecidos, preocupado com uma mais cuidada apresentação, uma mais rigorosa tradução, um mirandês mais elaborado e, por isso, mais popular. É dever do tradutor ser o mais possível fiel ao texto a traduzir, sem concessões à facilidade ou aos desvios da literalidade, numa atitude de rigor e de humildade que nos faz correr o risco de nunca acabar.

 

O produto aqui está, ainda com muitas imperfeições, mas que espero ter oportunidade de um dia o poder ainda melhorar. Muito obrigado à Sociedade Bíblica e, em especial, ao Dr. Timóteo Cavaco, pela sua ajuda, a sua paciência, o seu profissionalismo.

 

 

 

[O projecto de tradução de todo o Novo Testamento]

 

11. Existe um compromisso com a Sociedade Bíblica de traduzir todo o Novo Testamento para mirandês. Integrados nesse projecto contamos com muitos trechos de algumas epístolas já publicados no Mensageiro de Bragança. Neste momento está em curso de tradução, o Apocalipse. Neste empreendimento tenho contado com o apoio e incentivo do dr. Timóteo Cavaco. Mas só o tempo dirá se serei capaz, pois esse tempo será necessariamente longo. Todas as traduções, com excepção do já referido L Mais Alto Cantar de Salomon, assentam na versão latina da Noua Uulgata.

 

 

 

[Agradecimentos]

 

12. Ye ua honra tener eiqui a apersentar esta traduçon l senhor porsor doutor Aires Nascimento, nome maior antre ls maiores de ls studos clássicos griegos i lhatinos, mediabalista dua eirudiçon defícele de eiqui çcrebir, a quien la nuossa cultura i l’ounibersidade tanto dében. Agradeço-le de l coraçon l haber aceite l cumbite para apersentar esta traduçon para mirandés, ua lhéngua que nunca fizo parte de ls studos del. Mas bien se justeficaba este cumbite seia pul testo que ye traduzido seia pula lhéngua zde adonde fui traduzido. La sue perséncia eiqui ye ua honra mui grande para mi i pa la lhéngua mirandesa.

 

Mais ua beç eiqui s’apersentórun muitos amigos, mirandeses ou nó, benidos de muitas i bárias outras bidas mies. Cun esta son yá trés las bezes que ne ls redadeiros dous meses quejistes respunder al pedido de estar cumigo, nua jornada de cultura i de fiesta de la lhéngua mirandesa, mas tamien, sei-lo bien, de amisade. Ye esta que, mais que todo, me eimociona i me lhieba a dezir bien háiades. Pormeto nun bos tornar a sacar de buosso assossego al menos até al Natal que ende ben. Pa l anho pula cierta teneremos que amanhar outros modos de mos bermos.

 

La mie família, i ls redadeiros son ls purmeiros, Questina, Jesé Pedro (que stá Slobénia i nun puode star eiqui) i Juan, stubírun siempre cumigo, mais ua beç. Bien háiades, puis sien bós tamien nada desto serie possible.

 

Amadeu Ferreira

Lisboua, 12 de Nobembre de 2012

 

 


puosto por fracisco n. às 01:24
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

É POSSÍVEL A SOBREVIVÊNCIA DAS MICROLÍNGUAS NA EUROPA? O CASO DO MIRANDÊS

[Testo de la palhestra feita ne l IPB - Instituto Politécnico de Braganla, l die 28 de outubre de 2010, ne l Ancuontro Anternacional de Lhénguas - RECLES]

 

 

1.

Até há relativamente pouco tempo, Portugal era apresentado como o único Estado monolingue da Europa. O mirandês, embora existisse, era uma língua oculta. Apesar das alterações havidas nos últimos tempos, há ainda quem continue a manter a mesma atitude, inclusive nos meios universitários não nacionais, o que mostra bem como é forte a inércia que se agarra às ideias feitas que não sejam contraditadas de modo sério, generalizado e continuado. Tudo isso acontece, apesar de estar adquirido que o multilinguismo é a situação natural das comunidades humanas. Com efeito, em tudo, a regra é a diversidade, sendo o seu contrário algo de artificial, conseguido muitas vezes em longos tempos históricos e por processos quase nunca dignificantes ou pacíficos.

 

 

2.

O mirandês foi reconhecido como língua oficial (regional) de Portugal através de lei aprovada por unanimidade e aclamação pela Assembleia da República em 1998 [a lei n.º 7/99, publicada já em janeiro de 1999]. Faz agora 13 anos. Este reconhecimento foi um espanto para a quase totalidade dos portugueses, que ignoravam a existência de tal língua, e suscitou a curiosidade de algumas comunidades de outros países mais atentas a estas realidades das línguas. Os próprios mirandeses, habituados ao ridículo e à chacota que o falar a sua língua lhes trazia, olharam estranhos para tal reconhecimento e ficaram na expectativa quanto ao que aí vinha de novo, embora naturalmente orgulhosos com tal acto.

