Domingo, 25 de Setembro de 2011

O Mirandês e a Literatura Mirandesa (2011)

 

 

O MIRANDÊS E A LITERATURA MIRANDESA

 

 

POSFÁCIO

 

[a A Terra de Duas Línguas.Antologia de AutoresTransmontanos.Coord. de Ernesto Rodrigues e Amadeu Ferreira, edição Academia de Letras de Trás os Montes, IPB – Instituto Politécnico de Bragança, e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa, 2011, pp. 545-549]

 

 

 

1. A língua mirandesa pertence à família de línguas asturo-leonesas e, como elas, é filha do latim. Constitui-se a partir de um dos romances que se desenvolvem a partir dos escombros do império romano e vai ganhando características próprias a partir da sua integração no reino de Portugal, pois já nessa altura se falava como língua principal da corte e do reino de Leão. O contacto com o português e o castelhano influenciaram-na, mas as suas caratcterísticas de língua astur-leonesa mantiveram-se até aos nossos dias, atravessando séculos e sobrevivendo ao permanente ataque que usa como arma o descrédito, a vergonha, a humilhação, um feito que é um autêntico milagre cultural. A sua forte estrutura como língua, a situação de diglossia dos seus falantes, sobretudo a partir do século XV-XVI e, em especial, o facto de se integrar num amplo espaço de falantes com boas relações sociais e económicas, ignorando as fronteiras políticas, eis as principais razões que permitiram a sobrevivência da língua mirandesa. Hoje é uma língua falada na ponta mais Nordeste de Portugal, no distrito de Bragança, junto às Províncias de Zamora e Salamanca, numa área de pouco mais de 500 km2, e contando com uns 7 000 falantes, aí consideradas também algumas comunidades que residem nas maiores cidades de Portugal e no estrangeiro. Desde 1999 é uma língua reconhecida oficialmente pelo Estado Português, através da lei n.º 7/99, de 21 de Janeiro, e é ensinada nas escolas públicas de Miranda do Douro desde a pré-primária até ao 12.º ano, sendo dados cursos por várias instituições, em especial a Associaçon de Lhéngua Mirandesa, na região de Lisboa. Sendo uma língua de tradição oral, apenas se lhe conmhecem escritos desde 1882, depois de ‘descoberta’ e estudada por José Leite de Vasconcelos, escrevendo-se hoje de acordo com a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, publicada em 1999. A forte presença da língua leonesa, até à Idade Média, na maior parte do actual distrito de Bragança é responsável por uma grande quantidade de leonesismos no português falado nessa parte de Trás-os-Montes, o que ainda hoje lhe dá um ar de família próxima em relação ao mirandês.

 

2. Sempre existiu uma riquíssima literatura mirandesa de tradição oral, nos mais diversos domínios da expressão popular: poesia, romance, conto, cantiga, oração, etc. Algumas das formas dessa literatura são mesmo específicas da terra de Miranda, como é o caso dos lhaços, poemas que acompanham a dança dos chamados pauliteiros. Uma parte importante desse património está ainda por recolher e, sobretudo, por organizar e estudar. Muita dessa literatura é em português e em castelhano, mas um núcleo significativo é em mirandês. Pareceu-nos importante dar aqui conta dessa literatura, pois em antologias da poesia do país apenas uma composição foi até agora publicada, em Rosa do Mundo. 2001 poemas para o futuro (2001). É uma pequena amostra, mas permitirá fazer uma ideia mais clara dessa literatura oral de tradição popular. São de realçar as recolhas, publicações e estudos feitos sobretudo por José Leite de Vasconcelos, Serrano Baptista, António Maria Mourinho, Domingos Raposo, Mário Correia, António Bárbolo Alves, Amadeu Ferreira, Duarte Martins e Mariana Gomes, entre outros.

 

3. Não consideramos aqui os textos medievais escritos em astur-leonês e datados da terra de Miranda, pois são textos particulares não literários, ainda que apresentem uma linguagem muito próxima da actual. A literatura escrita em língua mirandesa inicia-se em 1884, com a publicação do poemário de José Leite de Vasconcelos, Flores Mirandesas. A este autor se devem também algumas traduções de Luís de Camões. Ainda no século XIX, assistimos à publicação de poemas originais por Francisco Meirinhos, de traduções de Camões e de Antero de Quental por Manuol Sardina / Manuel Sardinha, de Luís de Camões e de Os Quatros Evangelhos por Bernardo Fernandes Monteiro, autor que também publica a tradução de contos e diálogos vários. Deve-se a Francisco Garrido Brandão uma peça de teatro em mirandês, Sturiano i Marcolfa, publicada por José Leite de Vasconcelos, e uma versão de vários lhaços em mirandês, ainda inéditos.