 

 

3.

Creio que podemos, resumidamente, caracterizar em 10 pontos a situação da língua mirandesa na altura da aprovação daquela lei:

i. estava a viver uma vida para além do prazo de validade que muitos lhe tinham vaticinado [José Leite de Vasconcelos, António Maria Mourinho e outros];

ii. tinha o prestígio e auto-estima no seu ponto mais baixo, para a maioria dos mirandeses era uma vergonha falá-la, considerada como fala charra ou fala caçurra, fala burreinha face ao falar grave ou falar fidalgo;

iii. tinha-se interrompido o processo de transmissão familiar e comunitário, apenas subsistindo em situações contadas, sem que tivesse sido substituído por outro, seja o ensino, seja a comunidade;

iv. era usada por menos de uma dezena de milhar de falantes [não há rigor quanto aos números], em que os jovens eram em pequeno número, numa situação de verdadeiro enclave linguístico ou mesmo de ilha linguística, sem qualquer elo com as regiões próximas de fala asturiana ou leonesa;

v. era falada numa região economicamente deprimida e em processo de desertificação acelerada, como outras regiões do interior/fronteiriço;

vi. praticamente não era escrita e não tinha literatura, além da literatura popular de tradição oral; é verdade que uma convenção ortográfica estava em discussão, mas foi adoptada já depois da entrada em vigor da lei;

vii. era considerada, mesmo por muitos mirandeses, como uma língua menor, definitivamente marcada pela ruralidade e, portanto, incapaz de dizer a ciência, as técnicas, o mundo moderno, inapta para acompanhar os mirandeses que decidissem mudar o seu tipo de vida e por isso condenada a morrer com a urbanização e o ocaso do mundo rural de sabor medieval;

viii. era praticamente desconhecida do resto do país, que continuava a orgulhar-se de ser o único país monolingue da Europa e se algumas ideias sobre ela havia eram negativas;

ix. em termos académicos, não era unânime a sua aceitação como língua, e os estudos sobre a sua estrutura e a sua história eram muito limitados, mostrando um grande desconhecimento, sem prejuízo de notáveis casos de sinal contrário;

x. estava ausente das principais instituições relevantes para as pessoas, nomeadamente o Estado e a Igreja: quem fosse à Terra de Miranda à sua procura corria o sério risco de vir de lá convencido de que já não existia, como chegou a acontecer com vários investigadores.

Se quisermos usar uma expressão pedida de empréstimo à medicina, podemos dizer que nessa altura o mirandês estava ligado à máquina.

 

 

4.

Em termos europeus, quando se fala da diversidade linguística, em regra tem-se presente a diversidade das línguas estaduais. Porém, além destas, há dezenas e dezenas de outras línguas, um imenso mosaico em que o mirandês é seguramente uma das pedrinhas mais pequeninas. Do ponto de vista geográfico e do número dos seus falantes é uma microlíngua, apesar de em todos os aspectos relevantes ser uma língua como qualquer outra. E tal continua a ser assim mesmo ao nível da Península Ibérica onde encontramos situações similares à do mirandês como o aranês, o aragonês ou a fala, embora haja outras línguas não estaduais que dispõem de recursos muitíssimo superiores como o catalão, o galego, o basco e mesmo o asturiano, apesar do deficit de reconhecimento legal de que esta última sofre, injustamente.

Estamos num processo mundial e europeu de acelerada homogeneização linguística. Se nada mudar, mais de 90% das línguas podem extinguir-se neste século. E línguas como a mirandesa continuam claramente ameaçadas. Por isso, podemos perguntar-nos? Não é a morte algo de natural ao que vive e aos produtos do engenho humano, como as línguas? Então porquê esta preocupação em salvaguardar a diversidade linguística? Que interesse é que isso tem para a humanidade, para uma comunidade como a europeia ou para um país como Portugal ou, até, para a própria comunidade de falantes mirandeses?

 

 

5.

Para responder a essas e outras questões similares fala-vos alguém interessado, a quem os problemas respeitam directamente e que, por isso, fala em simultâneo em nome da razão e em nome do sangue. É aqui, ao sangue, que sempre as coisas vão bater: falamos de preservação da diversidade e não podemos esquecer que a tentativa da sua eliminação a vários níveis foi uma das bases ideológicas da 2.ª guerra mundial. É aí, à negação da diversidade, que também vão bater todos os fundamentalismos, sejam os de hoje, sejam os de outros tempos. Estamos a falar da essência da democracia, da liberdade e da dignidade humana. Vendo as coisas por outro lado, estamos a falar de um caminho para a paz num mundo que continua assolado pelas guerras. Este é um problema dos cidadãos, mas também do Estado e das suas instituições mais representativas, como a Escola, em particular do ensino superior, que aqui nos acolhe.

As línguas, aí incluídas as que chamei microlínguas, como o mirandês, são testemunhos vivos da diversidade histórica e das complexas relações que as comunidades entre si foram estabelecendo. Elas são um testemunho excepcional de convivência da diversidade. São portadoras de características exclusivas, representativas do engenho humano e da sua capacidade de sobrevivência nas condições mais adversas, mesmo contra o que poderia resultar las naturais leis da entropia. A diversidade, também linguística, é essencial ao mundo e ao seu bem estar, pois é algo que está inscrito no nosso ADN cultural como povos e como pessoas. Por isso mesmo, é um essencial problema ecológico, no sentido mais literal que esta palavra comporta: elemento essencial do equilíbrio do nosso mundo, do mundo que vimos construindo desde há milénios ou séculos e que nos define como hoje somos. Faltando, é o nosso mundo que está em causa como lugar habitável. Há que ter muito cuidado para não entender o chamado património imaterial da humanidade como algo apenas do passado, destinado a morrer, esquecendo que os aspectos imateriais são aqueles que movem a humanidade, aqueles por onde a nossa vida respira. Então, tudo o que se diga sobre o tema que aqui me ocupa nunca será exagerado.

 

 

6.

Apesar da importância da diversidade linguística, a verdade é que o mirandês estava a poucos passos da sua morte, como já referi. Daí a pergunta que se colocou: vamos desligar a máquina ou vamos investir no ressurgimento da língua? Vale a pena? Há vontade, saber, meios e forças para tanto?

Muitos pensavam que devia deixar-se o mirandês morrer sossegado e de modo natural, sem novos traumas, se possível guardando gratas recordações do seu passado rural, a que não deveria nem tinha condições para sobreviver. A aprovação da lei seria apenas uma espécie de vingança da história, o canto do cisne ou o salvo-conduto para uma velhice serena mas precária.

Porém, acabou por desencadear-se um movimento de ressurgimento da língua que, embora com um alcance limitado, trouxe aspectos novos e criou realidades novas que, em 1998, eram inimagináveis.

Muitos mirandeses acreditaram que valia a pena e lançaram-se numa aventura com a qual não é fácil encontrar paralelo, pois era necessário recomeçar quase tudo desde o zero, praticamente sem apoios e com meios mínimos.

Foi nessa aventura que também entrei, embora tenha tido um papel insignificante na fase anterior à aprovação da lei. Trata-se de um movimento quase exclusivamente de cidadania, ainda em curso, esperando aguentar até que possam surgir novas forças e novos meios, antes que morra de exaustão.

 

 

7.

O essencial do que aqui importa dizer deve apontar em três sentidos:

i. por um lado é essencial perceber a história, de como até aqui chegamos, pois sem esse diagnóstico nada é possível;

ii. em segundo lugar, falaremos dos esforços que têm sido feito pelo ressurgimento da língua;

iii. por fim, importa identificar os bloqueios ou dificuldades que ainda impedem a sua progressão e a sua saúde.

 

 

8.

Falando em termos genéricos e não apenas tendo presente o caso do mirandês, houve momentos decisivos na menorização e precarização de muitas línguas. Habitualmente costumam apontar-se como momentos importantes:

i. a criação do estado, momento a partir do qual as línguas não estatais entram num processo de erosão, de precarização ou mesmo de extinção, para tal bastando, se mais não houvesse, o prestígio da língua estatal como elemento eficacíssimo para a subordinação de uma língua, muito mais que a repressão;

ii. o desenvolvimento da escrita nos séculos XII-XIV altura em que umas línguas acedem à escrita e outras não, ficando sem essa importante tradição de escrita;

iii. o surgimento da imprensa nos séculos XV-XVI deixou de fora muitas línguas, pois essa nova técnica veio introduzir critérios comerciais.

Também este aspecto se verificaram na menorização do mirandês, como veremos adiante, mas vários outros factores foram essenciais.

 

 

9.

A história das línguas minoritárias não se percebe se não tivermos em conta a consolidação do estado moderno. Sobretudo a partir do século XVI, o estado absolutista, depois das luzes, guiado pela razão de estado, necessita de uma língua nacional, de unidade na sua por vezes imensa variedade, faz-lhe falta uma literatura nacional que se exprima numa determinada língua, a língua da corte, dos seus grandes escritores e pensadores, a língua das suas epopeias. É o triunfo da Razão também no domínio da língua.

Em paralelo com a língua estadual apenas podem ser colocadas as línguas clássicas, o latim e o grego, delas se apoderando através de um verdadeiro mito fundador que leva a que delas seja excluído tudo o que tenha proveniência diversa. É então e só então que se começa a colocar o problema de falar bem, de escrever bem, da língua canónica que é a língua literária e culta, devendo tudo o mais ser combatido por todas as formas.