Já no século XX, António Maria Mourinho publica vários poemas em mirandês, depois reunidos no volume Nuossa Alma i Nuossa Tierra (1961), a que se veio juntar mais tarde o poema Scoba Frolida an Agosto (1979) e outros poemas dispersos. A um autor não mirandês, Alfredo Cortês, se deve uma importante peça de teatro em mirandês, As Saias (1938), que chegou a ser representada no Teatro Nacional D. Maria II. Também Manuel Preto escreve poemas em mirandês, reunidos postumamente no volume Bersos Mirandeses (1993). Caracteriza este primeiro período da literatura mirandesa a preocupação de estabelecer um corpus que fixasse um património linguístico ameaçado, como é expressamente referido pelos principais autores, em particular por José Leite de Vasconcelos e António Maria Mourinho. Predominam os tradutores e, em matéria de obras originais, a poesia, em boa parte de de escasso valor literário. Um dado a ter em conta é que esta literatura nunca esteve ao alcance dos mirandeses, pelo que não teve influência efectiva na língua, nos falantes e, em geral, na cultura mirandesa.

Desse período aqui deixamos uma amostra do que nos pareceu mais representativo. Desde logo o poema mais conhecido de José Leite de Vasconcelos, publicado em Flores Mirandesas (1884), mas também as cartas escritas a esse investigador por Manuel Sardinha e por Bernardo Fernandes Monteiro, que estiveram inéditas até agora, bem como excertos de um poema de Francisco Meirinhos. Um segundo grupo de textos é uma amostra de poetas populares cujas produções orais foram por outros reduzidas a escrito. Estão nesse caso Francisco Garrido Brandão, no teatro, António Luís Fernandes e Domingos Augusto Ferreira na poesia, escolhidos entre muitos outros que aqui não é possível referir ou antologiar. Por fim, deixamos ainda poemas dos três autores mais significativos deste período, e que já escreveram na segunda metade do século XX, António Maria Mourinho, Manuel Preto e Moisés Pires, todos padres, este último ainda inédito. Realce-se que neste período apenas contamos com originais de poesia, não sendo do nosso conhecimento qualquer texto de ficção e em prosa.

 

4. Um segundo período da literatura mirandesa apenas se inicia no início do século XXI, em consequência da conjugação de vários factores: o início do estudo do mirandês nas escolas; o interesse da autarquia pela língua mirandesa; o desenvolvimento dos estudos académicos que culminaram na aprovação da Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa; a aprovação da lei n.º 7/99 de21 de Janeiro que oficiliazou o mirandês como língua de âmbito regional. O pontapé de saída para esta nova etapa e que podemos considerar como o início da literatura mirandesa moderna é a publicação de uma colecção de livros em mirandês, dirigida por Amadeu Ferreira, pela que era uma das principais editoras do país na altura, a Campo das Letras. Aí se publicaram, logo em 2000, Cebadeiros, de Fracisco Niebro, e Cuontas de la Tierra de las Faias, de António Bárbolo Alves, e, em 2001, Las Cuontas de Tiu Juquin de Fracisco Niebro. Dos dois primeiros se deixam nesta antologia exemplos de composições que iniciaram a renovação da literatura mirandesa no domínio da poesia e do conto.

De então para cá o número de autores a escrever e a publicar em mirandês multiplicou-se. Primeiro em jornais, em particular o Jornal Nordeste, que, desde 2003, passa a contar com uma folha semanal em mirandês. Também a revista da UNEARTA – União dos Escritores e Artistas de Trás-os-Montes e várias publicações periódicas de Portugal e Espanha passam a publicar regularmente poemas em mirandês. Todo este processo culmina com um extraordinário desenvolvimento da escrita em blogues e sítios da Internet, onde o mirandês tem vindo a lançar raízes e a expandir-se, como pode ver-se pela lista de ligações publicadas no blogue http://frolesmirandesas.blogspot.com