A parafernália de expressões linguísticas, de modos de dizer rudes, de palavras estranhas que já ninguém na corte usa ou entende, de expressões culturais ainda algo bárbaras, etc., tudo isso deve ceder o passo à harmonia da unidade, à elevação da língua culta. Numa palavra, as línguas diferentes da estadual começam a ser aberta questionadas e o primeiro e óbvio passo é a sua menorização, ainda que nem sempre de modo sistemático.

Sobretudo a partir do século XIX, começam a soprar os ventos do chamado liberalismo. Este explode nas revoluções americana e francesa, com as suas proclamações dos direitos do cidadão, de liberdade, igualdade fraternidade, e com essas revoluções descobrimos que a diversidade de opiniões políticas deve ter expressão ao nível do próprio estado, agora inimigo do estado absolutista.

Essa orientação ganha especial corpo com o chamado romantismo, que preconiza o regresso às origens, ao passado, sobretudo medieval, a muito daquilo que o estado absolutista tinha deitado fora com a sua ânsia de racionalidade, que via na Idade Média a idade da trevas e do obscurantismo. Tradições, literatura popular, línguas minoritárias conhecem por esta altura um primeiro reconhecimento, superficial é certo, mas efectivo e importante.

Também o mirandês acaba por ser redescoberto com esse movimento, em 1882, com José Leite de Vasconcelos.

Com o liberalismo, começa a colocar-se o problema do individualismo, da liberdade, mas essa não é uma orientação que siga sem sobressaltos. A ele lhe sucedem de modo intermitente novos e mais eficazes absolutismos, novas e mais refinadas razões de estado, que negam a diversidade, a democracia, agora sob o signo dos socialismos, em particular dos comunistas, que promovem o mais radical igualitarismo.

Estas correntes têm a sua expressão mais acaba nos fascismos e no nazismo nacional-socialista, defensor de que só o bem nascido [eugenia] tem direito a sobreviver, encarando a diferença como uma doença, merecedora de erradicação implacável e sistemática. Por um caminho semelhante vão os diversos comunismos de estado.

Todo este período é acompanhado por um desenvolvimento significativo do ensino, das comunicações em geral e da imprensa em particular. Esse ensino apenas pode ser ministrado na língua do estado central, a língua das instituições, a língua dos livros e dos professores, a única que tem uma literatura com significado.

 

 

10.

O actual projecto europeu nasceu (anos 50 do século XX) dos escombros destas orientações e práticas que levaram à guerra e à destruição em massa e aos poucos foi afirmando a necessidade da sua negação e da sua ultrapassagem, para que nunca mais se repetissem.

Esta nova Europa assume-se como diversa e como democrática, tolerante e diversa, assente em estratégias de cooperação e não de domínio de uns povos sobre os outros.

Em rigor, quando falamos de línguas minoritárias, estamos a falar de um problema de liberdade, um problema que julgávamos definitivamente resolvido, mas que periodicamente nos rebenta nas mãos, colocando sempre novos problemas a resolver, provocando grandes estragos e tudo pondo em causa, obrigando-nos a retomar um caminho que deve ser constantemente aprofundado e não pode ser travado por nada nem por ninguém.

Muitos têm aproveitado a questão da língua para promover a autonomia política, o que considero um erro. As duas questões devem ser separadas e seguir caminhos próprios, pois não têm que coincidir. Esse caminho complicou e muito a vida às línguas não estaduais, erradamente associadas a programas autonomistas ou independentistas. E com isto não quero questionar o bem fundado desses desejos de autonomia, apenas afirmar que essa questão não se confunde com a da língua.

 

 

11.

Vejamos agora o que se passou com o mirandês. Este é uma variedade de leonês ou asturleonês, língua que, como muitas outras, surge na sequência do desmoronar do império romano e de uma profunda inter-relação entre a língua latina e as línguas faladas na região ‘grosso modo’ ocupada pelos ástures e depois alargada com o reino de Leão.

O leonês começou por ser língua real e de cultura, precedendo o nascimento de Portugal, escrita em muitos documentos medievais até ao século XIV. Portugal foi, pois, desde sempre, um país bilingue. Quase todo o distrito de Bragança era região de fala asturleonesa, língua cujas pegadas se mantêm ainda em todo esse território, pelo menos ao nível do vocabulário e da toponímia, em especial da toponímia menor. Como língua, acantonou-se progressivamente junto à região de fronteira, da Lombada ao Planalto Mirandês.

Lentamente, mas de modo seguro, assistimos à institucionalização das línguas faladas na corte, o português, o castelhano, o catalão e o aragonês. Porém, apenas cerca do século XV/XVI se coloca verdadeiramente o problema linguístico, através de um movimento que é contemporâneo do movimento cultural conhecido como Renascimento e Humanismo, mas também da afirmação do estado moderno, que em Portugal tem um significativo momento de viragem com D. João II.

Do ponto de vista linguístico este movimento traduz-se em duas orientações fundamentais, cujas concretizações importa revisitar, pois tal exercício não é comum entre nós:

 

a) um movimento de afirmação da língua, que assume as seguintes traduções práticas:

i. o estudo da língua, com o surgimento dos primeiros gramáticos;

ii. o enaltecimento da língua, apresentada como superior a todas as outras, no nosso caso sobretudo a castelhana;

iii. o incentivo a escrever em português, de que são expressão mais conhecida os versos de António Ferreira;

iv. o movimento para rezar em lingoagem, desencadeado pelas constituições episcopais, na sequência do Concílio de Trento e do seu Catecismo, que por todos deve aprendido, para reforçar a fé e prevenir as heresias: a língua nacional não é apenas a língua do rei, é também a língua de Deus e este segundo aspecto não deixa de ser tão ou mais eficaz que o primeiro. [Deixe-se aqui uma nota de como o Concílio de Trento transformou as línguas num problema ideológico, de grandes consequências: o latim foi definido como a língua de Deus mais genuína, a ponto de a versão oficial da Bíblia não ser a das suas línguas originais, mas a versão atribuída a São Jerónimo, a Vulgata];

 

b) um movimento de menorização de todas as línguas ou dialectos falados internamente, inibindo as pessoas de as falar, através da sua ligação a posições de atraso, de má vida, de incultura, assim gerando sentimentos de vergonha e de repúdio:

i. os mais elevados momentos desse movimento de menorização das línguas regionais e dos dialectos atingiu uma elevada expressão com o teatro do século XVI, que sempre foi muito popular, onde eram ridicularizados

- os falantes de dialectos regionais, de que é o protótipo o beirão, entre outros;

- os falantes de línguas minoritárias, integralmente encarnados nos pastores sayagueses, falantes de leonês [tudo devido à influência de Juan del Encina, natural de Fermoselle, junto à fronteira com Miranda, mas depois professor em Salamanca e homem da corte espanhola, precursor do teatro ibérico moderno]

ii. essa atitude foi adoptada, sem excepção, pelas classes letradas, sobretudo os funcionários reais e, mais tarde, pelos professores e outros funcionários, gerando um sentimento de humilhação e de vergonha, que foi estando na origem de um sistema de diglossia, isto é, de definição de papéis para cada uma das línguas [familiar e comunitário por um lado e institucional por outro];

iii. essa situação mantém-se nos nossos dias, em que a língua portuguesa caminha para a sua integral padronização, continuando a ser frequentes as atitudes de ridicularização das expressões dialectais [o falar à moda do Porto, à moda do Alentejo, ou das ilhas, por ex.], a  ponto de, por vezes, se sugerir que quem assim fala é menos inteligente pois, em rigor, não aprendeu a falar bem.

 

 

12.

Deixem-me dar-vos o exemplo daquilo que se passou comigo próprio. Eu tenho o privilégio de ter nascido com essa língua, numa altura em que ela era desprezada e considerada própria de gente atrasada, inculta e menos inteligente, razão porque fui obrigado a assumir o português ao entrar na escola.

Por isso, tenho agora duas línguas maternas, por elas dividindo a minha maneira de dizer o mundo, completando-se uma à outra, sem se deixarem confundir. Hoje auferem, dentro de mim próprio, de um verdadeiro estatuto de igualdade, o que nem sempre aconteceu:

i. numa primeira fase, o mirandês prevaleceu em termos absolutos;

ii. foi perdendo esse estatuto a favor do português a partir dos meus 11 anos, quando tive de sair da minha terra para ir estudar, primeiro em Vinhais e depois em Bragança, nessa caminhada conquistando o português como língua própria ao fim de uma longa e difícil luta, que durou até por volta dos meus 18 anos [note-se que o meu português é um português padrão e não o típico de Miranda ou da região do Nordeste];

iii. o estatuto de igualdade das duas línguas, dentro de mim, só volta a surgir já nos anos 90 do século XX, nomeadamente depois da aprovação da lei n.º 7/99, de 21 de janeiro.

 

 

13.

Em setembro de 1999 escrevi um manifesto intitulado Çtino para ua Lhéngua Marimunda. Manifesto an forma de hino. Esse manifesto foi lido a muita gente e por muita gente, distribuído em folhas e na internet. Aí se reflectia sobre a história da língua e se apelava aos mirandeses, perguntando a certa altura:

 

Que çtino queremos pa l mirandés?

Hai un tiempo para todo. Agora ye l tiempo pa respunder a la pregunta. Pa respunder cula  cabeça.(...) Ye mui defíçele respunder: la lhéngua está tan mala q’inda nun se çcubriu remédio que la salbe.

 

Depois, avançavam-se algumas propostas simples. Deixai-me que vos leia trechos dessa parte.