É por esta altura que começam a ser publicadas traduções de grandes obras para mirandês, que tornam esta língua conhecida de todos os portugueses e muito contribuem para aumentar o seu prestígio e afastar o tradicional sentimento de vergonha que foi incutido aos seus falantes ao longo de séculos. Dessas traduções se destacam as feitas por Amadeu Ferreira, ora com nome próprio ora com os pseudónimos Fracisco Niebro e Marcus Miranda, de Ls Quatro Eibangeilhos, Asterix l Goulés, L Galaton (este em co-autoria com José Pedro Ferreira), Ls Lusíadas, Catulo, Horácio Flaco e Virgílio, bem como muitas dezenas de poetas de todo o mundo, neste caso através do blogue http://lhengua.blogspot.com. Por fim, deve realçar-se L Princepico, tradução de Le Petit Prince de Antoine de Saint-Exupéry, feita por Ana Afonso.

A pouco e pouco, a literatura mirandesa tem vindo a alargar-se a todos os géneros literários, embora ainda predominem a poesia e o conto. Porém, já é muito frequente a crónica, a reportagem, o teatro e até começam a despontar a novela e o romance. Hoje há coleções em língua mirandesa em editoras comerciais como a Editora Âncora e a Editora Zéfiro, que a cada ano têm vindo a alargar o número de autores e de obras publicados, e também na editora Apenas Livros. Entre os autores deste período cabe referir, na poesia, Adelaide Monteiro, Alcides Meirinhos, Amadeu Ferreira (e os seus pseudónimos Fracisco Niebro i Fonso Roixo), Célio Pires, Conceição Gonçalves Lopes, Domingos Raposo, Emílio Martins, José António Esteves, José Francisco Fernandes, Marcolino Fernandes e Rosa Martins. Já na prosa sobressaem os nomes de Adelaide Monteiro, Alcides Meirinhos, Alcina Pires, Alfredo Cameirão, Amadeu Ferreira (e os seus pseudónimos Fracisco Niebro i Marcus Miranda), Ana Maria Fernandes, António Bárbolo Alves, António Cangueiro, Bina Cangueiro, Carlos Ferreira, Cristóvão Pires, Duarte Martins, Faustino Antão, José Almendra e Válter Deusdado. A estes autores devem acrescentar-se vários escritores jovens que se têm revelado nos jornais escolares L Cartolica e L Pouliteiro e na revista La Gameta. Muitas outras pessoas têm vindo a escrever mirandês com regularidade, mas já não no domínio literário ou apenas de modo muito esporádico, razão por que não são aqui referidas.

Nem todos os autores podem ser aqui antologiados pois várias razões, até de espaço, nos obrigam a conter-nos dentro de limites estreitos. Tal não significa menos merecimento dos omitidos, pois estamos certos de que dentro de poucos anos já será muito diferente o panorama da literatura mirandesa, atento o ritmo a que ela se renova e se alarga. Na poesia escolhemos poemas de Adelaide Monteiro, Domingos Raposo e Fracisco Niebro. Na prosa deixamos textos de Alcides Meirinhos, Alfredo Cameirão, António Bárbolo Alves, Bina Cangueiro, Carlos Ferreira, Domingos Raposo, Duarte Martins, Faustino Antão e Válter Deusdado, todos eles no domínio do conto, um capítulo do romance de Fracisco Niebro La Bouba de la Tenerie e uma crónica de Amadeu Ferreira.

 

5. A capacidade de gerar literatura em vários níveis e em diversos géneros tem sido seguramente um dos modos de afirmação da língua mirandesa. Apesar de todos os avanços já conseguidos, a literatura mirandesa é sobretudo uma literatura do século XXI, pois nos poucos anos deste século se escreveu mais do que em toda a história da língua. Embora ainda muito presa ao seu próprio passado, de cunho memorialista, e muito agarrada ao tema da própria língua, a literatura mirandesa cada vez mais se aventura pelos caminhos da modernidade, nenhum tema ou forma literária lhe sendo alheios. Os meios electrónicos, em particular os blogues na Internet, são hoje a principal forma de divulgação da literatura mirandesa, pois aí publicam com facilidade dezenas de autores. A modernidade, que alguns anteviam como um problema para uma língua minoritária como o mirandês, acabou por tornar-se numa oportunidade única. É certo que a literatura mirandesa ainda é reduzida e de qualidade ainda muito irregular, mas chegou a um ponto a que há bem pouco tempo ninguém imaginava que pudesse chegar, tendo ainda um longo e importante caminho à sua frente para trilhar.