Ne ls últimos trinta anhos, la Tierra de Miranda anchiu-se de doutores, de jornales, de rádios, de telbisones. Mas nun hai doutores an mirandés, jornales que lo scríban, rádios que lo fálen, telbisones adonde se beia. L mirandés ye probe i nun tenerá denheiro pa telbisones, se calha nien para rádios. Mas puode tener doutores. I puode tener un jornalico, bien pequeinho que seia, que báia por esse mundo adonde haba un mirandés cula lhéngua amarfanhada andrento por muitos anhos i cun gana de la botar acá para fuora. Nun será assi que la Tierra de Miranda puode amostrar que ye grande? Qual ye l mirandés que nun darie dues crouas para ajudas a un jornalico que biba ũa beç por més, ó cada trés meses que seia?

Ne ls últimos trinta anhos, muita cousa que falában mirandés fúrun zaparcendo, muortas ó scundidas adonde naide las beia: arados, reilhas, charruas, carros de mulas i de bacas, albardas, melenas, jugos, setas de la palha, biendas i biendos, trilhos, fouces, ciguonhas, calagouças, asnales, cestos sterqueiros, cilhas, cargas i arrochos, cabeçadas, maços, colmeiros, fraugas, fornos, eiras i tanta, tanta cousa. Mas la bida nun parou, demudando-se l mundo a cada die. Bamos a deixar que la lhéngua se muorra agarrada a essas cousas que se morrírun, an beç de la fazer bibir agarrada a las pessonas que la fálan, demudando i quedando cun eilhas, indo cun eilhas pa to ls lhados?

Ne ls últimos trinta anhos, la lhéngua fui sendo scamugida de las casas: las cuntas yá nun chúben puls chupones, yá nun come a la mesa, yá nun drume na cama. Na rue, quando adrega a passar, yá hai quien la mire de lhado. A cuntinar assi, sin eira nien beira, há-de-se morrer cul friu, nũa nuite d’eimbirno, ambaixo algun cabanhal adonde, por smola, la deixórun drumir. Nun haberá na Tierra de Miranda ũa casa pa la lhéngua, que seia solo sue i adonde entre quien la querga falar, quien la querga daprender ó, al menos, botá-le ũa mano? Ũa casa que, sin ser scuola, sirba para ansinar quien quejir daprender? I adonde se guárden lhibros que fálen deilha i por eilha? Nun será assi que la Tierra de Miranda amostra que ye grande?

Bou-me a quedar porqui. Mas inda bos quiero fazer un zafio, a bós mirandeses que, cumo you, daprendistes a falar l mirandés anquanto mamábades, i tamien a bós que nun lo cheguestes a daprender bien, mas inda stais an tiempo puis solo por eilhas lhembrais buossos abós, i a todos bós que, séiadaes mirandeses ó nó, solo agora lo çcubris i tamien lo quereis meter andrento. Mirai par’andrento de bós, bien ne l fondo, i respundei, un por un, uolhos ne ls uolhos: quereis ser ls anterradores de la lhéngua q’ardestes? Quereis deixar que se muorra l’única cousa que ye solo buossa i, cumo nanhue outra, bos çtingue? Se quereis, anton ye tiempo de cumprar l caixon i purparar l antierro. Se nun quereis, anton spabilai-bos porque l tiempo ye scasso par’inda fazer algo.

 

Hoje algumas destas propostas estão concretizadas e superadas. Vejamos.

 

 

14.

Havia que escrever, mas para tal era necessário ensinar a escrever e de um modo uniforme, de acordo com a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, preservando a unidade o que não foi nada fácil de conseguir.

Havia que alargar o ensino a todos os graus, o que se conseguiu ao fim de poucos anos, mas um ensino muito deficiente, não obrigatório, com poucos tempos lectivos, sem programas oficiais e sem uma carreira para os seus professores.

Havia que tornar o mirandês escrito presente de modo regular e aí surgiu a Fuolha Mirandesa no Jornal Nordeste.

Havia que dar a conhecer o mirandês aos portugueses, ganhar a sua simpatia e daí a necessidade de uma actividade de difusão, quer através da escrita em mirandês em grandes jornais nacionais como o Público, quer através da tradução de obras populares, de fácil acesso e grande impacto, como foi o caso de Asterix e de Os Quatro Evangelhos.

Havia necessidade de criar uma literatura moderna e de qualidade em mirandês, quer através de obras originais, e nesse domínio muito se tem avançado com a publicação de obras nos mais diversos géneros literários, quer através da tradução dos grandes clássicos, nomeadamente portugueses como foi o caso de Os Lusíadas de Camões e a Mensagem de Fernando Pessoa, os Poemas de Catulo ou as Odes de Horácio.

Havia a necessidade de ocupar os novos espaços da internet e hoje são inúmeros os blogues e sites em mirandês, foi criada a Wikipédia em mirandês, além de se manter uma presença activa no Facebook.

Foi necessário desenvolver a investigação fundamental em mirandês aos mais diversos níveis, quer através do apoio à elaboração de teses universitárias, e várias foram as realizadas ou em curso e em distintas universidades sobretudo estrangeiras, quer da elaboração de materiais fundamentais como vocabulários, dicionários, gramáticas, cursos on line. Nesse sentido muito importante está a ser o projecto que está a ser desenvolvido em conjunto com a Microsof para efeitos de síntese da fala e elaboração de materiais fundamentais.

Poderia continuar a enumerar outros trabalhos que se têm desenvolvido, mesmo no domínio cultural em geral e da música em mirandês de modo especial. Mas creio que os exemplos dados bastam para ilustrar o trabalho imenso que foi feito ao longo da última dúzia de anos com tão pouca gente e com tão poucos meios.

 

 

15.

Perguntemos, então: com todo o esforço que foi e está a ser feito pode considerar-se assegurada a sobrevivência do mirandês? A resposta é inequívoca: não. Porquê? A razão desta resposta, em minha opinião, também não oferece dúvidas: nos nossos dias não há língua minoritária que subsista sem uma adequada institucionalização, isto é, sem que seja assumida pelas principais instituições que com os seus falantes de alguma forma se relacionam. Esta não é uma condição suficiente, mas é uma condição necessária. Foi com a sua expulsão ou não entrada nas várias instituições relevantes da nossa sociedade instituições que o mirandês entrou em perda progressiva. Agora há que seguir o caminho inverso.

De que instituições estamos a falar? Aqui destacarei as mais relevantes para o que aqui importa:

i. as instituições políticas, antes de mais: o estado central, as câmaras municipais, as juntas de freguesia;

ii. as instituições de ensino, seja a nível universitário, seja a nível secundário e básico, mas começando pela atitude do Ministério da Educação, sem o qual nada se faz em Portugal nesse domínio;

iii. os meios de comunicação social, com especial destaque para a rádio e a televisão, através do chamado serviço público;

iv. a igreja, enquanto entidade que tem, tradicionalmente e continua a ter, uma influência decisiva nas populações.

Neste domínio, assistimos a algumas iniciativas esporádicas e inconsequentes, que não tem qualquer efeito ao nível da preservação e desenvolvimento da língua. Porquê esta atitude? Penso que as razões são várias e vão desde a ignorância, à inércia. Mas, na base da atitude das instituições está uma atitude de desprezo e de falta de respeito pelas pessoas, bem como manifestações diversas do que acima chamamos razões de estado e que se desenvolveram com o alicerçar do estado moderno. Ao contrário do caso de outras línguas, essa atitude não pode derivar do receio que a língua pode suscitar dado o peso que poderia adquirir.

Com efeito, que peso, social, político, económico tem uma língua que é falada, ainda hoje, por gente em geral pouco letrada, sem qualquer peso económico e  em número tão reduzido que nem sequer chega aos dez mil falantes?

A principal vitória institucional do mirandês até hoje foi a sua consagração legal, mas não devemos esquecer que essa é uma consagração pouco clara e débil em muitos aspectos, que se arrisca a não passar do papel. Porém, apesar das suas limitações, a lei nem sequer tem vindo a ser cumprida pelas instituições que a tal estavam obrigadas por força dessa mesma lei.

A razão da atitude das instituições também não pode ser financeira, não pode ser porque é algo que fique muito caro. Com efeito, a maioria do que há a fazer é uma questão de atitude, nem dinheiro exige. Nos casos em que se exige dinheiro ele é em tão pequena quantidade que parece ridículo se comparado com outros tipos de gastos completamente inúteis a que assistimos. Basta visitar Miranda e, logo à entrada, observar as obras do Fresno, onde se gastaram milhões, que destruíram o ecossistema do rio e hoje a ninguém aproveitam. Diga-se que uma atitude positiva sempre poderia programar os gastos, mas essa questão nem sequer se chega a colocar. Não, o problema não é de dinheiro. Por isso, não tenho dúvidas, o julgamento da história será mais rigoroso.

 

 

16.

A atitude das várias instituições, que acabamos de referir, condiciona decisivamente a atitude das pessoas, a atitude dos falantes efectivos ou potenciais do mirandês. É sabido que a sobrevivência de uma língua nunca será possível sem uma atitude positiva, empenhada dos falantes nesse sentido. O síndroma da língua charra, da língua caçurra ainda não desapareceu completamente, o que bem se compreende pois se trata de um complexo colectivo que tem séculos de existência.

As pessoas olham para aquelas instituições e os seus dirigentes e não recebem qualquer incentivo prático, uma atitude constante e consistente de apoio à língua. Dou-vos um exemplo recente: a Câmara de Miranda do Douro fez uma exposição de fotografias e publicou um catálogo com essas fotos e histórias de pessoas de idade que, na maior parte dos casos praticamente só falam mirandês, mas é tudo publicado em mirandês; a minha mãe consta desse catálogo e disse-me que apenas falou em mirandês quando foram ter com ela.