 

Amadeu Ferreira

puosto por fracisco n. às 19:23
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

"La Bouba de la Tenerie", apersentaçon por Luís Vaz das Neves

 

 

APERSENTAÇON DE LA OBRA

 

 

LA BOUBA DE LA TENERIE

 

 

Fracisco Niebro, nacido nas tierras fries de crestianos nuobos de Sendin, angenhoso i criatibo por sou feitiu i por fuorça de la natureza, achou l pretesto cierto para mos falar de las gientes dessa grande region de l praino stramuntano, nua scrita que trai l fuogo de l tiempo an cada palabra. Tenendo l’Anquesiçon cumo cama, Fracisco Niebro cunta-mos la grande cuonta dun home buolto contra el mesmo i l’Eigreija, cundanado mesmo antes de se dar de cuonta de l pecado feito, atermentado cumo la tierra que l biu nacer i adonde se quedou a sufrir cumo mártele porque, cumo l diç la própia figura, “nunca stan perdonados ls pecados que nun mos perdonemos. Nanhun dius ye capaç de perdonar ls pecados que nós nun somos capazes de squecer i mos acumpánhan cumo la selombra” (pág. 53).

 

Todas las figuras de la Bouba de La Tenerie son atermentadas por un çtino que nun le pertence i a quien le son pedidas cuontas por ua Eigreija de que nun conhece la lhéngua i ls mistérios i adonde solo l’Anquesiçon ten boç i poder. Ye eilha la repunsable por todas las zgrácias que se pássan i solo a eilha le perténcen las bidas de todos ls homes i mulhieres, tanto aqueilhas que por eilhes fúrun bibidas, cumo aqueilhas que fúrun ambentadas ne ls termentos de ls que a las manos deilhes padecírun. Todos estes homes i mulhieres son sagrados i de l demonho, tal i qual cumo las tierras que písan i que ls písan, sien nunca mos deixáren andefrentes.

 

Cula arte de la scrita que tan bien le coincemos, Fracisco Niebro falamos dessa ruda i trabalhadora giente stramuntana para quien “l cielo nun passa de pan pa to l anho (...)”, cuncluindo, al falar daqueilhas tierras, que “ye cumo se Dius eiqui achara l mundo feito quando resolbiu fazer la criaçon i passou alantre, derrotado” (pág. 11). Cun cuontas de bidas que se antrelháçan cula simprecidade de ls que sáben ber l relhuzir de ls diamantes nas piedras que inda nun fúrun lhapidadas, Fracisco Niebro arrolha-mos nas sues cuontas. I, cumo nun cinema, pássan delantre de nós las tierras de Sendin, Miranda, Bilachana, Nuossa Senhora de l Naso, Picuote, Fuonte Aldé, Prado Gaton, Carril Mourisco, Cicuiro, Pruoba, Custantin, Dues Eigreijas, Augas Bibas, Fuonte la Taça, Palancar, Granja, Trabanca, Algoso, Granja de Griegos, Belharino de ls Galhegos, Carçon, Argoselo i muitas outras, que Fracisco Niebro bai apersentando, çcritas cun l carino de que solo un amante ye capaç para çcrebir la sue bien amada.

 

Las mulhieres stramuntanas retratadas por Fracisco Niebro son magistrales, antuitibas, cun un coraçon anfenito. Carrégan la boubice que solo ne l Amor se salba. Capazes de l ampossible i nun sendo antendidas puls homes cun quien se crúzan, son eilhas que, por amor, debinalmente znudas d’anteresses i de miedos, se dan a la bida i a la muorte nua lhenguaige que l eimanginairo masculino çconhece i delantre de l qual ten tanto miedo que arrecula, cumo se lhastima Delubina: “(...) ls homes nunca han de ser capazes de antender las mulhieres, nien se dan al trabalho.” (pág. 80).

 

I ye cun este mesmo sentido que mos aparece la fala de Marie Castra cun Anrique Pereç, sobérbio ne l sou zafiu, quando esta le diç:

 

 

- “Zde l purmeiro die que eiqui apareciste, drumi to las nuites cuntigo i solo cuntigo perdi l birgo.

- “Cumo puode ser esso se nunca te topei? Nun bás tu tamien a acusá-me de algo que nun fiç ...”

- “Puode haber cousas mais fuortes do que l topar de ls cuorpos.” (pág. 66)

 

Ye tamien Delubina que zafia l antendimiento de Fraile Antonho de la Santíssema Trindade quando le fala de l sou amor por el, -“(...) quando drumo cun ua pessona ye siempre an ti que penso, ye cuntigo que drumo... naide me tira que seia la mie cabeça a decidir cun quien eilha drume, yá que ne l restro de l cuorpo nun sou capaç de mandar” (pág. 76).

 

Mas ye cun Laurinda, de las tierras de Sendin, La Bouba de La Tenerie, nieta de tiu Jesé Pereç, que l nuosso coraçon queda derramado de todo. La mais guapa rapaza de la tierra, bouba de delor por bias de la muorte de l home a las manos dun guarda de l’Anquesiçon, uito dies apuis l casamiento. Cumo quedar andefrente a esse bózio dua mauga tan cruda i tan fonda, siempre renacida por toda ua bida, cúrtia ne ls anhos i anfenita ne l zaspero, quando la bemos “boziar, cantar, rebolber ls uolhos, passando duas pa las outras sien paraige” (pág. 137), cumo bruxerie sien malzina?

 

La Bouba de La Tenerie ye l’ancarnaçon suprema de todo l Amor que anda por to las outras figuras. Ye neilha que Fraile Antonho de la Santíssema Trindade antende que nun hai pecado mais grande do que deixar ua pessona sufrir ls termientos daqueilha anfeliç, sien que haia un amanhecer para çcansar i squecer.

 

I nisto, sien que se sperara, aparece cumo ua grácia debina, un camino para sanar l delor, cun la magie de las palabras, magistralmente çcrito por Fracisco Niebro. Solo l sonido de las palabras, dezidas an qualquiera lhéngua, cun i/ou sien tino, pula boca de Fraile Antonho, son capazes de atamar La Bouba de La Tenerie. Ye esta drumideira de l delor pula palabra que lhieba Fraile Antonho a acraditar na cura pula fala i a screbir notas para un feturo tratado de las artes de la fala, quando se purparaba para ser relaixado an carne (queimado bibo) pula Anquesiçon. Por curjidade, hai que dezir que este ansinamiento nun fui çcubierto por Fraile Antonho, mas si pul bielho Jesé Pereç, na sue fonda tristeza i sabida eignorança de home simpres. I, por eironie de l çtino, ye esse mesmo tratado que, indo acontra las ourientaçones de la moderna psicanáleze i demustrando la sue eificácia an sanar, le sirbe de apoio a Fracisco Niebro para mos cuntar estas cuontas, quaije quatro seclos apuis.

 

Mas, inda cun toda la sue senseblidade, Fraile Antonho de la Santíssema Trindade nun ye capaç d’antender estas mulhieres! Nacido an San Martino d’Angueira, tierra an que la fuorça de ls sous rapazes ye retratada por Manuel Preto, "Hai bien moços - i que moços / An San Martino d'Angueira: / Quando fázen ua cousa / Nunca la déixan a meio / Siempre la fázen anteira" (Padre Manuel Preto, Bersos Mirandeses, 1993), Fraile Antonho, a la sue moda, yá nesse tiempo assi era! Trágico heirói dua cuonta an que ye prejoneiro, podemos bé-lo inda an nino a ajudar l abade daqueilha fraguesie ne ls oufícios anquanto a la par se ancolhie, grimado, cun miedo a las cuontas de la “Bruxa de Trás Las Peinhas” (pág. 47). Yá home feito, teólogo formado por Salamanca i l mais grande pregador de Miranda, acaba por passar a bibir ne l silenço i nas lhembráncias, scapando-se del mesmo, pelegrinando por to la tierra stramuntana solo çcansando l cuorpo, “que l’alma nunca habie meia de çcansar” (pág. 10), i “traiendo siempre cun el miedos de hai muitos anhos, causos que nien el sabie cumo se habien dado” i sien ser capaç de antender cumo podie “guardar lhembráncias tan amerosas de feitos que solo puoden ser obra de l diabro” (pág. 90).