Passamos nas ruas (de Miranda ou das aldeias) e nas estradas e a toponímia em mirandês ainda não é a regra; entramos nos erviços públicos e a sinalética em mirandês é inexistente. Isto é, o mirandês não está de modo natural e tão frequente quanto necessário nos espaços públicos.

O mirandês é factor de preferência no emprego, em igualdade de circunstâncias? De forma alguma.

As instituições elaboram os seus documentos em mirandês ou bilingues? Nunca. A Câmara de Miranda poderia ter uma pessoa, uma só que fosse, dedicada a essa tarefa, mas nem isso.

Poderíamos continuar a perguntar e a dar exemplos. Enfim, todo um conjunto de factores que de forma alguma conseguem ser superados por todos os aspectos positivos que acima enumerámos e que estão a ser desenvolvidos. Deste modo as pessoas não têm qualquer incentivo para ensinar os seus filhos e falar com eles mirandês.

 

 

17.

Se assim é, para quê continuar a lutar pelo mirandês, sem descanso, continuando a acreditar que a sua viabilidade é possível, essa atitude que em vez de acreditar no futuro procura conquistá-lo com a sua atitude de agora?

Em primeiro lugar, é um dever de cidadania que se nos impõe. Nós, os trazemos connosco a língua mirandesa, não podemos esperar que sejam outros a fazer o que a nós compete. Já no início desta conferência falei da importância das línguas, incluindo das microlínguas como o mirandês.

Em segundo lugar porque o mirandês é um elemento importante no bem estar, na felicidade daqueles que o falam. E isso é muito importante para a sociedade.

Devemos procurar manter e desenvolver a língua até que melhores condições se criem, nomeadamente a nível institucional. É como aguentar vivo alguém que tem uma doença incurável, mas que luta pela vida na esperança que se descubra uma cura para a sua doença.

O legado que a língua e a cultura mirandesas podem deixar ao nosso país e à humanidade será completamente diferente se mantivermos a nossa luta pela língua ou se a abandonarmos.

Mas já hoje, o contributo que podemos dar para a convivência na diversidade, para a aceitação e a valorização do que é diverso, é um contributo essencial, ainda que diminuto, para a sanidade da nossa sociedade, para a dignidade humana em que assenta o respeito e a paz.

Os critérios meramente utilitaristas são muito perigosos e a nossa sociedade acabará por ser vítima deles se não fizermos tudo para os contrariar. Passar o tempo a perguntar, para que serve? pode levar-nos a um ponto em que essa pergunta nos seja colocada a nós próprios ou a uma sociedade inteira e não sejamos capazes de aguentar a resposta. Num livro sobre a velhice, ainda inédito, sob a forma de diário de um velho, escrito nos anos cinquenta do século passado, escrevo a certa altura:

 

Pa que sirbe un sacho?

Pa que sirbe un arado?

Pa que sírben ls çapatos?

Pa que sirbe un bielho?

Siempre la mesma pregunta: pa que sirbe!?

L que nun sirbe para nada, bota-se pa la rue. Solo stroba. Nun hai campo para todo.

L mal ye que l que sirbe ó nun sirbe, depende de quien dá la repuosta: uns arríncan l jóio, mas outros ségan-lo para se lo dar a las béstias.

Passo ls dies sentado ne l puial de piedra de la rue: quien passa mira para mi. Sirbo para esso. A las bezes pongo l chapéu an riba de ls uolhos i miro por baixo. Quien passa pensa que stou a drumir. Assi, las pessonas míran i pénsan. Tamien sirbo para esso. Quando se ban todos pa l termo i ls garotos quédan porqui, sirbo pa le cuntar cuontas i, a las bezes, mandá-los star quietos quando son mi zanquietos.

Quando ua pessona passa la bida a preguntar, “para que sirbe?”, puode quedar cun un porblema mui grande: chega a bielho i nun aguanta ls delores de la repuosta.

 

 

18.

É tempo de concluir. Vale para as línguas, mesmo as mais débeis, mesmo as microlínguas como o mirandês, o que vale para nós próprios: a vida é uma conquista de cada dia, nada estando garantido, e enquanto estamos vivos vale sempre lutar pela vida.

Este é um trabalho apaixonante de cidadania a que muitos mirandeses como eu continuarão a dar o seu melhor, empenhando o seu engenho, pois esses são os únicos milagres possíveis, mas sem que nada garanta qualquer resultado. Termino com as palavras que, no seu poema MENSAGEM, ainda este mês publicado em mirandês, Fernando Pessoa colocou na boca do rei D. Duarte:

Cumpri contra l Çtino l miu deber.

Einutlemente? Nó, porque l cumpri.

Ou, então, as palavras que coloca na boca do prisioneiro de Fez, D. Fernando:

... benga l que benir, nunca será

Mais grande que mie alma.

 

Bragança, Instituto Politécnico, 28 de Outubro de 2011

Amadeu Ferreira

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