 

 

Cierto dua relegiosidade mui sue, Fraile Antonho ten la clareza fraturante de quien acradita nun Dius que nun ye l de l’Eigreija de que fala ne ls sous anflamados sermones, quando era l mais afamado pregador de la Tierra de Miranda, arrincando lhágrimas i sanlhuços als aldeanos, que “salien de l sermon cun ua grima tan grande cumo se houbíran bido un miedo, ls uolhos burmeilhos de tanto chorar” (pág. 91). Acradita, alhá cun el, que “Se Dius fizo l mundo, l cielo i l einfierno somos nós que los fazemos. Tanto l nuosso cumo l de ls outros, i estes l nuosso” (pág. 12), cumo que anunciando l eisistencialismo de Sartre i bendo yá l própio fin del.

Mas ye tamien desta tierra de San Martino d’Angueira que ben l alrobés de l çctino de Fraile Antonho que, quaije nun sfergante, deixa de ser l grande pregador para passar a ser l pelegrino farrapilho i scamugido.

 

Ye pulas manos daqueilhes que mais stimou, que ben l castigo del: Delubina i Luís de Medina.

 

Delubina debide-le la bida, que passa a ser cuntada “cun Delubina i sien Delubina, esto sien cuntar las nuobas bidas que fura a achar an Salamanca, puis ua pessona puode tener mais bidas do que un gato” (pág. 46), amentando çclaradamente an Luís de Medina. Ye tamien cun Delubina que son acertadas las cuontas de la bida atrasada de Fraile Antonho, cumprindo-se la bingança de Antonho Gunçalbeç Tolés, nieto de la bruxa queimada an Toledo i que, por isso, “lhebaba l’ampureza de sangre agarrada a la piel, cumo un çtino.” (pág. 18).

 

Mas esta pelegrinaçon ye tamien puosta anriba de Antonho Gunçalbeç Tolés, de Anrique Pereç ou de l cunhado del Manuol Maguel i de muitos outros, mas estes scapando de ls que andában atrás deilhes. Cumo scapando síguen todas las figuras, uas de las outras i deilhas mesmas, porque até l pensar alto mos puode benir a las palabras i, cun eilhas, cumprie-se l Tiempo de Fuogo, cumo bien sabie l tiu Jesé Pereç que “De relegion nada antendie, mas al fin de muitos anhos quaije l cumbencírun de que era mesmo aqueilho de que lo acusában. Acusában-lo an nome dun outro mundo, mas el bie-se mal era para subrebibir neste. Nunca chegou a anatender” (pág. 87).

 

Al fin, diga-se que nesta obra Fracisco Niebro nun perde l’oucasion para mais ua beç le dar l galardon a la lhéngua mirandesa, aqueilha que ye la sue i tamien la mie, lhéngua de ls afetos i de la nineç, aqueilha an que purmeiro daprendimos ls sonidos de las palabras de nuossos pais i que inda hoije sónan cumo las mais guapas músicas. Ye cun l superior de l cumbento de Salamanca, fraile Agustin, que sentimos esse hino a la lhéngua nas falas que dá cun fraile Antonho i ne ls ansinamientos que le trasmite: “Cunsante adonde stubires, assi falarás la  fala desse sítio. Se nun la soubires, nun fagas caçuada de quien la fala, solo porque tu nun la sabes, que essa ye la mais grande sobérbia que puode haber” (...) Sabes que Dius sabe todo, ye ouniciente. Sabe las lhénguas todas i todas las lhénguas para el son armanas. (...) Ls einemigos de las lhénguas, seia de que modo lo fúren, ban dreiticos pa l einfierno sien dreito a passar pul purcatório. Esse ye daqueilhes pecados mortales que naide, nien Dius, puode perdonar.” (págs. 99/100).

 

Mas La Bouba de La Tenerie ye tamien l Tiempo de Fuogo, l Tiempo de cada un de nós, stramuntanos de sprito caliente i apaixonado, que traiemos na carne la fuorça de la Tierra i ne l mirar l Fuogo i la fuorça de ls grandes rializadores de suonhos i que, tal i qual cumo Fracisco Niebro, afírman la sue perséncia i respónden cun poesie eirreberente al sou chamamiento, tal i qual cumo you, cun un bózio suolto i claro tamien l fago, nesta mie alma de mirandés:

 

“Persente!”

 

Bien háiades todos bós!

 

Lisboua, 17 de setembre de 2011

Luís Vaz das Neves

 

 

 

 

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